The DUDE

  • José Tomaz Castello Branco
  • 24 Julho 2019

Boris tem o ar grandalhão, desajeitado e fofinho de um urso polar. Não nos esqueçamos, porém, que os ursos polares são dos maiores predadores que há à face da Terra.

Boris Johnson conseguiu finalmente o seu objectivo: a liderança do partido Conservador. E ao consegui-lo, ganha também, por inerência, o direito a ocupar o n.º 10 de Downing Street. É o chamado dois em um. O caminho foi longo e tortuoso, começando na sua eleição como deputado em 2001. Faz agora, portanto, 18 anos. Convencionámos que 18 anos é o tempo que levamos a atingir a maioridade mas, para muitos, ainda é difícil reconhecer o enfant terrible da política britânica como adulto.

Seja como for, é nele que recai a responsabilidade de levar a cabo o Brexit, unir o país e derrotar o partido Trabalhista: “deliver, unite, defeat”, como recordou no seu discurso de vitória. E o tempo que tem para fazer tudo isto transforma este desafio numa missão (quase) impossível.

Sobretudo o mais difícil será conciliar o Brexit com a manutenção do Reino Unido… unido. É que se, por um lado, há a questão da Irlanda, cujas fronteiras são, provavelmente o maior desafio do Brexit para o Reino Unido (o chamado “back-stop”), por outro lado, há o problema da Escócia, e aqui podemos não estar a falar apenas da sobrevivência do Reino Unido mas da própria Grã-Bretanha. O risco é enorme e assemelha-se quase uma tentativa de quadratura do círculo, na medida em o sucesso da implementação do Brexit pode ditar a desagregação do país.

Fazer da fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte a fronteira entre o Reino Unido e a União Europeia significa deitar por terra os acordos de Sexta-feira Santa e reabrir uma caixa de Pandora, cujas consequências ninguém pode antever. Voltariam os controlos fronteiriços, voltariam as patrulhas militares e voltariam a ficar divididas comunidades que há duas décadas haviam enterrado os machados de guerra. O cenário é preocupante e tem a firme oposição do Partido Unionista.

Mas a norte as coisas não serão mais simples. Relembremo-nos que há menos de cinco anos, em novembro de 2014, a Escócia votou o referendo sobre a sua independência. O Não ganhou, mas a ameaça da desagregação foi sentida como real e, o que é para esta questão mais relevante, a União Europeia foi usada como argumento decisivo a favor do Não, na medida em que a vitória do SIM significaria a saída da Escócia do Reino Unido, mas também da União Europeia. Agora, uma vez implementado o Brexit, os nacionalistas escoceses questionar-se-ão, com legitimidade, sobre qual a razão porque se deverão manter no Reino Unido. O mais provável é que queiram repetir o referendo e depois iniciar o processo de candidatura à União Europeia.

Neste cenário, o principal encanto de Boris Johnson, a sua aparentemente infindável energia e a promessa de reafirmação do país como potência independente e soberana, pode ser, afinal, um enorme balão que corre o risco de rebentar na cara dos ingleses. Seria trágico que os conservadores ingleses, que vêm na União Europeia uma ameaça terrível à sua soberania e à sua ideia de auto-governo, acordassem desse pesadelo europeísta para uma realidade mais paroquial em que o Reino Unido se veria reduzido a Inglaterra e Gales.

No seu discurso de vitória, Boris Johnson recordou que às iniciais D.U.D. da sua campanha, “deliver, unite, defeat”, deveria ser adicionada uma última: “energise”. Ora bem, aqui está o “the DUDE” inglês, capaz do melhor e do pior, mas seguramente capaz de dar um novo ânimo à política inglesa e reinspirar a “cool Britannia”. Talvez daqui por uns anos assistamos à estreia de um remake do “The Big Lebowski” como “The Big Boris”.

Boris tem o ar grandalhão, desajeitado e fofinho de um urso polar. Não nos esqueçamos, porém, que os ursos polares são dos maiores predadores que há à face da Terra.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

  • José Tomaz Castello Branco

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