Têxtil veste pele de coelho e camisa repelente para a retomapremium

Têxtil e vestuário aproveitaram a feira parisiense Première Vision para mostrar a capacidade de inovação do setor. O balanço não podia ser mais positivo e o cluster está otimista quanto à retoma.

As empresas portuguesas do têxtil e vestuário não deixaram escapar a oportunidade para mostrar na Première Vision a sua capacidade de inovar. É o caso da Cortadoria Leather que aproveitou a feira em Paris para mostrar o trabalho que está a desenvolver a partir da pele de coelho. A empresa de São João da Madeira conta ao ECO que este "é um produto único no mundo" e que se apresenta como uma alternativa ao couro. A pele de coelho pode ser usada em sapatos para bebés e crianças, chapéus e correias para relógios.

Nuno Oliveira Figueiredo, presidente da Cortadoria, explica que aproveitaram a Première Vision, um dos mais importantes eventos de moda a nível europeu, para apresentar este projeto de inovação. "Nós já aproveitávamos o pelo para produzir os chapéus, mas passamos a aproveitar também a pele do coelho para fazer couro. Chegamos a um produto que não existia no mercado porque até agora o que se usava era o pelo do coelho e não a pele", explica o presidente da Cortadoria.

Para os mais céticos em relação ao uso da pele, o presidente da Cortadoria sublinha que tanto o pelo como a pele do coelho são produtos biodegradáveis, que resultam da produção da carne para a alimentação humana e que o couro é produzido com regras de sustentabilidade. Nuno Oliveira Figueiredo conta que a "recetividade dos clientes não podia ser melhor" e que os clientes "ficavam agradavelmente surpreendidos" com a novidade.

À semelhança da Cortadoria, a Adalberto Estampados levou para a feira parisiense uma camisa com tecnologia easycare, que tem a capacidade de repelir líquidos, diminuir o odor, provocado pelo suor, e, através de um tratamento antimicrobiano, evita o desenvolvimento de micro organismos.

A outra novidade da Adalberto é uma coleção focada no uso de produtos ancestrais como o algodão orgânico, linhos, celuloses e viscose. "Usamos cânhamo, fibras produzidas a partir de ortigas e os corantes, que usamos para estampar, têm origem mineral, como rocha desfeita", adianta o César Lima, o novo CEO da Adalberto.

A pele de coelho transformada em couro da Cortadoria Leather e a camisa repelente da Adalberto foram dois casos que o ECO encontrou na feira de Paris que mostram a capacidade do cluster em reinventar-se, com os empresários a apontarem a retoma do setor que viu o seu negócio ser estrangulado pela pandemia.

Mário Jorge Machado, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), que acompanhou as empresas lusas na feira em Paris, voltou para Portugal com o sentimento de missão cumprida e bastante satisfeito com o balanço da Première Vision. "A feira foi o retomar da normalidade e os sinais são muito positivos. As expectativas foram claramente superadas e ficámos 200% acima da expectativa inicial", conta o presidente da ATP.

O mercado francês está no segundo lugar dos principais destinos de exportações portuguesas de vestuário e é um palco com bastante importância e peso para o cluster português. Em 2020, as exportações nacionais da fileira moda ascenderam a 5,9 mil milhões de euros e nos primeiros sete meses de 2021, as exportações para França totalizaram 616 milhões de euros, sendo que França representou 16% das exportações portuguesas totais da fileira Moda.

Após três dias de Première Vision, as mais de 50 empresas portuguesas do setor do têxtil e do vestuário estão de volta ao território nacional e os industriais não podiam estar mais satisfeitos com o balanço final. As expectativas foram superadas e já se fala em retoma. No que respeita a faturação, este ano para alguns empresários já está a ser igual ou melhor que 2019.

De manhã até ao final do dia, o movimento das empresas lusas era constante e não havia mãos a medir para a azáfama de clientes internacionais e para as filas que se iam formando à entrada dos stands. O diretor comercial da Triple Marfel, Carlos Guedes, conta ao ECO que só no primeiro dia de feira fez mais de 40 contactos com clientes internacionais.

Para a Tintex e para a Siena, a feira em Paris não podia ter corrido melhor. O presidente da Tintex, Mário Silva, conta ao ECO que a "afluência de clientes foi fenomenal". A Siena, que se juntou à comitiva portuguesa na Première Vision, partilha da mesma opinião da Tintex e realça que "a adesão foi massiva".

Quem não abdica de marcar presença na Première Vision é a Tearfil Textile Yarns que já participa na feira há 20 anos. Para a empresa, a feira em Paris "superou todas as expectativas" e a quantidade e qualidade dos visitantes foi uma "agradável surpresa" para a empresa especializada na produção e comercialização de fios têxteis, localizada em Moreira de Cónegos. "Na primeira oportunidade de retomarmos a participação na edição presencial, não hesitámos e ainda bem que viemos", conta Marla Gonçalves, diretora comercial e de marketing da Tearfil Textile Yarns, bastante entusiasmada.

À semelhança da Tearfil Textile Yarns, a A. Sampaio, que é presença assídua na feira em Paris desde 2005, realça que “a afluência da feira foi superior ao previsto tanto em quantidade como em qualidade”.

Para o presidente da Associação Nacional das Industrias de Vestuário e Confeção (Anivec), César Araújo, "Portugal demonstrou que está na linha da frente e a presença de peso das empresas portuguesas vem mostrar, mais uma vez, a resiliência e a capacidade do setor".

