Sustentabilidade: o que podemos esperar em 2020

  • João Rodrigues
  • 28 Fevereiro 2020

Acabámos de entrar numa nova década que traz consigo a ameaça de uma grande incerteza, à medida que parece cada vez mais estreita a janela de oportunidades para criar um mundo sustentável.

Sem dúvida que o conceito de sustentabilidade tem vindo a ser super explorado nos últimos anos, devido à emergência das alterações climáticas que atravessamos. Em 2020 não será diferente e esta palavra terá que continuar presente e no centro das nossas prioridades: acabámos de entrar numa nova década que traz consigo a ameaça de uma grande incerteza, à medida que parece cada vez mais estreita a janela de oportunidades para criar um mundo sustentável, em que todas as pessoas possam desfrutar de uma vida plena num planeta saudável.

Mas nem tudo é mau: também encontramos tendências e mudanças positivas, nesta que António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, declarou como a Década da Ação. Assim, com todas estas oportunidades e mudanças em mente, aqui estão as 10 tendências-chave de Sustentabilidade para 2020:

As empresas vão assumir novos e ambiciosos compromissos climáticos

As empresas dos vários setores estão já a ter em conta a necessidade de limitar o aumento médio da temperatura global para um máximo de 1.5ºC, bem como de alcançarem a neutralidade de emissões de carbono até 2050. Os 177 signatários do acordo “Business Ambition for 1.5ºC – Our Only Future” já declararam a intenção de definir metas climáticas nesse sentido. A Schneider Electric acelerou o seu próprio objetivo de neutralidade carbónica em cinco anos, de 2030 para 2025, e muitas outras estão a definir e a cumprir metas ambiciosas, investindo, por exemplo, em energias limpas ou soluções sustentáveis de transporte nas suas organizações e cadeias de distribuição. As empresas têm um papel de enorme relevo a nível global, pois têm o poder de impulsionar alterações nas leis e diretrizes dos seus países ou regiões, podendo assim acelerar o caminho para a sustentabilidade plena.

Os investidores globais vão preferir investimentos “verdes”

Verifica-se, na atual comunidade investidora, um interesse crescente por empresas sustentáveis, que demonstrem avanços na direção do “planeta 1,5ºC”. Tal como as empresas progridem no seu percurso de sustentabilidade, o mesmo acontece com as interações com os investidores. Em dezembro de 2019, 631 investidores de todo o mundo, representando 37 triliões de dólares em ativos, assinaram uma carta em que apelam aos governos para intensificarem os seus esforços no combate às alterações climáticas. A União Europeia também delineou recentemente um plano de ação para a divulgação obrigatória dos riscos climáticos das empresas, incluindo um conjunto de normas para financiar o crescimento sustentável e apoiar economias baixas em carbono. Para além da pressão dos investidores e dos consumidores no sentido de uma operação mais sustentável, as empresas enfrentam também, pressões do ponto de vista legislativo e, se ainda não o fizeram, terão que mudar as suas práticas.

Grandes corporações vão comprar energias renováveis em todos os lugares e ocasiões

Em 2019, vimos muitos (e interessantes) desenvolvimentos no campo das energias renováveis: para além do crescimento estável de oportunidades nos EUA, a Europa continuou a mostrar-se como um mercado atrativo para Acordos de Compra de Energia (PPA) corporativos – uma tendência que vai, de resto, acelerar-se em 2020. Em 2019 observámos também um maior interesse – e maiores desafios – em novas geografias para as energias renováveis: a Índia e o Brasil, sobretudo, demonstraram grande potencial, e em 2020 veremos florescer outros novos mercados, cada vez mais relevantes, como o Vietname, Taiwan, China, Itália e Alemanha. Um dos principais impulsionadores das energias renováveis este ano será a urgência das empresas em cumprir os seus objetivos de sustentabilidade: com iniciativas globais como os Science-Based Targets, as organizações vão, mais do que nunca, querer posicionar-se como líderes que apostam de forma corajosa nas fontes renováveis e na redução das emissões dos gases de efeito de estufa (GEE).

As ações relacionadas com o setor da Água vão ganhar relevância

No relatório 2020 Global Risk do Fórum Económico Mundial, as crises do setor da Água foram consideradas como um dos cinco principais riscos da próxima década. O tempo está a acabar para que as empresas se apercebam da sua pegada hídrica: a ONU prevê que, em 2030, iremos assistir a uma queda de 40% do abastecimento global de água disponível. As empresas devem desde já procurar saber o que acontece nas suas operações que envolvem água, a montante e a jusante – quer seja a sua utilização para criar produtos ou em áreas suscetíveis à seca, poluição, etc. – para que as controlem antes que sejam infligidos danos a longo prazo, ou até mesmo irreversíveis, nos recursos hídricos de que dependem.

