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Há anos que assistimos a uma “via verde” de acesso a processos em segredo de justiça por parte de alguns “privilegiados” e a uma cultura de humilhação pública de pessoas investigadas.

Aguardei umas semanas para escrever este texto. Ingenuamente, tinha esperança de que a indiferença não prevalecesse relativamente à divulgação pública contínua de excertos de escutas telefónicas constantes de processos judiciais. Creio que já posso concluir que, infelizmente, a indiferença prevaleceu. Não a de poucos comentadores que ainda se chocam. Mas a indiferença de quem tem poder e manda. Dos políticos que, apesar de até do cão e do gato falarem em campanha eleitoral, no que toca à Justiça, normalmente se furtarem às suas responsabilidades como garantes da democracia; da Procuradoria-Geral da República, sempre tão lesta a anunciar novos inquéritos, mas da qual não se ouviu uma palavra sobre esta prática ilícita contínua e intolerável; dos sempre tão ativos representantes sindicais do setor. Pelos vistos, é indiferente que partes de conversas privadas escutadas pelas autoridades judiciais no contexto próprio de investigações criminais em curso sejam estrondosamente divulgadas e comentadas na praça pública. Ainda para mais, conversas que, em larga medida, pelo que se vai lendo, nenhuma relevância criminal parecem ter. Conversas em que também participam pessoas que não são suspeitas de nada, mas que ainda assim foram transcritas e, pior, uma vez mais, “oferecidas de bandeja” aos “divulgadores habituais do reino da justiça”.

Não é a primeira vez que isto acontece e, provavelmente, não será a última. Mas devemos ficar impávidos e serenos quanto a isto? Devemos considerar normal e uma inevitabilidade? Recuso-me a isso.

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