O braço esquerdo da esquerda

Não se entende se PSD e CDS/PP pós-troika são um projecto político esgotado ou um projecto político em formação.

A sublime retórica oficial tem intoxicado o País com delírios de progresso e devaneios de riqueza. A pessoa do primeiro-ministro representa a pura ortodoxia do deixa-andar, a melhor e maior contribuição da política portuguesa para o concerto das Nações. O Portugal pós-resgate é um lugar extraordinário onde a dívida pública está controlada, a consolidação orçamental é fabulosa, o défice posto na ordem, as almofadas financeiras são um prodígio, o crescimento sobe à estratosfera e o índice de felicidade individual representa o triunfo dos portugueses e o vexame da Europa. Na mais pura heterodoxia das esquerdas, como foi possível tal milagre nacional?

O PS amputado do braço esquerdo resolveu a problema político com a mais extravagante prótese partidária – PCP e BE feitos espírito e carne de um programa político renovado. A nova esperança para Portugal, uma não-coligação de contrários coligada em prol do progresso e prosperidade nacionais, é uma espécie de receita para a pequenez económica e a promiscuidade política, tudo legitimado pelo irresponsável sucesso a curto prazo. E tal o sucesso, que na Europa, particularmente no PSOE espanhol, muito se falou na “solução à portuguesa”.

Decididamente, o PS perdeu toda a sua identidade política, perdeu sobretudo o valor e o significado de uma consciência própria do centro-esquerda — não será um partido social-democrata, nem um partido socialista democrático. Perante a falência ideológica do PS, bem patente na constante evocação dos grandes mitos e figuras fundadoras, o partido incorporou uma vertente neoestalinista via PCP e uma perspectiva pós-marxista via BE. O teatro moralista sobre o estado da Nação serve tão-somente para contornar o profundo populismo de Esquerda que inunda a política portuguesa. O cinismo do Governo fica bem expresso na euforia e no optimismo demagógico de quem oscila em permanência ao sabor dos caprichos e das causas da nomenklatura de apoio.

No entanto, se em Portugal o Governo fala à Esquerda, na Europa o Governo fala à Direita. Refira-se a propósito que em Portugal existe um profundo respeito pela “dor ciática” do Presidente da Comissão Europeia. O mesmo será dizer que qualquer português esclarecido ou europeu contemporâneo encontra na figura do Ministro das Finanças, em cúmulo económico com a Presidência do Eurogrupo, uma espécie de certificação de origem controlada, particularmente enquanto o BCE continuar com o programa de estabilização do mercado da dívida soberana – Aleluia.

Não sendo um pandemónio, o Portugal político está transformado numa lamúria exaltada em torno do SNS, da Escola Pública, da Coesão do Território, da Precariedade, dos Direitos, das Identidades, das Minorias, da Justiça Social, dos Valores da República, dos Amanhãs que Cantam, das Infinitas Utopias. Ao longe e de lado, a democracia liberal portuguesa exibe uma profunda fractura entre o velho sindicalismo e o novo corporativismo. Mais ocultos que declarados, estes dois pontos de fuga representam uma distinta e perigosa ruptura com a tradição democrática nacional. É uma excêntrica associação entre a revolução e a reacção, e cuja única forma de conciliação política passa pelo superlativo do tédio e da estagnação. Um jogo de soma nula.

Uma nota final para a Direita portuguesa. A Direita em Portugal não é moralista, nem egoísta, nem xenófoba, nem iníqua, nem motivada pela ganância, nem liberal ou conservadora, nem individualista ou nacionalista, nem nostálgica ou reaccionária. Não se entende se PSD e CDS/PP pós-troika são um projecto político esgotado ou um projecto político em formação. Perante a incerteza e a dúvida, e tendo em linha de conta as acções e decisões políticas da Direita, pode-se apenas constatar que a Direita portuguesa contemporânea é definitivamente pós-inteligente. Com este panorama, tudo se desvanece politicamente no ar entre o vazio e o vácuo. Até à próxima crise.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve com o novo acordo ortográfico.

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