O meio é a mensagempremium

Ocasio usou, na sua estreia num dos maiores eventos "de moda" em Nova Iorque, um "vestido político". Vale um vestido o suficiente para acelerar uma discussão?

"Taxem os ricos". A frase, cosida a vermelho nas costas do vestido branco que Alexandria Ocasio-Cortez usou na sua primeira Met Gala, circulou pelas redes sociais durante praticamente durante toda a última semana. A congressista democrata da Câmara dos Representantes de Nova Iorque escolheu um dos maiores eventos anuais de moda, a acontecer na cidade que nunca dorme -- a cerimónia é uma espécie de Óscares mas dedicados à moda, não fosse a sua "curadora" Anna Wintour, editora-chefe da Vogue americana --, para sublinhar -- e vestir -- a ideia da proposta democrata que, dias antes, tinha sido levada a discussão e que propõe aumentar os impostos sobre quem tem maiores rendimentos, lucros das empresas, mais-valias e imobiliário.

O vestido, assinado por Aurora James e envergado por Alexandria, foi discutido -- criticado e elogiado -- nas redes sociais, e partilhado por muitos milhões de pessoas. A mensagem, simples e direta, foi acompanhada por uma frase do filósofo Marshall McLuhan, "o meio é a mensagem", muito usada, a propósito, nos cursos de comunicação social.

"A gala deste ano é o momento ideal para forçarmos conversas urgentes sobre raça, classe, clima, e justiça. É por isso que o meio é a mensagem, e a moda é um meio. Estou entusiasmada por usar esta oportunidade para passar uma mensagem", refere Ocasio num pequeno vídeo que usou nas suas redes sociais para documentar o processo de desenho do vestido. "Orgulhosa por trabalhar com a Aurora James, mulher e designer imigrante que começou do zero o seu sonho da Brothers Vielles num mercado de roupa em segunda mão, em Brooklyn para ganhar a CFDA contra todas as expectativas", assinala. E acrescenta: "É agora tempo para cuidados às crianças, cuidados de saúde e ação climática para todos. Taxem-se os ricos."

Aurora James, a designer que assina o vestido branco com as enormes letras vermelhas na parte de trás, explica, em publicação no seu perfil de Instagram, que considera a moda "a melhor ferramenta para a auto-expressão, para a partilha da identidade cultural e para desafiar ideias e normas". "Como mulher negra, que também é designer de moda, ativista e dona de um pequeno negócio, trabalhar com a Alexandria Ocasio-Cortez para criar este vestido e esta mensagem para este momento no tempo, em particular, foi incrivelmente importante", sublinha, acrescentando: "Com o acesso surge uma enorme oportunidade. Nunca podemos ficar demasiado confortáveis nos nossos lugares na mesa a partir do momento em que eles nos são atribuídos. Devemos continuar a puxar por nós, a puxar pelos nossos colegas, e a insistir que a cultura e o país evoluam. Mesmo quando não é confortável. A moda está a mudar. A América também".

A mudança tende a ser mais rápida sempre que entra nos circuitos mais mainstream, quando toda a gente passa a adotá-la como algo que já parece "normal", que toda a gente parece seguir. E o vestido usado pela congressista da Câmara dos Representantes de Nova Iorque, ainda que tenha gerado uma onda de partilhas, não garante que o assunto se debata, se discuta e avance, em matéria de fiscalidade.

Ocasio-Cortez autointitula-se "socialista democrática", e integra o grupo Socialistas Democráticos da América do Partido Democrata, que apoiou a pré-candidatura do senador Bernie Sanders na eleição presidencial nos Estados Unidos em 2016. Acusada de "ironia" pelos partidos mais à direita, Ocasio defende-se, explicando que a ideia de taxar os ricos está em cima da mesa, em discussão, e que os meios justificam as mensagens. "A influência corrupta do dinheiro e da política é uma questão apartidária", assinala.

Ocasio usou, na sua estreia no evento de um dos maiores eventos "de moda" em Nova Iorque, um "vestido político". A decisão da mensagem, do vestido, do local onde ele foi usado, e de tantas outras coisas, foi escrutinada sobretudo nas redes sociais mas, sejamos honestos, não levou ainda a uma discussão pública e profunda nem a uma pressão social e ativista à altura da necessidade que a mensagem encerra. Vale um vestido o suficiente para acelerar uma discussão? Ou o sítio onde se discutem os temas devia ser tão criteriosamente pensado e respeitado como a preparação dos mesmos? O baile segue dentro de momentos ainda que, às vezes, o meio e a mensagem se baralhem um pouco.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos