Riscos Intensivos e Extensivos: Impacto Estrutural do Risco Climático

  • Helena Chaves Anjos
  • 11 Fevereiro 2026

As seguradoras devem assumir um papel central na construção de resiliência e distinguir e tratar de forma o risco extensivo e intensivo. Nas recentes tempestades todos estes riscos se manifestaram.

Portugal, como vários países europeus, tem enfrentado fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes e complexos. Eventos recentes — em particular a passada tempestade Kristin — sublinham a vulnerabilidade do território face a riscos naturais. A Autoridade Europeia de Seguros e Pensões (EIOPA) e a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) têm reiterado a necessidade de reforço da resiliência do setor, destacando a importância de uma abordagem integrada da gestão de riscos de catástrofes. Relatórios oficiais da Comissão Europeia e de organismos internacionais salientam que os impactos económicos e sociais de eventos recorrentes e cumulativos estão subestimados, criando lacunas de proteção e exigindo maior capacidade do setor segurador para apoiar a resposta e recuperação de forma estruturada e preventiva.

De acordo com estimativas preliminares da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), o custo económico associado a este evento climático extremo, num único dia, deverá ultrapassar os 350 milhões de euros, verificados com os incêndios (Pedrogão, 2017) e inundações (Leslie, 2018), podendo situar-se, segundo a indústria, de forma prudente, num intervalo próximo dos 500 milhões de euros. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) tem reafirmado que, apesar da materialização destes riscos, o setor segurador mantém níveis adequados de solidez financeira, liquidez e capacidade de resposta, assegurando a proteção dos clientes, sustentada por programas de resseguro robustos.

Em paralelo, o Banco de Portugal tem vindo a sublinhar os desafios de coordenação institucional no domínio da adaptação e prevenção face aos riscos de catástrofes, reforçando a necessidade de abordagens integradas entre políticas públicas, supervisão financeira e mecanismos de partilha de risco. Neste contexto, o Governo anunciou igualmente a intenção de criar um fundo de catástrofe, com o objetivo de reforçar a capacidade de resposta e partilha de riscos face a eventos extremos.

Tais catástrofes, quando recorrentes e cumulativas, tendem a traduzir-se em situações de calamidade, não apenas pela severidade de eventos isolados, mas sobretudo pela acumulação de impactos económicos, sociais e territoriais ao longo do tempo. Estas catástrofes caracterizam-se pela coexistência de riscos simultaneamente intensivos — impactos localizados e severos num curto espaço de tempo — e extensivos — impactos dispersos e cumulativos —, exigindo atuação imediata e elevada coordenação entre modelos de previsão e mecanismos de governação e prevenção robustos. A distinção, conforme definida pelo Centro de Redução do Risco de Desastres das Nações Unidas, entre risco intensivo (alta severidade e baixa frequência) e risco extensivo (baixa a média severidade e elevada frequência) constitui um quadro conceptual de análise e referência particularmente útil para gestores, supervisores e legisladores, nomeadamente no caso em análise:

  • A tempestade afetou vastas regiões, gerando impactos dispersos significativos (risco extensivo), enquanto fragilidades acumuladas em infraestruturas críticas e vulnerabilidades sociais locais originaram episódios de impacto intenso (risco intensivo), evidenciando efeitos de acumulação de riscos em múltiplas escalas;
  • Para o setor segurador, estes eventos salientam a necessidade de gerir acumulação de riscos não apenas através da indemnização pontual, mas mediante avaliação agregada de exposição, dimensionamento de fundos de reserva e mecanismos de partilha de risco estruturados;
  • Ferramentas de análise de exposição a riscos extremos, disponíveis em plataformas tecnológicas do setor e sistemas de supervisão europeia, permitem mapear estas exposições com granularidade elevada, identificar pontos críticos vulneráveis e antecipar cenários adversos de risco climático;
  • O desafio central reside na tradução destes conceitos em práticas operacionais consistentes, incluindo políticas de adaptação, prevenção e mitigação de eventos, implementadas de forma articulada nas escalas local, regional, nacional e supranacional, conforme as múltiplas camadas de intervenção previstas nos modelos de partilha de risco.

A ocorrência desta sucessão de tempestades demonstra que é possível aplicar modelos de risco estruturados, monitorizar vulnerabilidades e orientar decisões de prevenção, adaptação e mitigação, sem depender apenas da aleatoriedade dos eventos extremos. O risco de desastres em Portugal é meteorológico, mas também social e económico. A repetição de eventos de média intensidade (extensivo) e a concentração de vulnerabilidades locais (intensivo), combinadas com aumento de frequência e severidade, constituem um risco estrutural que afeta famílias, empresas e o sistema financeiro.

O setor segurador desempenha um papel central, não apenas na transferência de risco via produtos tradicionais, mas também na promoção de resiliência coletiva, através de fundos de catástrofe, programas de prevenção e integração com políticas públicas de proteção civil e ordenamento do território. A distinção entre risco intensivo/extensivo permite priorizar intervenções:

  • Mitigação de riscos locais recorrentes para reduzir perdas cumulativas;
  • Preparação para eventos de alta severidade com planos de resposta e capital reservado;
  • Comunicação clara com clientes, autoridades e comunidades para alinhar expectativas e capacidades.

Pensar estrategicamente significa conectar a gestão de risco das seguradoras com a governação nacional e local, criando resiliência sistémica que vai além da resposta a cada catástrofe isolada. Portugal pode transformar a experiência recente em oportunidade de reforço estrutural, com medidas prioritárias:

  1. Integração da distinção intensivo/extensivo nas práticas de subscrição, reporting e gestão de capital do setor segurador;
  2. Criação de mecanismos de partilha de risco e fundos de catástrofe que permitam respostas céleres e equitativas;
  3. Reforço da supervisão e coordenação entre autoridades competentes, garantindo que dados e análises informem decisões estratégicas;
  4. Promoção de políticas públicas preventivas, incluindo adaptação do ordenamento do território, manutenção de infraestruturas críticas e programas de educação e preparação comunitária.

A mais recente terceira edição do Relatório Anual de Exposição ao Risco Climático dos setores Segurador e dos Fundos de Pensões, divulgada pela ASF, no início de Fevereiro, reforça precisamente estas prioridades:

  • Evidência de integração progressiva de critérios climáticos nas carteiras, com redução do risco de transição, mas persistência de vulnerabilidades localizadas ao risco físico;
  • Exposição aos riscos de transição dominada pela dívida soberana, enquanto o risco físico permanece material e territorialmente concentrado, com lacunas significativas de cobertura;
  • Evolução futura condicionada por políticas públicas, regulação e geopolítica, reforçando a necessidade de monitorização contínua e adaptação gradual.

Em síntese, o setor segurador português deve assumir um papel central na construção de resiliência, para além da mera indemnização de sinistros, articulando prevenção e adaptação face às alterações climáticas, enquadradas como riscos estruturais, otimizando os modelos de governação de risco e promovendo intervenções práticas de proximidade — incluindo o aproveitamento de mecanismos como o fundo de catástrofes recentemente anunciado —, transformando este risco estrutural e o seu impacto nas comunidades numa oportunidade para apoiar a reconstrução preventiva, reforçar o sistema e proteger a resiliência futura da sociedade.

  • Helena Chaves Anjos
  • Economista e Mestre em Finanças. Especialista em gestão de risco nos seguros

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