Por “saudade” ou “necessidade”, portugueses enchem lojas dos centros comerciais

No dia em que os centros comerciais reabriram portas, os portugueses não quiseram perder a oportunidade de voltar às compras. No Porto ou em Lisboa, a tendência foi a mesma.

São 11 horas da manhã. Em Rio de Mouro, o Alegro Sintra reabriu portas há uma hora. No parque de estacionamento exterior há poucos lugares vagos e o movimento de carros TVDE não passa despercebido. O cenário já denunciava o que se iria encontrar no interior. Ao fim de cerca de três meses, é altura de voltar a entrar num centro comercial. Entramos e dá-se o primeiro impacto. É recuar uns meses no tempo. Pessoas com sacos de compras e filas à porta das lojas. Há barulho e caras de impaciência, mas também de felicidade com este regresso. A azáfama das compras está de volta e até houve quem fosse a correr para os centros comerciais apenas pela vontade de sair de casa e desconfinar.

A Primark é a loja com maior afluência do Alegro Sintra. Atualmente permite pouco mais de 100 pessoas no interior da loja, um terço do que era permitido antes da pandemia. E esse limite de pessoas imposto atualmente provoca uma — longa — fila no exterior. São mais de 100 pessoas à espera para entrar nesta loja que não vende online, numa fila quase em forma de ‘S’, que começa no terraço exterior do centro comercial e atravessa a porta de entrada, em direção à loja. Há quem não se importe de esperar, mas também há quem desista da ideia quando o segurança informa que a fila começa “lá fora”.

Alegro Sintra volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21
Hugo Amaral/ECO

Bárbara Almeida e a irmã têm o dia livre e, por isso, estão pacientemente à espera para entrar na Primark. “Como a fila vem para a rua não me faz assim tanta confusão. E as filas lá dentro, pelo menos as que fomos, não eram assim muito grandes”, diz ao ECO, acrescentando que estão “há pouco tempo” na fila e que “até anda rápido”. Durante o confinamento, compraram online, mas admitem que não é a mesma coisa. “O online é sempre uma alternativa, mas poder vir cá e ver as coisas é diferente”, diz Débora Almeida. A irmã diz que estavam “ansiosas” pela reabertura dos centros comerciais, sobretudo pela ideia de poder sair um pouco de casa. Mas admite que também foi “comprar uma ou duas peças de roupa”.

Ansiosa pela reabertura não estava. Vim porque tenho filhos e preciso de roupa e calçado para eles. (…) Desde que as pessoas cumpram o distanciamento eu estou tranquila.

Mafalda Cláudio

Consumidora

Também na fila da Primark, mas bem mais perto da entrada, está Álvaro Mendes. “Vim fazer compras e também queria ir ao cinema, mas por enquanto não dá”, diz o jovem brasileiro. “São compras essenciais, mas também já tinha saudades”, acrescenta, entre risos. Está acompanhado pelo pai, que diz não ter paciência para esperar. “Estamos na fila há bastante tempo, cerca de 20 minutos. Ele [o pai] não tem paciência, mas vai aguentando”, diz, na esperança de que o pai queira visitar mais alguma loja. “Se ele [pai] quiser ir a mais alguma, nós vamos”.

Uns metros à frente está a Lefties, uma das lojas do Grupo Inditex. É mais uma que não passa despercebida pela fila de pessoas que aglomera. Mafalda Cláudio está desempregada e, embora não tivesse propriamente vontade de regressar a um centro comercial, tem um motivo maior. “Ansiosa pela reabertura não estava. Vim porque tenho filhos e preciso de roupa e calçado para eles”, diz, já com sacos de compras nos braços. Praticamente a meio da fila, Mafalda Cláudio considera que o ambiente está “calmo”, tirando nas “marcas mais acessíveis”. Nesse sentido, diz sentir-se segura. “Desde que as pessoas cumpram o distanciamento eu estou tranquila”, remata.

