O Risco Sistémico omitido no ORSA
Nuno Oliveira Matos defende que mudar a cultura tradicional das seguradoras é o elemento mais em falta, não são mudanças de regras nem tecnologias, estas de nada servem se o pensamento ficar igual.
A modernização no setor segurador deixou de ser um projeto com início e fim para se tornar uma condição de sobrevivência. Durante anos, as empresas de seguros foram empurradas por ciclos regulatórios como a Solvência II e a IFRS 17 “Contratos de seguro” e cada ciclo justificava mais um investimento, mais uma transformação, mais uma promessa de eficiência.
Mas a incómoda verdade é que, mesmo depois de tudo isso, a maioria das empresas de seguros porventura continua presa a processos manuais, modelos dispersos, equipas sobrecarregadas e decisões estratégicas baseadas em informação que chega tarde demais. O setor que existe para tarifar o risco tem sido incapaz de quantificar o risco operacional da sua própria inércia.
Fala-se muito de inteligência artificial (IA), automação, dados de qualidade e equipas multidisciplinares, mas a distância entre o discurso e a prática continua enorme. A ameaça real não é a IA. A ameaça é a falta de ambição. Muitas empresas de seguros vivem num estado de “piloto perpétuo”, onde se recolhem dados, estudam casos de uso, se criam comités e se escrevem políticas, mas se hesita em avançar. O problema não é tecnológico; é cultural. Há medo de mexer no core, medo de automatizar o que sempre foi manual, medo de perder o controlo, medo de errar. Só que há um risco maior do que todos esses; o risco de não fazer nada.
A modernização que importa agora não é a tecnológica, é a institucional. É preciso coragem para simplificar modelos, mesmo que isso implique abandonar plataformas históricas. Coragem para automatizar processos de ponta-a-ponta e libertar talento para análise e decisão. Coragem para tratar dados como infraestrutura crítica e não como um projeto de IT. Coragem para formar atuários em competências que não existiam há dez anos, desde cloud a analytics, desde storytelling a liderança. Coragem para assumir que outsourcing não é fraqueza, mas estratégia.
A pergunta que o setor deveria estar a fazer já não é quanto custa modernizar, mas quanto custa não modernizar. As empresas de seguros que vão liderar a próxima década serão aquelas que tratam dados como um ativo vivo, automação como um imperativo, IA como um copiloto, talento como vantagem competitiva e modernização como cultura.
A resiliência histórica do setor não garante a sua relevância futura. A modernização não é uma tendência, nem uma moda, nem uma resposta à regulação. É a nova gramática do negócio segurador. Quem não a dominar ficará fora da conversa.
No setor que mede e gere riscos, a verdadeira imprudência é continuar a ignorar o risco de permanecer igual.
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