Governo promete “estabilizar” preço da energia. Têxtil diz que "não chega"

Apesar deste otimismo, os empresários ouvidos pelo ECO estão apreensivos com a subida dos preços na energia, tendo em conta que a eletricidade tem um peso elevado nos custos de produção e acaba por reduzir a competitividade do cluster. O secretário de Estado da Economia, João Neves, revelou em Paris que as estimativas do Governo apontam para que os preços da energia para utilizações industriais estabilizem ao longo do próximo ano. O setor diz que é uma boa notícia, mas que ainda assim é insuficiente.

O presidente da Somani, Nuno Costa, defende que os preços da energia deviam baixar efetivamente e que "estabilizar não chega". Na ótica do gestor, o "Governo tem que olhar para este assunto com visão estratégica" e que os "preços exorbitantes só prejudicam a competitividade do setor". Para o líder da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, “todas as medidas que permitam diminuir esse impacto são cruciais para a competitividade do setor”.

À semelhança do líder da Somani, a diretora comercial da Siena, Sílvia Machado, ficou satisfeita com o anúncio do Governo. Considera que é "uma boa medida e que ajudará com certeza", mas confessa que "não chega". Consciente que o elevado custo energético penaliza a competitividade do setor, o presidente da Anivec, César Araújo, apela ao Executivo socialista para “reduzir o custo da eletricidade e apoiar as empresas no uso de energias verdes”

Marla Gonçalves, diretora comercial e de marketing da Tearfil Textile Yarns, conta que o peso do custo energético "é muito relevante na estrutura de custos" da empresa e que os aumentos que se têm verificado "são de tal grandeza que estão a gerar uma enorme inquietação na indústria". Em relação à promessa do Governo socialista em estabilizar o preço da energia, Marla Gonçalves, adianta que "ficaram naturalmente expectantes" e que "urge tomar medidas para proteger a capacidade de nos mantermos competitivos".

Sustentabilidade portuguesa em destaque na Première Vision

Nesta feira francesa, o setor do têxtil e do vestuário procurou marcar diferença pela aposta na sustentabilidade, seja através de matérias reciclados ou de fibras feitas a partir de desperdícios alimentares, como o café ou as uvas.

Em termos de sustentabilidade e em produtos, que vão numa direção da economia circular, Portugal "mostra que tem soluções que estão na linha da frente. Somos nós que estamos a traçar o caminho para onde a indústria tem que evoluir na Europa e no Mundo", diz Mário Jorge Machado. O líder da associação, sublinha que, nas áreas da sustentabilidade e da economia circular, são as empresas portuguesas que "têm dos melhores produtos".

Braz Costa, diretor-geral do Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário (Citeve), corrobora a ideia do presidente da ATP e conta ao ECO que "Portugal está bem posicionado nesta matéria" e que “já está a agarrar essa oportunidade”. “As apostas que fizemos em termos de sustentabilidade estão a dar frutos. Neste momento, o nível de sustentabilidade dos produtos portugueses são uma chave para atrair clientes exigentes, incluindo de luxo”, destaca.

Fátima Castro/ECO

Neste campo da sustentabilidade, Portugal teve um palco de destaque através do iTechstyle Green Circle. Um projeto da Seletiva Moda e do Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário que tem como principal objetivo mostrar que Portugal é um produtor ambientalmente responsável.

Presença assídua na Première Vision, a Tintex aproveitou a feira para mostrar uma coleção disruptiva totalmente sustentável intitulada "This is Not a Collection". A partir de agora, a Tintex apresentará coleções versáteis que não seguem um calendário sazonal e adaptam-se a todos os mercados e geografias.

A TintexTextiles, que exporta para 35 países, é especialista em tingimento, acabamento e revestimento de malhas e desde a sua génese, a sustentabilidade e inovação fazem parte do ADN da empresa, tanto nos processos como nos produtos. Para o presidente da empresa localizada no Alto Minho, a "procura por artigos orgânicos e sustentáveis é bastante grande".

Para o presidente da Anivec, o caminho que Portugal está a fazer no campo da sustentabilidade é um exemplo a seguir. "Portugal tem qualidade, tem design e tem sustentabilidade ambiental e social. Temos tudo para conseguir afirmar a marca Made in Portugal no mundo. Portugal é a melhor fábrica do mundo em termos de boas práticas", destaca César Araújo.

Do lado da confeção, Nuno Costa, presidente da Somani, especializada em puericultura, apela às associações de têxtil e vestuário para criar um certificado sustentável Made in Portugal que promova as boas práticas portuguesas. "Temos que encarar a sustentabilidade como uma oportunidade porque as empresas portuguesas são verdadeiramente sustentáveis", afirma o gestor da Somani, que exporta 90% da produção, principalmente para a União Europeia.

O administrador da empresa de tecidos A. Sampaio, João Mendes, lembra que os consumidores estão cada vez mais exigentes e que "não chega dizer que as empresas são sustentáveis". "É preciso dizer onde o produto nasceu, quais os recursos que são gastos no processo, quando tempo o produto vai durar, o que se vai fazer no ciclo de vida do produto".

O secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, que marcou presença no último dia da feira em Paris, sublinhou que o caminho para a indústria ser mais sustentável tem vindo a ser construído ao longo dos últimos anos. “Há uma preocupação das empresas em serem mais sustentáveis. A sustentabilidade está muito ligada aos tecidos, à reciclagem e a reutilização dos tecidos. A indústria portuguesa fez, no passado, um esforço por ser mais sustentável, seja no têxtil, no vestuário ou no calçado”, insistiu o secretário de Estado da Internacionalização.

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