A tecnologia vai criar disrupção na sustentabilidade e transformar as economias

Vivemos numa era de rápida inovação tecnológica, que nos traz novos modelos de negócio e oportunidades com potencial para transformar a indústria da energia e da sustentabilidade. Podemos caracterizar a tecnologia em duas grandes áreas: física e virtual. A física inclui ativos como turbinas eólicas, fotovoltaicas, veículos elétricos, microgrids e outros recursos de energia distribuídos (REDs), e as suas capacidades continuam a melhorar, ao mesmo tempo que os custos se reduzem. Esta proliferação de ativos distribuídos significa que mais utilizadores finais vão procurar incluir as renováveis e outros recursos nos seus portefólios energéticos, para conseguir um maior controlo e certeza de custos, alcançar os objetivos de sustentabilidade e aumentar a resiliência. Por outro lado, as tecnologias virtuais, como a IA, o Blockchain ou a Big Data também ajudam as empresas a tornar-se mais sustentáveis, permitindo um acesso mais rápido a informação de qualidade para a tomada de decisões inteligentes, poupando tempo, dinheiro e recursos pelo caminho. Ainda não sabemos ao certo como a tecnologia vai transformar a complexidade do setor energético, mas sabemos que a mudança vai ser dramática.

Os riscos climáticos serão cada vez mais reais

Em 2019 assistimos a alguns dos casos mais extremos de desastres naturais e, segundo o FEM, o risco de eles continuarem a acontecer vai aumentar em 2020, sendo algumas das principais preocupações as ondas de calor extremo e os incêndios incontrolados. Devido à iminência destes riscos, as empresas vão sentir mais pressão por parte dos seus investidores no sentido de os enfrentarem. Devem preparar-se convenientemente; prosseguindo, por exemplo, com o planeamento de análises dos possíveis cenários e a adoção de medidas tangíveis para mitigar as suas emissões de carbono.

A neutralidade carbónica é imperativa para as economias

A crescente importância da neutralidade carbónica foi já uma grande tendência em 2019, com notícias quase diárias sobre iniciativas “net zero” por parte de países, organizações, eventos ou até num nível mais pessoal e familiar. E se muitas empresas se uniram já a este movimento, ainda se debate muito sobre o que é, ao certo, o consumo líquido de energia nulo: os conceitos “net zero”, “neutralidade carbónica” ou “neutralidade climática” necessitam ainda de definições e limites claros e que sejam amplamente aceites. As iniciativas diferem de acordo com o que as empresas vendem, possuem ou influenciam, e a taxa de redução das suas emissões nem sempre é clara, tal como não o é a forma como as restantes emissões devem ser compensadas. 2020 trará mais granularidade a estas questões; por agora, os especialistas concordam que qualquer iniciativa “net zero” deve começar sempre com a redução das emissões, em linha com o cenário do limite de temperatura a 1.5ºC.

As ações sobre a cadeia de distribuição vão tornar-se convencionais

Muitas empresas têm focado os seus esforços para reduzir o carbono em ações indiretas sobre a sua cadeia de distribuição. Normalizar estas ações vai representar um verdadeiro avanço, porque os seus impactos poderão ser exponenciais, quando comparados com os esforços despendidos apenas nas operações próprias de uma empresa. Vemos muitas possibilidades de ações sobre a cadeia de distribuição, como por exemplo promover os Science-Based Targets junto dos fornecedores, ou envolver os parceiros na aquisição de energias renováveis, e criar iniciativas conjuntas de I&D para pôr de parte as tecnologias dependentes de carbono. É altamente recomendável que as empresas trabalhem desde já com os seus parceiros da cadeia de distribuição para que colham os benefícios da ação pioneira.

Economia circular: o tema principal

Cada vez mais empresas começam a identificar as oportunidades decorrentes da adoção de modelos de negócio circulares, ao invés do modelo linear comum. Os modelos circulares adotam estratégias importantes para reciclar e ampliar a vida útil dos produtos. No passado, estas iniciativas centravam-se principalmente no plástico, na redução das embalagens e na reciclagem; hoje em dia, estendem-se até à dissociação de muitas atividades económicas do consumo de recursos finitos, e também no sentido da redução das emissões de GEE. Remover do mercado produtos mal concebidos e danosos para o ambiente e utilizar técnicas de desmaterialização e design ecológico são algumas das formas mais eficientes de assegurar a proteção climática. Já no mês de março de 2020, é esperado que a UE anuncie medidas específicas para um Plano de Ação de Economia Circular. (Valérie Limauge, Sustainability Consultant, Schneider Electric Belgium)

As microgrids verdes vão estar em ascensão

As microgrids são uma tendência por várias razões: a região da Ásia Pacífico emergiu como líder em capacidade instalada e planeada, com as microgrids a proporcionarem um fornecimento de energia seguro e fiável para a população em crescimento, mesmo em áreas com escassez de energia. O crescimento do negócio das microgrids foi também impulsionado pela necessidade das organizações de garantir a fiabilidade das suas redes e a resiliência da sua infraestrutura de distribuição. Por outro lado, vemos cada vez mais microgrids a utilizar energia proveniente de fontes renováveis e com armazenamento de bateria de reserva; assim, evitando outras soluções fotovoltaicas e de armazenamento de bateria, os custos destas tecnologias estão já a par com os do abastecimento de rede dito “normal”. Tem, portanto, proliferado o aparecimento de dezenas de projetos de microgrids a nível global com grande sucesso, provando que elas são uma oportunidade viável para poupar, ao mesmo tempo que minimizam a pegada de carbono. Já não são uma solução de nicho, são agora populares em setores como o comercial, militar e o de aplicações industriais e, acima de tudo, são uma tecnologia verde e preparada para o futuro.

  • João Rodrigues
  • Country Manager da Schneider Electric Portugal

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