O desalento de Draghi

No dia em que os europeus deixarem de ver na UE a esperança num futuro melhor, o projeto de Jean Monet e Robert Schuman terá os dias contados.

Faz este mês um ano que Mario Draghi apresentou o “Relatório sobre o Futuro da Competitividade Europeia”, culminar de 12 meses de trabalho do antigo presidente do BCE e da sua equipa para identificar as razões para o atraso do bloco e definir soluções.

O documento, em conjunto com o relatório Letta sobre o mercado único, foi amplamente celebrado como a bússola de que a União Europeia precisava para sair do marasmo económico e vertido na estratégia da Comissão. Volvidos 12 meses, pouco saiu do papel.

A frustração foi expressa pelo próprio Mario Draghi num evento em Bruxelas para assinalar o aniversário do relatório.

Um ano depois, a Europa encontra-se numa posição mais difícil. O nosso modelo de crescimento está a esbater-se. As vulnerabilidades estão a aumentar. Não existe um caminho claro para financiar os investimentos de que necessitamos e
fomos dolorosamente lembrados de que a inação ameaça não apenas a nossa competitividade, mas também a nossa própria soberania.”

O contexto é adverso para um bloco que cresceu com a abertura do comércio mundial. A dependência das matérias-primas críticas da China mantém-se e fragiliza a UE no esforço de bloquear a entrada de produtos chineses. O custo da energia continua a cavar um fosso competitivo face aos EUA, que o facto de a revolução tecnológica da IA exigir uma enorme capacidade energética torna ainda mais preocupante. O mercado único continua a ser incipiente. O IMF calcula que as barreiras dentro da UE equivalem a uma tarifa de 45% no comércio de bens e de 110% no de serviços.

São necessárias reformas, mas a baixa velocidade na adoção choca de frente com um mundo que muda cada vez mais rápido. Os europeus “estão desapontados pela forma lenta com que a UE se movimenta”, diz Draghi. Têm de existir metas concretas e resultados a atingir em meses e não em anos.

O antigo primeiro-ministro italiano insiste que a UE tem de agir de forma mais concertada, juntar esforços para ganhar escala e focar os recursos onde o impacto pode ser maior. Apostar em grandes projetos de investimento que juntem diferentes países, se necessário financiados por dívida comum.

Faz sentido. Só que tudo isto exige um espírito de união e compromisso que a UE hoje não tem. O que ainda existe está, tal como o modelo económico, a esbater-se.

Exige confiança, mas o que cresce é a desconfiança, à medida que forças da direita radical vão desinstalando do poder os partidos moderados do centro.

Exige liderança, algo que a UE também perdeu, com uma Alemanha virada para dentro e a França mergulhada no caos político e financeiro.

Draghi mantém a esperança e pede aos líderes europeus “unidade de propósitos” e “urgência na resposta”, para “enfrentar tempos extraordinários com uma ação extraordinária”.

No dia em que os europeus deixarem de ver na UE uma segurança para o seu futuro, o projeto de Jean Monet e Robert Schuman terá os dias contados.

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