Do Ceiia nascem os primeiros 100 ventiladores. “Desenvolver um produto para salvar vidas é um projeto repleto de paixão”

Depois de 45 dias de trabalho intensivo os primeiros 100 ventiladores do Ceiia estão prontos para serem doados ao SNS. Portugal tem capacidade para industrializar dez mil ventiladores num ano.

“Pôr a engenharia ao serviço da sociedade e aplicar o conhecimento e a tecnologia na lógica de salvar vidas”, esta foi a principal motivação do Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel (Ceiia) ao desenvolver um ventilador português. Perante a escassez e a dependência externa de um equipamento médico que pode salvar vidas, o Ceiia viu nos ventiladores uma grande oportunidade onde podia intervir.

“Percebemos que tínhamos todas as competências que eram necessárias para desenvolver e ‘produtizar’ um ventilador pulmonar”, explica José Rui Felizardo, CEO do Ceiia. E com esta missão em mente, uma equipa de 120 engenheiros e vários médicos e investigadores uniram esforços e em apenas 45 dias, nasceu o ventilador Atena.

Mesmo em condições adversas nada impediu estes engenheiros, alguns em teletrabalho outros em presencial, de cumprir a missão à qual se propuseram. Artilhados com batas, máscaras e luvas, todos estão envolvidos no Atena de corpo e alma. Os rostos são uma incógnita, mas através do olhar vê-se que a paixão é notória. A atenção ao detalhe, a sinergia entre engenheiros e a vontade de salvar vidas fez com que tudo fosse possível quase em tempo recorde.

Foram necessários apenas 45 dias para o ventilador Atena estar completamente pronto. “Se nós internacionalmente dissermos que desenvolvemos e produtizamos um ventilador invasivo nestes dias é difícil de acreditar”, explica com orgulho, José Rui Felizardo.

Ceiia adapta-se. De peças de carros, aviões e bicicletas a ventiladores

O Ceiia, localizado em Matosinhos, é o maior empregador em Portugal de engenharias aeroespaciais e a equipa normalmente dedica-se ao desenvolvimento e conceção de peças para aviões, carros e bicicletas elétricas. Face à necessidade a equipa rapidamente adaptou-se e precisou de apenas uma semana para começar a delinear o plano para o desenvolvimento e produção do ventilador pulmonar.

Depois de muitos esforços, muitos testes e desafios, o Ceiia termina este fim de semana a produção dos 100 primeiros ventiladores. “Os ventiladores estão prontos para serem doados aos hospitais portugueses na próxima semana”, destaca com contentamento, José Rui Felizardo.

Pedro Granadeiro

Humanidade, resiliência, entrega e muita paixão foram os quatro ingredientes que fizeram com que tudo fosse possível, evidencia o CEO do Ceiia. “Desenvolver um ventilador que é um produto para salvar vidas é um projeto repleto de paixão”, conta José Rui Felizardo.

A versão v1 do ventilador já está praticamente terminada e representa um investimento superior a dois milhões de euros. José Rui Felizardo está convicto que a certificação por parte do Infarmed não demorará mais que uma semana. “Estamos numa fase de testes finais e pré-clínicos no Hospital em Braga, disse ao ECO, Rui Magalhães, responsável pela área de engenharia e desenvolvimento. Para o CEO, os testes clínicos da versão um foram “muito satisfatórios e colocaram a expectativa muito em cima”, refere com orgulho.

Nunca conseguiríamos ter feito isto sem o envolvimento dos médicos. O trabalho deles foi incrível.

José Rui Felizardo

CEO do Ceiia

O objetivo do Ceiia é produzir até setembro 500 ventiladores. “Não quer dizer que não sejam mais, o nosso objetivo por agora são os 500. Se for necessário produzir mais nós produzimos mais”, destaca José Rui Felizardo.

Perante a grande batalha que o mundo está a enfrentar, o ventilador tem o nome de Atena por uma razão muito especial. “Atena é a deusa da guerra, da justiça e da estratégia e achamos que o nome se adequava por estamos a falar de uma batalha, de algo que é um desafio”, conta José Rui Felizardo.

