Famílias já têm mais de 35 mil milhões em dívida do Estado

Entre certificados de aforro, do Tesouro e OTRV, os portugueses têm 35.632 milhões de euros emprestados ao Estado. O valor representa 14,5% da dívida direta do Estado, o máximo de uma década.

As famílias portuguesas não só estão a emprestar mais dinheiro ao Estado como a tornar-se cada vez mais representativas no seu financiamento. Os portugueses têm atualmente mais de 35 mil milhões de euros em dívida do Estado. Trata-se de um máximo histórico e que representa já 14,5% do total do financiamento público. Seria necessário recuar uma década para assistir a um peso mais elevado.

A busca de retorno perante a fraca atratividade dos outros instrumentos de poupança ajuda a explicar essa corrida aos produtos do Estado. Os portugueses têm em mãos atualmente 35.632 milhões de euros em dívida do Estado. Este montante resulta da soma dos 11.873 milhões aplicados em certificados de aforro, 15.809 milhões investidos em certificados do Tesouro e 7.950 milhões de financiamento através das sete emissões de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) que o Estado já realizou.

O valor global do financiamento conseguido pelo Tesouro português junto do retalho corresponde a 14,5% quando comparado com os 246.345 milhões de euros a que correspondia o total da dívida direta do Estado no final de maio, o valor mais recente conhecido.

Dívida pública nas mãos das famílias em alta

Fonte: IGCP

Numa análise histórica, seria necessário recuar até ao ano de 2008 — ou seja, uma década — para ver um grau de representatividade tão elevado no financiamento das famílias ao Estado. Mas antes desse ano chegou-se a assistir a níveis mais elevados. Por exemplo, no final de 2007, ano até onde vai o histórico disponibilizado pelo IGCP — a agência responsável pela gestão da dívida pública portuguesa — as famílias pesavam 16% no financiamento do Estado.

A principal diferença é que o nível de endividamento do Estado era bastante menor nessa altura. Em 2008, a dívida direta do estado ascendia a 118.463 milhões de euros. Ou seja, menos de metade quando comparada com os atuais 246.635 milhões de euros, que representam um nível recorde. Já no que respeita à dívida pública para o retalho, esta totalizava 17.198 milhões de euros no final de 2008. Também menos de metade face aos atuais 35.632 milhões de euros.

Este valor enquadra-se num contexto de maior diversidade no que respeita à oferta de produtos de poupança destinados ao retalho que começou com os primeiros certificados do Tesouro, produto que o Estado lançou em 2010 como forma de captar financiamento numa altura em que já enfrentava dificuldades em aceder ao mercado. E que se estendeu mais tarde ainda às OTRV, compondo o atual trio de produtos de poupança disponibilizados pelo Tesouro português.

Produtos do Estado valem um quarto dos depósitos

Fonte: IGCP e BdP

Uma maior paleta de opções de aforro, mas também com retornos mais atrativos quando comparada com as restantes aplicações disponíveis no mercado. Nomeadamente os depósitos a prazo.

Após os máximos de final de 2010 (4,53%), os juros a prazo dos depósitos a prazo foram caindo de forma gradual para atingir os atuais mínimos historicamente, desincentivando as famílias a alocarem nesses produtos as duas poupanças. Os bancos ofereceram, em média, uma taxa de juro de 0,17% nas novas aplicações a prazo realizadas em maio.

Essa remuneração compara com a taxa de juro média de 1,35% oferecida ao fim de sete anos nos Certificados do Tesouro Poupança Crescimento (CTPC). Já a última emissão de OTRV dispôs-se a pagar 1% também por um horizonte de sete anos de aplicação. Por sua vez, os certificados de aforro subscritos em julho contam com uma remuneração de 0,678%, ainda assim mais atrativa face aos depósitos a prazo.

Produtos do Estado batem juros dos depósitos

Fonte: IGCP e BdP

Perante este contexto não é de estranhar que os portugueses tenham cada vez menos dinheiro em depósitos a prazo, preferindo mesmo ter o dinheiro simplesmente parado na conta à ordem. No final de maio, os portugueses tinham um total de 144.891 milhões de euros em depósitos, 53.746 dos quais em contas à ordem. Os mais de 35 mil milhões de euros aplicados em dívida para o retalho representam atualmente um quarto do montante total que os portugueses têm depositado nos bancos, um máximo de pelo menos uma década.

Já os depósitos a prazo ascendiam em maio a um total de 91.145 milhões de euros, o valor mais baixo desde maio de 2011. A dívida pública nas mãos das famílias já corresponde assim a perto de 40% do stock de depósitos a prazo. Há uma década correspondia a 20%.

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