Twitter acerta em Trump com um pau de dois bicos

Jack Dorsey ganhou coragem e acertou em Donald Trump "where it hurts". Mas fê-lo com a única coisa que estava ao dispor: um pau de dois bicos. A decisão abriu a caixa de pandora.

O Twitter surpreendeu esta semana ao aplicar um botão “get the facts” abaixo de dois tweets de Donald Trump. Neles, o presidente dos EUA acusava de “fraude” o voto por correspondência e apontava que os boletins de voto estão a ser enviados a todos os habitantes do estado da Califórnia, “independentemente de quem são e de como chegaram até lá”.

Segundo órgãos de comunicação social de referência norte-americanos, trata-se de uma acusação falsa. Os boletins de voto só estão a ser enviados a eleitores registados e não há provas de que o voto por correspondência represente uma “fraude substancial”, como alega Trump.

O Twitter não quis deixar passar isso em branco. Criou uma página com a informação disponível e, pela primeira vez, confrontou diretamente o presidente, conhecido por usar o Twitter para governar, fazer campanha, atacar inimigos e espalhar teorias da conspiração. “Os fact-checkers dizem que não há evidência de que o voto por correspondência esteja ligado a fraudes eleitorais”, escreveu a empresa.

“Conheça os factos”, escreveu o Twitter sobre as declarações de Donald Trump.Twitter

Esta atitude abriu uma caixa de pandora com consequências imprevisíveis para todas as redes sociais. E concretamente para o Twitter, para o qual era bem mais confortável estar quieto e não fazer nada – como, aliás, tinha vindo a fazer até aqui em matéria presidencial. Mas o precedente tinha de ser aberto e merece ser aplaudido, numa altura em que nunca foi tão importante chamar à responsabilidade os líderes políticos.

Porém, há desenvolvimentos que importa, agora, acompanhar com atenção. O primeiro tem a ver com a resposta de Trump: num dislate que nem deve ser levado a sério, ameaçou “fechar as redes sociais”. Mas foi mais além e prepara-se para assinar uma ordem executiva que responsabilizará estas plataformas pelas decisões de eliminar conteúdos ou banir pessoas.

A medida abre a porta a uma chuva de processos contra estas empresas. É uma proposta boa no fundo, mas péssima na intenção. O que até poderia ser uma medida positiva para o setor, a ser tomada, não será vista de outra forma para além de uma “vingança” pessoal de Trump, usando e abusando do estatuto de presidente.

Depois, levantam-se questões sobre o próprio precedente. Esta decisão do Twitter é única, ou voltará a ser tomada para outros tweets de Donald Trump? E o Twitter vai fazer o mesmo com outros líderes políticos, ou apenas com o presidente dos EUA? Mais: porquê só agora, dando a Trump o argumento de que o Twitter está a querer interferir nas eleições presidenciais de novembro?

Jack Dorsey ganhou coragem e acertou em Trump where it hurts. Mas fê-lo com a única coisa que estava ao dispor: um pau de dois bicos. A rede social ainda não comentou os motivos que levaram a esta decisão, mas o tema merecia, pelo menos, um statement. De outra forma, pode ficar a ideia de que o pássaro azul, afinal, também traz água no bico.

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