O Atena enquadra-se na tipologia de ventiladores mais avançados e complexos, os chamados “invasivos”. Os engenheiros foram essenciais na conceção deste ventilador, mas os médicos foram uma peça decisiva. “O trabalho dos médicos foi crítico para conseguirmos chegar aqui. Nunca conseguiríamos ter feito isto sem o envolvimento dos médicos. Começamos por definir juntamente com os médicos quais eram os requisitos que um ventilador tinha que ter e como ele tinha que funcionar. O trabalho deles foi incrível”, destaca José Rui Felizardo.

Versão 2 do ventilador já está em andamento

Depois de muita dedicação e horas sem dormir, o ventilador versão v1 já está pronto e a versão v2 já começa a ganhar forma. A equipa de jovens engenheiros já está a trabalhar neste segunda versão. “É uma versão mais compacta, mais condensada naquilo que são os elementos internos, mas mantém exatamente as mesmas funcionalidades da versão v1. Estamos a olhar para esta versão mais num contexto pós Covid-19”, explica Rui Magalhães, responsável pela área de engenharia e desenvolvimento de produto.

Pedro Granadeiro

“A versão dois do ventilador já tem um nível de alguma sofisticação que permite pensar num produto para ser comercializado a partir de Portugal. Esta versão vai permitir ter mais indústria portuguesa envolvida”, conta José Rui Felizardo.

O CEO garante que Portugal tem capacidade para industrializar dez mil ventiladores no espaço de um ano. “Neste primeira fase estamos a trabalhar para uma série de 500 ventiladores. Posteriormente procuramos que seja a nossa indústria a industrializar quando for para escalar, nomeadamente as empresas que já estão a trabalhar connosco nesta fase”, refere José Rui Felizardo.

“Temos um produto onde podemos entrar de uma forma muito interessante no mercado. Já temos solicitações de vários países, nomeadamente do Brasil com uma escala muito interessante”, conta o CEO do Ceiia.

Quando o ventilador passar para a parte da industrialização, José Rui Felizardo revela que a versão v1 do ventilador vai custar até nove mil euros (dez mil dólares). “Numa primeira fase enquanto não conseguirmos o reconhecimento do produto pelas suas qualidades nós vamos competir pelo custo”, diz o CEO do Ceiia.

Caminho de Portugal é inverter a dependência externa

Com o aparecimento desta pandemia, Portugal acordou para a realidade e percebeu a forte dependência que tem de mercados externos nomeadamente da Ásia. Para fazer face a esta pandemia e à dependência, várias empresas converteram ou adaptaram as linhas de produção e começaram a produzir equipamento médico. Para o CEO do Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel, o caminho que Portugal está fazer é um grande passo para mudar o paradigma.

“A nossa trajetória de transferência da indústria para a Ásia veio trazer uma dependência que é critica. Temos que considerar e ter capacidade para produzir produtos, a partir da Europa e de preferência a partir de Portugal, que não coloquem em causa a nossa soberania”, refere José Rui Felizardo.

Para o CEO deste centro de inovação, Portugal tem capacidade para a transformar e inverter esta trajetória de dependência. “Temos um ventilador que Portugal pode industrializar, evitando a dependência das cadeias de fornecimento de países externos, como por exemplos os países asiáticos”, destaca.

O Ceiia garante que todos os componentes têm certificação CE. Explica que “é preciso obter certificação final para o produto e é mais muito mais fácil se todos os componentes que já estão dentro do produto tiverem certificação CE”.

O ventilador Atena ainda não é 100% nacional, mas é um dos objetivos do Ceiia. O CEO explica que, numa primeira fase, as caixas exteriores dos ventiladores começaram por ser compradas na Alemanha, hoje são produzidas em Portugal. Exemplifica: “Uma série de componentes não eram feitos em Portugal, hoje são produzidos na Frezite. Gradualmente temos vindo a trazer um conjunto de empresas portuguesas para dentro do projeto”.

EDP, Efacec, Corticeira Amorim, REN, Fundação Calouste Gulbenkian são alguns exemplos de empresas envolvidas no projeto do ventilador “Atena”. “Este envolvimento foi determinante até porque o angulo do financiamento do projeto era crítico. Sem o envolvimento de empresas que funcionassem como mecenas dificilmente nós conseguiríamos ter capacidade para financiar este projeto. O papel dos mecenas foi determinante”, esclarece José Rui Felizardo.

Para além dos mecenas, mais de 90 mil pessoas juntaram-se a esta causa através de uma ação de angariação de receitas, uma parceria da RTP com a Fundação Gulbenkian.

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