Ramirez está há 167 anos a fazer conservas. Covid acelera vendas

Nem a pandemia fez a Ramirez abrandar o ritmo, pelo contrário, a empresa intensificou a produção para fazer face à procura. Presidente está convicto que 2020 será um ano de crescimento.

De uma pequena fábrica no Algarve, a Ramirez é a mais antiga fábrica de conservas em laboração no mundo. Conta com 167 anos de existência e uma herança de cinco gerações. No início do ano, a empresa foi apanhada de surpresa pela Covid-19, mas nem a pandemia fez a empresa parar as linhas de produção; pelo contrário, a Ramirez teve que intensificar a produção para responder à procura desenfreada por conservas.

O presidente da empresa, Manuel Ramirez, já tinha revelado ao ECO que 2020 seria um ano de crescimento e que “só no mês de março o crescimento foi superior a 300%, sendo que no mercado nacional, falamos num crescimento na ordem dos 90%”. “Este será, sem dúvida, um ano de crescimento tendo em conta o boom deste primeiro trimestre”, explica o presidente da empresa, que pertence à quarta geração da família.

A Ramirez produz cerca de 50 milhões de conservas por ano para mais de 55 países e saem da fábrica de Matosinhos, em média, 600 camiões por ano. A empresa conta mais de 70 referências de enlatados no seu portfólio, do atum às sardinhas, sem esquecer as lulas, o polvo, os filetes, o mexilhão, a cavala e o bacalhau. A exportação representa mais de metade da faturação da empresa.

A história da Ramirez começa em Vila Real de Santo António, no ano de 1853, pela mão de Sebastian Ramirez. Na altura a empresa dedicava-se à salga de peixe e hoje é a mais antiga conserveira do mundo ainda em funcionamento. O percurso da Ramirez é longo e repleto de vitórias: passou por quedas de impérios, duas guerras mundiais e uma pandemia que ainda assombra a economia a uma escala global, mas nem estes marcos trágicos abalaram o progresso e a longevidade da Ramirez.

Face à dinâmica epidemiológica que o país, a Europa e o Mundo têm vindo a assistir, é expectável que o consumo de conservas de peixe se mantenha elevado.

Manuel Ramirez

Presidente da Ramirez

Atualmente é na fábrica em Lavra, em Matosinhos, que é feito todo o processo, desde a seleção do peixe até ao embalamento final. A unidade fabril emprega 240 colaboradores e conta com 11 linhas de produção. No mercado nacional é o atum que lidera as vendas, a nível internacional a sardinha e a cavala são os produtos com mais procura.

O atum chega às toneladas da América Latina e a sardinha é pescada essencialmente nos mares de Portugal, Espanha, Marrocos. “A sardinha mais recentemente começou a subir o atlântico e já começa a aparecer na costa inglesa”, explica ao ECO, Luís Avides Moreira, administrador da empresa.

As conservas são um produto consumido em todo o mundo, com a característica que podem ser armazenadas por longos períodos, uma vez que têm uma validade que dura entre sete a oito anos. Esta pandemia fez aumentar a procura por este tipo de produto e para a empresa é uma tendência. “Face à dinâmica epidemiológica que o país, a Europa e o Mundo têm vindo a assistir, é expectável que o consumo de conservas de peixe se mantenha elevado”, explica a empresa.

Segredo do sucesso está na inovação

Para a Ramirez, a inovação não é um conceito do presente, mas sim uma característica que tem vindo a acompanhar a empresa ao longo da história. Já na década de 60 a Ramirez criou a primeira máquina de descabeçar sardinhas no mundo, em parceria com a Baader, que ainda hoje está exposta na Loja Museu da empresa. Atualmente ainda existe uma versão beta desta máquina, mas em escala industrial.

Outra das inovações da Ramirez foi a primeira lata de conservas de peixe com abertura fácil a nível mundial, entre a década 60 e 70, através de uma argola que ainda se usa nos dias de hoje.

“O nosso segredo é sermos inovadores. No que respeita à tecnologia temos o último grito de inovação na nossa fábrica, aliado a uma aposta na qualidade e na diferenciação”, explica o administrador adjunto da Ramirez quando questionado pelo ECO sobre o sucesso da empresa.

O administrador adjunto da Ramirez refere ainda que em 2015 a empresa faz uma grande aposta na construção da unidade fabril de raiz em Lavra, Matosinhos. A inauguração desta nova fábrica representou um investimento de 18 milhões de euros e está “assente nos pilares da modernidade e da sustentabilidade”.

Esterilização das conservas, pesagem automática das latas, robótica na parte de armazenamento e embalamento são alguns dos dos processos automatizados e tecnologia de ponta que a empresa utiliza.

