O charme discreto da sustentabilidade no setor do turismo

  • João Wengorovius Meneses
  • 18 Junho 2020

A dimensão da sustentabilidade na estratégia de desenvolvimento do setor do Turismo é pouco ambiciosa.

Sendo já a maior atividade exportadora do país, responsável por quase 20% das exportações nacionais em 2019, o setor do turismo cresceu 60% em receitas entre 2015 e 2019. O ano passado, o PIB português ascendeu a 212,3 mil milhões de euros e o turismo gerou 18,4 mil milhões de euros em receitas, tendo passado por Portugal 27 milhões de turistas.

Apesar de serem números impressionantes, a meta assumida para o setor pela Estratégia Turismo 2027, do Turismo de Portugal, vai ainda mais longe: pretende-se atingir os 26 mil milhões de euros em receitas, o que representa um crescimento superior a 40% até 2027. Obviamente, estes números e ritmos de crescimento estão a ser fortemente abalados pela crise COVID-19.

Desde logo devido à sua escala e cobertura territorial, é compreensível que o setor do turismo tenha um forte impacto social e ambiental. Ainda assim, e apesar da visão que serve de ponto de partida para a Estratégia Turismo 2027 sublinhar bem a importância da sustentabilidade e de Portugal ter vindo a ser distinguido, nos últimos anos, como destino sustentável, a dimensão da sustentabilidade na estratégia de desenvolvimento do setor é pouco ambiciosa.

Basicamente, do ponto de vista social, para além das metas relacionadas com a qualidade do emprego e a melhoria das qualificações dos trabalhadores, há apenas uma meta relacionada com o impacto do turismo nas populações residentes, medida através do seu grau de satisfação com a atividade turística. Já do ponto de vista ambiental, assume-se uma única meta: a de que mais de 90% das empresas do setor adotem medidas de gestão eficiente de água, energia e resíduos. São metas importantes, mas que poderiam ser mais abrangentes e ambiciosas.

Vejamos alguns exemplos de questões que não são abordadas pela Estratégia Turismo 2027:

  • Como reduzir a intensidade carbónica de um setor muito dependente do transporte aéreo?
  • Para além de promover a eficiência energética, como assegurar que as fontes energéticas são renováveis?
  • Como reduzir substancialmente o uso de plásticos de uso único e outros bens descartáveis?
  • Como integrar a biodiversidade e o capital natural nas estratégias do setor, seja ao nível das unidades hoteleiras, seja ao nível de soluções de turismo de qualidade nos Parques Naturais nacionais?
  • Que estratégia para fenómenos de turismo de massa de curta duração e pouco valor acrescentado, tais como: cruzeiros, caravanismo ou, mesmo, city breaks?
  • Que estratégia para o(s) turismo(s) ligado(s) ao mar?
  • Que estratégia para o fenómeno do short rental, num equilíbrio saudável, por um lado, entre a qualificação do edificado e a diversificação da oferta para os visitantes e, por outro, o bem-estar das comunidades residentes?
  • Como contribuir para a coesão territorial e os planos de ordenamento das cidades e outros territórios, no sentido de poder contribuir para soluções promotoras de qualidade de vida? Por exemplo, como contribuir para um plano nacional de ciclovias ou que metas como voltar a haver golfinhos no Tejo (com regularidade) seja um objetivo nacional?
  • Como incentivar o relato de informação não financeira por parte das entidades do setor do turismo?
  • Como acelerar a transformação digital do setor em áreas que possam traduzir-se em ganhos ao nível da sustentabilidade?

Para compreender melhor o setor do turismo e os seus desafios, estive à conversa com Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal.

  • João Wengorovius Meneses
  • Secretário Geral do BCSD Portugal

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