Alegro Sintra volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21

Subimos ao piso superior, à zona da restauração. Nada é como antes. O cinema está fechado e há mesas vazias. “Psst, este espaço está limpo” é uma espécie de semáforo verde em cada mesa a indicar que as pessoas se podem sentar. Espalhadas pelo piso há funcionárias a garantir que nenhuma mesa tem uma indicação contrária. Passa pouco das 12h30 e David Franco está sentado, sozinho, à espera do almoço. Mas desligado de toda a azáfama nos pisos de baixo. “Vim só almoçar e não, não estava ansioso pela abertura dos centros comerciais”, diz ao ECO, explicando que praticamente todas as compras que faz são online. “Faço compras nas grandes superfícies só mesmo quando é necessário”, acrescenta, sublinhando que encomendava muitas vezes comida a partir de casa, mas que, ainda assim, prefere sair para fazer refeições.

Uns passos à frente, com seis sacos de compras, está Renata Cabral. Está de pé, na fila de um restaurante de sushi, à espera para se alimentar a si e ao bebé que traz na barriga. “Tinha algumas coisas para trocar e como vou ter um bebé tive alguma pressa em comprar mais alguns produtos. Mas sim, acho que todos estávamos ansiosos”, diz, reconhecendo que não contava com tanta afluência. “Está um caos, sobretudo nestas lojas”, diz, apontando para dois dos sacos que traz: Primark e Lefties.

Por estar grávida, Renata Cabral não perdeu muito tempo nas filas pelo facto de haver filas prioritárias, ainda assim conta que esperou entre dez a 15 minutos para entrar nas lojas. Durante os meses de encerramentos dos centros comerciais, a consumidora recorreu ao online, por considerar ser “muito mais fácil”, embora reconheça que “há determinados produtos em que é melhor estar presente”. Compras feitas, Renata Cabral subiu até à zona da restauração. “Já estava com saudades de me sentar aqui e comer”, diz, entre risos.

Lojistas estão confiantes. Mas temem novo encerramento

O distanciamento é uma das medidas que deve ser cumprida nos centros comerciais, embora certas lojas não controlem esse cumprimento de forma rigorosa. O aconselhável é manter uma distância de dois metros entre as pessoas, mas em certas lojas isso nem sempre acontece. Apesar disso, o próprio Alegro Sintra implementou uma série de medidas para garantir a segurança de todos os lojistas e clientes. “Estávamos preparados para esta reabertura. Aliás, é a segunda vez que o fazemos”, diz ao ECO Miguel Ramos, diretor do centro comercial. “Todos os procedimentos foram acautelados”, diz, seja em termos de limpeza e sinalética. Além disso, a administração controla em tempo real o número de pessoas que estão no interior. Por volta das 11h30 contavam-se 1.742 pessoas e cerca de 20 minutos depois já eram 2.003. Ou seja, a lotação estava quase no máximo.

Alegro Sintra volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21
Aplicação em tempo real que mostra o número de pessoas dentro do Alegro Sintra.Hugo Amaral/ECO

A corroborar este balanço positivo que a própria administração do Alegro Sintra tem está Elga Menezes, responsável da Vip Malas. O movimento de clientes dentro da loja — com cerca de 15 metros quadrados — é controlado: apenas duas pessoas e duas colaboradoras, contando com a responsável. Elga Menezes prefere falar com o ECO no exterior, para não deixar os clientes à espera para entrar. “Estávamos super ansiosos de abrir. Foram três meses fechados, sem vender nada e sem chegar nada [novos produtos] às lojas”, diz a responsável, que conta que a “afluência tem sido boa”.

Durante os meses de encerramento, a Vip Malas vendeu online, mas Elga Menezes afirma que “nunca é a mesma coisa”. “Tínhamos cinco lojas fechadas e vender online não é nada que se pareça. Mas deu para manter o contacto com os clientes e para os manter informados das novidades que estavam a chegar. As pessoas gostam de vir às lojas de ver, tocar e experimentar os produtos“, explica.

