Da fábrica da Murtosa saem 2,5 milhões de conservas que até têm ouropremium

Comprada pelo Grupo O Valor do Tempo em 2015, quando corria "sérios riscos de desaparecer", a Comur só emprega mulheres e viu nas sardinhas com flocos de ouro uma oportunidade de negócio.

Fundada em 1942 na Murtosa, a Comur é uma das maiores referências da indústria conserveira portuguesa. De Norte a Sul do país, a marca conta com 22 lojas e produz cerca de 2,5 milhões de latas de conservas por ano.

As receitas prevalecem no tempo, assim como o método tradicional que ainda hoje assenta em técnicas ancestrais. Do corte e preparação do peixe ao enlatamento das conversas, o processo é todo manual. A cravadeira e as esterilizadoras são as únicas máquinas que existem na fábrica localizada no distrito de Aveiro.

A tradição - aliada ao processo totalmente manual - fazem parte do segredo do negócio. "Fazemos questão que todos os nossos produtos sejam feitos de forma tradicional, manual e que envolva pessoas. Sem isso caímos na indiferenciação e não é o que queremos. Para um produto se diferenciar no mercado, tem de ser único", explica ao ECO o administrador da Comur, Paulo Moreira.

Ricardo Castelo/ECO

Na Comur, cada lata de conservas que sai da fábrica é lacrada com alma e minuciosamente trabalhada pelas mãos experientes das mais de cem mulheres, que transformam os sabores do mar em iguarias. A empresa produz cerca de trinta variedades de conservas. A sardinha e o bacalhau em lata são os produtos estrela da casa, mas há conservas para todos os gostos e carteiras, com preços dos sete aos 40 euros. Dourada, cavala, polvo, mexilhão, carapau, gambas e até sardinhas com flocos de ouro são outras referências.

Toda a linha de produção é composta por mulheres. Felisberta Tavares, 57 anos, trabalha na Comur há 31 anos. Foi o único trabalho que teve. Enquanto falava com o ECO, tirava a pele e a espinha das sardinhas. Se é um trabalho muito minucioso, diz que nada melhor que as mulheres para o desempenhar. Além de fazer parte da tradição das conserveiras, considera que "as mulheres têm mais jeito para isso".

Além das típicas conservas, a Comur tem conservas de bacalhau e sardinha assados na brasa, trutas, salmão e mexilhão fumado. Mais uma vez, todo o processo é feito pelas mãos das funcionárias. Alzira Fonseca, 49 anos, trabalha na Comur há 22. Enquanto mete o bacalhau nas grelhas para ir para as brasas, a funcionária confessa que "manter a tradição é um dos segredos do negócio".

O passo seguinte é meter as "mãos" nas brasas. A tarefa cabe a Maria Cecília Almeida, 55 anos. Com quase duas décadas de casa, assa o bacalhau e também costuma defumar e assar as sardinhas na brasa. Da lavoura foi para a Comur e por ali ficou. "Habituei-me a estar aqui, gosto disto e daqui vou para a reforma", confia.

Fabrica de conservas Comur, na Murtosa Ricardo Castelo/ECO

Em busca constante por reinventar-se, da estratégia de marketing da empresa fazem parte, por exemplo, latas de conservas com datas de nascimento - vão de 1916 até 2021 -, latas alusivas a cidades como Lisboa, Porto ou Faro; ou latas de sardinha em forma de lingote de ouro.

Exemplo de criatividade e imaginação são as lojas do Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa, que conjuga rótulos muito festivos, cores fortes, carrosséis, música e uma roda gigante em miniatura, com dezenas de latas de sardinha. Para o administrador, é imprescindível "ter uma imagem atrativa para valorizar determinado produto". E é um chamariz para os turistas: em apenas um mês, entraram turistas de 71 nacionalidades na Loja da Rua da Prata, em Lisboa.

"Decidimos fazer uma ligação entre a sardinha e o circo porque ambos são ao mesmo tempo nobres e populares. No circo, todas as classes sociais estão sentadas nas mesmas cadeiras, a ver o espetáculo ao mesmo tempo e de uma forma indiferenciada. A sardinha é consumida por todas as classes sociais", detalha Paulo Moreira.

Embora faça questão de manter a tradição, a inovação faz parte do ADN do grupo. Em 2018 lançou uma sardinha com flocos de ouro, que é apresentada em formato de lingote de ouro. O administrador encara a sardinha como "o ouro português". Este é um produto dedicado essencialmente ao cliente estrangeiro, já que o português procura a sardinha em lata na sua forma tradicional. Cada lata de lingote custa 22 euros e são vendidas cerca de 100 mil por ano.