Apesar de grande parte dos processos serem automáticos, ainda existe algum trabalho manual. Cerca de 80% dos trabalhadores são mulheres. O processo do atum é mais automatizado, ao contrário da sardinha que é completamente diferente. Escolher a sardinha, limpar e escamar os lombos, inserir a peixe dentro da lata, estes são apenas alguns exemplos do processo envolvido.

Todo o processo é analisado minuciosamente e, para garantir que nada falhe, a Ramirez é a única empresa que tem uma máquina raio x que permite inspecionar ao detalhe cada uma das 50 milhões de conservas que ali passam anualmente. Esta máquina permite uma garantia de segurança alimentar para as cadeias internacionais.

“O objetivo do raio x é encontrar que produtos que possam ter defeito, como uma espinha, um corpo estranho (…) para além de certificar o processo de cravação. Todo este processo permite-nos ter uma segurança enorme quando a mercadoria é vendida”, explica o administrador. Acrescenta que a empresa “tem muito poucas reclamações em termos de produto”.

A exportar conservas desde o século XIX

Quando a globalização e as redes sociais ainda eram uma miragem, as conservas Ramirez já chegavam a todos os cantos do mundo, de teco-teco, barco a vapor ou calhambeque. A Ramirez começou a exportar no século XIX e atualmente a exportação representa 55% a 60% da faturação.

Bélgica, África do Sul, França, EUA, Inglaterra, Canadá e Brasil são os principais mercados da conserveira. Cocagne, Berthe, La Rose, The Queen of The Coast são algumas das 14 marcas do grupo. A Ramirez é líder de vendas na Bélgica, desde 1906, com as conservas de sardinha da marca Cocagne, com 43% da quota de mercado.

“Estamos a aumentar a quota de mercado nos países do Oriente, nomeadamente na Coreia do Norte e do Sul e no Japão”, refere Luis Avides Moreira. A empresa já está a preparar a entrada no mercado russo, uma vez que “é um mercado com um potencial enorme, estamos a falar de 230 milhões de consumidores de conservas”, refere.

Ramirez. Uma empresa ecofriendly

35% do consumo energético da Ramirez já advém energia solar. A fábrica da Ramirez conta com cerca de 1.500 painéis fotovoltaicos, 154 tubos solares instalados em toda a unidade que iluminam o espaço de forma natural. “Grande parte da fábrica é alimentada em dias de sol por estes tubos instalados nas linhas de produção, escritórios, corredores e afins sem necessidade de recorrer a energia elétrica”, explica ao ECO, Luis Avides Moreira.

Uma herança de cinco gerações

O comando da empresa ainda pertence a Manuel Ramirez, presidente da empresa, que pertence à quarta geração da família. No entanto, a quinta geração, Manuel e Vasco, filhos de Manuel Ramirez, já estão na empresa para adquirir o know how necessário para assumir as rédeas quando for necessário.

Empresa disponibiliza creche gratuita desde século XIX

A Ramirez já tem creche desde o século XIX. Quando o peixe saía do mar, um sinal de alerta tocava e as mulheres, que na altura eram as amas dos filhos, dirigiam-se para as instalações da Ramirez para tratar do peixe. Enquanto desempenhavam as suas funções os filhos ficavam na creche que a empresa criou.

Passaram décadas de história, mas a tradição ainda se mantém. A Ramirez disponibiliza uma creche gratuita, nas instalações da empresa, para os filhos dos funcionários. Idalina Araújo, responsável pela creche há 40 anos, refere com orgulho no rosto que criou os pais e agora está a criar os filhos. “Já passaram mais de mil crianças pelas minhas mãos”, afirma.

“A creche que a empresa oferece é um reconhecimento pelo valor acrescentado de todos os colaboradores”, refere Luís Avides Moreira. Explica ainda que “a proximidade de um filho com a mãe durante o primeiro e segundo ano é um fator muito importante e isto permite dar alguma tranquilidade às pessoas que trabalham na Ramirez“.

“A creche pertence ao nosso ADN. Quando era rapazinho tive na creche da fábrica e foi lá que aprendi as primeiras letras. Isto é uma tradição centenária da empresa”, refere com orgulho o presidente da Ramirez, Manuel Ramirez.

Para o administrador adjunto da Ramirez, Luis Avides Moreira, esta proximidade “melhora a produtividade pelo facto de a mãe estar perto do filho, a questão da amamentação (…) há uma série de fatores positivos para os colaboradores e para as empresa”, conclui.

A creche será com certeza um projeto com longevidade, uma vez que “a família Ramirez faz questão de manter esta tradição”, garante Luís Avides Moreira.

(As fotografias tiradas na Ramirez foram antes da pandemia da Covid-19)

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