Com dez colaboradores, a Vip Malas não despediu ninguém, mas tinha planos para contratar mais pessoal e esses acabaram suspensos. “Os apoios do Governo foram mínimos, muito maus. Apesar do lay-off ainda tivemos de pagar uma parte dos ordenados e isso foi penoso”, diz. Para os próximos meses, apesar de as expectativas serem “boas”, Elga Menezes mostra-se preocupada com a “crise económica” que aí vem. “Esperamos que haja uma vaga de desempregados e isso vai afetar o poder de compra das pessoas. Também com a situação das moratórias. Tenho receio nesse sentido”, conta.

Em frente a uma das entradas do centro comercial, e à saída das escadas rolantes, está o quiosque de café da Sical. A responsável, Susel Firmino, decidiu arriscar e abrir um novo quiosque no piso superior, da Buondi, que começou a funcionar esta segunda-feira. O segredo? “Acreditar e confiar que as coisas vão correr bem”, conta ao ECO. Encontrámos a responsável no quiosque da Sical, sem mãos a medir. “Estamos com bastante expectativas. Esperamos que as coisas vão correr bem e, até agora, está a correr dentro do que é esperado”, diz.

Com dez colaboradores, Susel Firmino não deixa de lamentar os apoios dados pelo Governo, que classifica de “economicamente” insuficientes. “Temos de nos consciencializar que não podemos fechar tudo sempre que surge uma vaga. O comércio não vai aguentar. Isto é uma realidade especialmente para as pequenas e médias empresas”, diz.

Os centros comerciais infelizmente estiveram fora do Apoiar Rendas. Sem um apoio direto do Governo, será complicado, porque basicamente o apoio que houve foi apenas redução das rendas.

Miguel Ramos

Diretor do Alegro Sintra

Com uma certa responsabilidade sobre todas estas empresas, o diretor do Alegro Sintra nota que “praticamente” não houve encerramentos de lojas. Ainda assim, Miguel Ramos mostra-se receoso com um novo encerramento, defendendo a implementação de “medidas paralelas do Governo” para proteger os lojistas. “Os centros comerciais infelizmente estiveram fora do Apoiar Rendas. Sem um apoio direto do Governo, será complicado, porque basicamente o apoio que houve foi apenas redução das rendas“, diz o responsável.

El Corte Inglês de Gaia praticamente cheio. Fazer compras “é uma terapia”

Depois de mais de três meses encerrados, os Grandes Armazéns El Corte Inglés de Vila Nova de Gaia reabriram. Às 10h em ponto as portas do El Corte Inglês em Gaia abriram e já existiam clientes à espera. Os cinco pisos do parque de estacionamento estavam praticamente cheios e às 11h30 já tinham entrado 1.370 clientes no shopping, sendo que o limite são 2.000 pessoas. Os 13 pisos estavam com bastante afluência e a maioria das pessoas já levava pelo menos um saco de compras.

El Corte Inglés, em Gaia, volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21

A cliente, Maria Pinto, conta ao ECO que antes do El Corte Inglês abrir as portas já estava na fila de espera. Maria Pinto estava “com muitas saudades de ir” ao centro comercial e admite que “adora comprar roupa” e que é “muito consumista”. “Agora com a reforma quero aproveitar este luxo e passear. Já estava farta de estar em casa”, diz.Maria Pinto quer estar a par das tendências da moda e adianta que logo de seguida vai à Tommy Hilfiger comprar uma “carteira lilás que é a cor da moda” e também uns sapatos da mesma cor.

O manager do segmento de homem da Hugo Boss refere que o arranque neste primeiro dia é “positivo” e destaca que “os clientes estavam ansiosos que este tipo pela reabertura deste tipo de superfícies”. Carlos Rodrigues adianta ainda que as vendas estão “a correr bem” e que têm um “cliente muito fidelizado à marca”. “Os homens neste início de coleção procuram essencialmente artigos de verão que começam a ter muita procura”, explica o manager da Hugo Boss. Acrescenta ainda que como os casamentos já podem arrancar com 25% da lotação, já começa a verificar-se uma procura para fatos de cerimónia, explicando que este é um negócio muito forte da Hugo Boss e que pode ser que “alavanque”.

[Na compra online] as peças não foram do meu agrado, não serviam, voltaram para trás, o processo foi demorado, um caos. Não existe nada como comprar na loja física.

