• Reportagem por:
  • Juliana Nogueira Santos e Paula Nunes

Do Pilar 7 vê-se uma Lisboa de pernas para o ar

Abriu um novo miradouro em Lisboa que promete virar a cidade de pernas para o ar. Quem sofre do coração ou de vertigens poderá não passar do chão.

“Só com o carro estragado é que conseguíamos ter esta vista”, afirma Filipe Fernandes. O arquiteto feito youtuber não perdeu a oportunidade de ser um dos primeiros a visitar o novo miradouro da Ponte 25 de abril. Chegou acompanhado pela sua câmara, captando cada momento, até aquele em que se arrisca a fazer o pino numa caixa de vidro a 80 metros do ar. “É um bocadinho assustador para pessoas com vertigens, mas eu não tenho”, garante.

Além de Filipe, mais de 500 pessoas subiram ao 26º andar do pilar 7, o último da ponte a estar em terra lisboeta, na inauguração ao público do novo centro interpretativo da capital. Para além de oferecer uma vista que, como diz Filipe, só era possível ser apreciada em situações extraordinárias, este quer dar a conhecer a história e a essência da ligação entre as duas margens do Tejo.

"Procurámos valorizar esta infraestrutura, uma ponte com a qual os portugueses têm uma grande ligação sentimental.”

Vítor Costa

Diretor-geral da ATL

A data escolhida para a abertura ao público não foi escolhida ao acaso. No dia 27 de setembro assinala-se o Dia Internacional do Turismo, pelo que a Associação do Turismo de Lisboa (ATL) não quis que a data passasse ao lado. “Procurámos valorizar esta infraestrutura, uma ponte com a qual os portugueses têm uma grande ligação sentimental”, justifica Vítor Costa, diretor-geral da ATL ao ECO. Para além do novo centro de interpretação, a associação inaugura também dois postos de turismo na área de Belém e um novo circuito turístico na mesma zona.

Vítor Costa, diretor geral da Associação do Turismo de Lisboa, espera que o novo centro receba 150 mil visitantes por ano.Paula Nunes / ECO

“Estamos habituados a ver a ponte pelo exterior e agora temos a oportunidade de perceber como foi construída, quem cá trabalhou e visitar o seu interior”, reitera Vítor Costa. Que comece então a subida vertiginosa.

“Não recomendada para doentes cardíacos”

À entrada do centro interpretativo, ouve-se repetidamente, e em vários idiomas, uma frase que tira qualquer dúvida acerca do que está para vir. “Esta visita não é recomendada para doentes cardíacos”, informam os assistentes de bilheteira a cada visitante que chega. Por entre fotografias, brindes e alguma ansiedade dos que esperam na fila, o primeiro visitante termina a sua volta. “É um miradouro de emoções”, afirma Rui Portela. “É uma coisa passar de carro, mas só assim dá para perceber a grandiosidade desta obra”, remata.

Atrás de Rui vem Joana Brandão que, ao ter sido a quarta visitante oficial, considera que assim se abre a porta para uma parte não conhecida da cidade. “Os outros miradouros só mostravam a parte antiga. Aqui temos a oportunidade de ver a parte moderna da cidade”. Ainda assim, o miradouro não foi a parte da visita que deixou Joana sem chão, mas sim a experiência 360º. Minutos antes, e utilizando um aparelho de realidade virtual, estava no topo de um pilar da ponte, com os trabalhadores, a fazer a manutenção. “Dá a sensação de perder o controlo”, resume, ainda abalada.

O coração da ponte

“Aqui é o coração da ponte”, esclarece, com o peito cheio de orgulho, José Costa Nunes, engenheiro civil e responsável pela equipa de manutenção da infraestrutura. O “aqui” é uma das salas onde residem as principais amarrações dos cabos de sustentação da ponte. À nossa frente estão toneladas de aço esticado. “Antes, só nós é que podíamos ver isto. Agora podemos partilhar com toda a gente”.

O engenheiro coordena a equipa de 15 pessoas que dedica a sua vida a tratar de um dos principais acessos à cidade de Lisboa, utilizada diariamente por cerca de 300 mil pessoas. “Estão a ver as luzinhas? Sempre que uma lâmpada se funde alguém tem de ir lá trocar”, exemplifica José Costa Nunes. Ainda assim, é por entre as explicações das tensões, forças e flexibilidades da ponte que o seu discurso se ilumina.

"Antes, só nós é que podíamos ver isto, agora podemos partilhar com toda a gente.”

José Costa Nunes

Responsável pela equipa de manutenção da ponte

“O pilar 7 é importante porque é onde o betão e os ferros se unem”, continua o engenheiro, explicando que os grossos cabos que sustentam a ponte se separam em feixes mais finos assim que entram no viaduto, criando uma teia de aço que pode agora ser vista por toda a gente.

A esta sala de cabos junta-se uma exposição da maqueta original da ponte, acompanhada pelos principais números da obra, uma sala de homenagem aos trabalhadores, com projeções de imagens da altura de construção da ponte, e uma sala de espelhos, para que os visitantes se consigam acostumar à vertigem da escalada vertical que estão prestes a sentir. Tudo isto constitui um projeto cuja fatura se totaliza nos 5,3 milhões de euros.

Mesmo ao lado dos condutores

O elevador vai marcando os andares: 24.º, 25.º, 26.º. As portas abrem e o vento sopra mais forte. Os carros passam nas juntas de dilatação e o comboio faz abanar a ponte. Chegámos ao topo.

O miradouro da ponte está à mesma altura que o tabuleiro destinado à circulação rodoviária e, em alguns sítios, é feito do mesmo material. Existe uma parte em betão, outra em grelha, para simular as juntas de dilatação e, para acelerar respirações e batimentos cardíacos, uma caixa em vidro que está a 80 metros do solo.

"Podiam ter explorado mais, terem feito um vidro maior.”

Filipe Fernandes

Youtuber

Quando o medo é ultrapassado, os visitantes concentram a sua atenção na vista. Olhando para a direita é possível alcançar o princípio da linha de Cascais. Para a frente, a vista é pautada pelo Cristo Rei e Almada. Ainda assim, a sensação de se estar suspenso no ar parece não ser suficiente para os mais aventureiros: “Podiam ter explorado mais, terem feito um vidro maior”, aponta Filipe, dando como exemplos algumas obras parecidas.

“Esperamos receber 150 mil visitantes por ano”, estabelece Vítor Costa, diretor da ATL. “Haverá meses mais fortes, como os do verão, mas esperamos que os lisboetas visitem o centro durante o ano todo”. Os bilhetes vão dos quatro euros — para estudantes, seniores ou grupos — aos seis euros, enquanto para as crianças até aos cinco anos é de graça. Acrescem ainda 1,50 euros para experimentar a sessão de realidade virtual.

Tal como fizeram Rui, Joana e Filipe, muitos não perderão a oportunidade de verem a sua cidade de pernas para o ar. Quem sofre do coração ou tem vertigens poderá não passar do chão.

  • Juliana Nogueira Santos
  • Redatora
  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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