O administrador relata que um cliente da Malásia fez uma encomenda "enorme" na loja do Porto, de valor superior a 5.000 euros. Eram várias latas de conservas, entre elas, os lingotes de "ouro". Paulo Moreira conta que o funcionário perguntou como é que o cliente ia levar tantas conservas na viagem e a resposta foi simples: "vou de jato privado e não tenho problema com o transporte".

Outro cliente árabe, este na Loja do Rossio, em Lisboa, fez uma encomenda de cerca de vinte mil euros, só em lingotes. Foi necessário ir às outras lojas buscar todo o stock da sardinha com flocos de ouro. Porém, a exportação direta, essencialmente para França e Alemanha, vale apenas 5% do negócio.

Comprador evitou falência

O administrador da Comur indica ao ECO que, quando a empresa foi adquirida pelo Grupo O Valor do Tempo, em 2015, estava em "sérios riscos de desaparecer". Enfrentava sérios problemas porque "optaram por uma abordagem ao mercado com base na quantidade e [baixo] preço". Nessa guerra "não tinham hipóteses nenhuma", face aos competidores mundiais com outra dimensão.

"Temos história, tradição e know-how, mas não temos dimensão. Temos de aproveitar as nossas vantagens para trabalhar mercados de nicho. Acabámos com os contratos de exportação que tínhamos, nem sequer trocávamos mercadoria por dinheiro, perdíamos dinheiro e a empresa estava a empobrecer. Arranjámos forma de valorizar o produto conserva, através da criação das lojas e da mudança de imagem", explica Paulo Moreira.

A conserveira Comur faz parte de um grupo que integra 22 empresas de vários segmentos. Além da conserveira, detém o Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa, a Fábrica das Enguias, a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau (8 lojas), o Museu da Cerveja e do Pão, A Brasileira do Chiado, a Joalharia do Carmo ou o hotel Hästens Sleep SPA. Emprega 600 pessoas e soma 40 lojas em Portugal.

O administrador da Comur e diretor financeiro do Grupo O Valor do Tempo particulariza que a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau está a ser "um sucesso" e está prevista a abertura de mais quatro lojas. Este negócio, a par das conservas, são os nichos que têm o maior peso na faturação do grupo.

Empenhado em adquirir negócios com história, o grupo comprou a confeitaria Peixinho, a mais antiga casa de ovos-moles de Aveiro, fundada em 1856, e que é conhecida também por umas bolachas tradicionais. As famosas Raivas da Peixinho são há mais de 30 anos esculpidas pelas mãos de António Neto, seguindo uma fórmula secular de inspiração conventual. Depois da aquisição, manteve-a a confecionar estes biscoitos.

"Em todos os nossos negócios fazemos questão de manter a tónica nos processos manuais e tradicionais, envolvendo pessoas. Sem isso banalizamos o nosso produto e nós queremos ter produtos únicos e inconfundíveis", insiste Paulo Moreira.

O grupo quer expandir a confeitaria e revela ao ECO que vai abrir uma loja Peixinho no aeroporto de Lisboa durante o mês de outubro. Outra abertura, prevista igualmente para a capital portuguesa, é de uma unidade comercial de queijadas de Sintra.

Investe 15 milhões em pandemia

Mesmo em ano de pandemia e com uma quebra significativa no volume de negócios, o grupo assegura que não despediu nenhum colaborador e investiu cerca de 15 milhões de euros ao adquirir novos negócios. Em 2020 comprou A Brasileira do Chiado, inaugurou mais uma Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau no elevador de Santa Justa e comprou a Quinta da Lagoa, em Nelas, que conta com um rebanho de 700 ovelhas bordaleiras e produção própria de Queijo Serra da Estrela DOP.

Este ano somam-se mais investimentos. Inaugurou o hotel de luxo HästensSleep SPA, localizado em Coimbra, abriu três lojas da Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau (Aveiro, Cascais e Cais do Sodré - Lisboa), adquiriu a histórica Joalharia do Carmo, um antiquário no Chiado e a loja Figurado de Barcelos.

Paulo Moreira, administrador da ComurRicardo Castelo/ECO

As novidades não ficam por aqui. No final do mês, o grupo lançou uma livro de receitas, em parceria com a blogger e estudiosa da cozinha mundial, Chiara Caprini, que tem por base as conservas portuguesas. "Esta parceria resultou de um livro muito interessante de receitas do mundo com base nas conservas da Comur", destaca Paulo Moreira.

No futuro, o grupo Valor do Tempo quer continuar a investir em mais nichos de negócio e equaciona também abrir uma das insígnias no mercado externo.

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