Luciana Sousa

Consumidora

Luciana Sousa entrou no El Corte Inglês às 10h15 e às 11h40 já tinha algumas compras feitas. Comprou roupa para os filhos e explica que era “mesmo uma necessidade até porque eles não param de crescer”. T-shirts, blusas e algumas peças para a estação de primavera verão. A cliente conta ainda que comprou peças de vestuário pela internet, mas não gostou muito da experiência. “As peças não foram do meu agrado, não serviam, voltaram para trás, o processo foi demorado, um caos. Não existe nada como comprar na loja física”, destaca. Para Luciana Sousa, que vive em Gaia há mais de 20 anos, ir às compras é uma “terapia” até para o bem-estar mental.

A manager do segmento de mulher da The Kooples estava bastante ocupada e quase não tinha mãos a medir para as solicitações das clientes. Sara Proença está muito feliz por estar de volta ao ativo. “Está a ser uma manhã fantástica. Os clientes estão bastante contentes por voltar a ver a coleção”. Às 12h30 já tinham algumas vendas feitas, principalmente vestidos exclusivos da marca. “As clientes já tinham muita vontade de mimar-se, queriam renovar o seu guarda-roupa. Esta reabertura mexe com as emoções”, destaca a manager.

Em relação a um terceiro confinamento, Sara Proença diz estar muito “otimista” e tem “esperança que o setor não volte a fechar”. A The Kooples vende online e a manager garante que muitas clientes recorreram a este canal. “As clientes têm procurado muito o canal online, mas agora com a reabertura preferencialmente vem ter connosco”.

El Corte Inglés, em Gaia, volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21

O gerente de loja da L.K.Bennett conta que “a reabertura está a correr bem” e que estão “com expectativas de receber muitas clientes”. José Abreu admite que as clientes já estavam a ressacar uma boa dose de compras. “Sente-se que as pessoas têm saudades de ter as lojas de shoppings abertas”. Em relação às vendas online, o gerente refere que “correu muito bem”, as vendas cresceram “bastante” e que registaram um crescimento superior a 300%. Apesar da crise, garante que o consumo aumentou e que de 2019 para 2020 registaram um crescimento de 70% nas vendas físicas.

A responsável de comunicação e relações institucionais do El Corte Inglês corrobora a ideia dos lojistas do El Corte Inglês de Vila Nova de Gaia e destaca que “a reabertura está a correr muito bem”. Teresa Marinho adianta que antes de abrirem as portas já tinham clientes à espera. “É aquela vontade dos clientes regressarem novamente às compras e a nossa vontade de os receber. Foi com muito entusiasmo que abrimos as portas”.

No primeiro confinamento houve um crescimento exponencial do online. Neste segundo confinamento, o online correu bem e está a ter cada vez mais adesão. No entanto, temos muitos clientes que preferem a compra física, principalmente o vestuário.

Teresa Marinho

Responsável de Marketing e Relações Institucionais do El Corte Inglés de Vila Nova de Gaia

“No primeiro confinamento houve um crescimento exponencial do online. Neste segundo confinamento, o online correu bem e está a ter cada vez mais adesão. No entanto, temos muitos clientes que preferem a compra física, principalmente o vestuário: na roupa e no calçado não existe nada como experimentar, ver e sentir”.

El Corte Inglés, em Gaia, volta a abrir ao público após segundo confinamento - 19ABR21
Fátima Castro/ECO

Depois de os clientes experimentarem determinada peça de vestuário, a mesma vai para quarentena cerca de duas horas. “Temos salas próprias com raio ultravioleta para fazer a desinfeção da mesma. Só no final dessa desinfeção é que a roupa pode retomar para exposição”, garante Teresa Marinho.

Em relação às medidas de segurança, ao longo dos vários pisos encontra-se vários pontos com álcool em gel, barreiras nas caixas de pagamento e apoio ao cliente, sistemas de avaliação dos níveis de ocupação de cada piso ao minuto, reforço dos vigilantes, controlo de temperatura e testagem dos colaboradores e mecanismos de ventilação que permitem a permanente renovação do ar.

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