Um falso “Déjà Vu”…

É inegável que muitas empresas vão passar ainda por dificuldades, Há setores muito afetados pela pandemia que vão levar o seu tempo a recuperar. Mas outros vão dar o salto e aproveitar a oportunidade.

Para os mais pessimistas, 2022 começa quase como o ano de 2021, que tanta frustração gerou com o contínuo pára-arranca que se foi repetindo ao longo do ano. Mas a realidade é bem diferente… O ponto de partida em 2022 é bastante diferente, para melhor, e ainda que o horizonte esteja carregado de perigos e incertezas, as condições parecem reunidas para que este seja mesmo um ano de consolidação da recuperação económica e até de afirmação para Portugal e para as empresas portuguesas.

É bem verdade que começamos o ano de 2022, imersos numa pré-campanha eleitoral para as próximas legislativas e com um governo de gestão que durará pelo menos até finais do primeiro trimestre. É igualmente verdade que todas as previsões confirmam que será um primeiro trimestre fortemente impactado pela pandemia e pelos reflexos da denominada variante Ómicron. E seguramente, ao longo das próximas semanas, muitas serão as notícias que confirmarão que o crescimento económico em Portugal durante 2021 ficou atrás de outros parceiros europeus, cuja retoma foi mais rápida e mais efectiva logo desde os primeiros meses do ano que agora terminou.

Mas ainda assim, o país cresceu (e bem) em 2021 e a comparativa entre os dois trimestres iniciais (2021 vs 2022) vai ser ainda mais favorável, reforçando e acelerando a perspectiva de retoma. O evidente cansaço da população e contrariedades geradas pela pandemia vai evoluir para um estado de maior resiliência e até de certo optimismo quando estiverem reunidas três condições essenciais:

  1. tivermos um novo governo em funções com um orçamento aprovado;
  2. o número de casos começar a baixar de forma sustentada (aliado à massificação das doses de reforço da vacinação) e;
  3. quando finalmente e de forma sustentada, o tão falado dinheiro do PRR começar a chegar à economia real – três condições que se afiguram como muito prováveis que se conciliem até finais do primeiro trimestre deste ano.

Esta conjugação de factores e o dinamismo latente nalgumas franjas do sector empresarial português criará um efeito de tracção que pode conduzir a uma nova fase de desenvolvimento económico em Portugal, porventura similar à que se viveu na primeira década deste século e da qual Portugal poderá tirar alguma vantagem face aos seus congéneres europeus, que parecem evoluir, por razões diferentes, para contextos menos favoráveis.

Há de facto um número significativo de empresas e de empresários que parece ter sabido gerir de forma eficaz a crise gerada pela pandemia, que foi avançando na progressiva digitalização dos seus processos, criando condições de maior resiliência nos seus negócios, optimizando as suas operações e gerindo os riscos das suas cadeias de abastecimento, e trabalhando em paralelo na definição de estratégias de aproveitamento dos fundos estruturais que vão estar disponíveis nos próximos anos. Esta nova geração de empresas portuguesas, tem todas as condições para emergir do contexto pós-pandémico com um enorme vigor, com capacidade real para apostar na internacionalização e expansão dos seus modelos de negócio, de uma forma efectiva e até pouco habitual na nossa economia.

É inegável que muitas outras empresas vão passar ainda por dificuldades… há sectores muitíssimo afectados pela pandemia (turismo, aviação, restauração, retalhistas,…) que vão levar o seu tempo a recuperar, mas é evidente que outros se preparam para dar o salto e aproveitar a oportunidade: as empresas com maior aposta na tecnologia de ponta, na inteligência artificial, na exploração dos dados e outros, que redefiniram o seu modelo de negócio para estarem mais próximos dos seus clientes num contexto de maior digitalização e omnicanalidade.

Em paralelo, há toda uma nova tendência de aposta no crescimento sustentável, nas energias mais limpas e renováveis, em novos compostos de fabricação, novas técnicas de fabrico, novas soluções menos poluentes e mais amigas do ambiente que estão a criar todo um novo espaço de oportunidades para novos players e novos modelos de negócio, que serão por sua vez fonte de geração de maior valor positivo para a economia, o que, por sua vez, contribuirá para maior crescimento e maior atracção de investimento.

Em suma, os próximos meses estão por isso longe de ser um Déjà Vu do que vivemos em 2021… para quem já tem o “trabalho de casa” feito (ou que ainda o pode fazer nos próximos meses), pode beneficiar de um ponto de partida mais favorável e aproveitar a tendência positiva do balanço entre oportunidades e desafios que se afigura provável que ocorra em 2022. Sendo certo que não vamos navegar num mar de tranquilidade, num país de bravos marinheiros é razoável assumir que haverá boas razões para celebrar no próximo Natal!

Notas: Os pontos de vista e opiniões aqui expressos são os meus e não representam nem reflectem necessariamente os pontos de vista e opiniões da KPMG em Portugal. O autor por opção escreve ao abrigado do anterior acordo ortográfico.

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