Salão automóvel? Isto é mais um “stand em ponto grande”

O Salão do Automóvel regressou. Depois de um (mais um) interregno, a montra para o que se faz na indústria volta à FIL, mas não enche pavilhões. Há dois, mas com poucas marcas. E muitos semi-novos.

O Salão do Automóvel abriu as portas. É o regresso, depois de um ano de interregno, daquela que pretende ser a principal montra do setor automóvel no mercado nacional, mas nem todas as marcas pensam o mesmo. Há Volkswagen, Audi, Peugeot e Citroën, mas faltam muitas outras, algumas das mais relevantes para os consumidores portugueses, como a Renault. Ausências que se notam, tanto quanto a de estreias, salvo raras exceções. E se praticamente não há modelos que ainda não viram a estrada, há, este ano, muitos que já rodaram uns quantos quilómetros.

"Não é um salão que se apresente. Um salão deve apresentar novidades.”

João Varela

Visitante

“É um stand de grandes dimensões, não um salão”. Quem o diz é Daniel Silva, um dos muitos portugueses que decidiram ir “passear” à FIL para encontrar carro novo. Atraído pelo Salão do Automóvel, que nem sempre acontece, veio à procura de ver as novidades do setor, mas não há muitas — só há uma estreia, a do DS7 Crossback. “Não é um salão que se apresente. Um salão deve apresentar novidades”, diz João Varela, que também não resistiu a percorrer os dois pavilhões do centro de exposições.

Tiago e Flávia Pereira também esperavam mais. “É um salão pobrezinho. Devia ter mais novidades”, dizem ao ECO, depois de terem percorrido os 23.000 metros quadrados da exposição onde se contam, de acordo com a organização, 300 veículos de várias marcas. Mas onde faltam muitas com peso no mercado nacional: não há Renault, Opel e Ford, nem as premium BMW e Mercedes — já para não falar da ausência da Porsche e Ferrari, ficando as atenções todas para a Lamborghini e a Bentley, presentes através da SIVA.

Apresentar novidades? É mais… atrair clientes

É a Lexus que dá as boas-vindas aos visitantes — o certame abriu a 21 e termina a 26 de novembro –, ladeada da Seat e da PSA, o grupo que tem as marcas Peugeot, Citröen e DS. “Esta é uma oportunidade para o público ter contacto com toda a oferta atual da marca“, diz Jorge Magalhães, responsável pela comunicação do grupo francês. “Para a marca, é a oportunidade de mostrarmos os nossos produtos”, acrescenta, salientando a presença do DS7 Crossback, que será lançado em janeiro, mas também do Citröen C3 Aircross e do novo Peugeot 308 com a caixa automática de oito velocidades.

Fiat, Kia e Hyundai completam o primeiro pavilhão, enquanto no segundo dominam as marcas da VW, com o T-Roc, fabricado em Palmela a assumir um lugar de destaque, mas também encontramos outras como a Suzuki, Nissan e Mazda. “Temos aqui os nossos produtos, com os novos modelos em destaque”, diz João Botelho, diretor de marketing da fabricante japonesa que remata: é de uma “importância total em estar presente no salão”. “Conseguimos, assim, atrair pessoas para a marca”, diz.

Esta é uma oportunidade para o público ter contacto com toda a oferta atual da marca.

Jorge Magalhães

Responsável pela comunicação da PSA

“Este é um salão adaptado à realidade do setor. Um salão de exposição, mas também de vendas”, diz Helder Barata Pedro, secretário-geral da Associação Comércio Automóvel de Portugal (ACAP). Com o “intuito de proporcionar uma dinâmica diferente ao evento, teremos, adicionalmente, numa base diária, conferências e palestras sobre as mais diversas temáticas relacionadas com o automóvel”, conclui o responsável pela organização do evento.

Passeio, reflexão e, talvez, comprar

Muitos dos visitantes com que o ECO falou admitiram estar apenas a “passear”, aproveitando a oportunidade para se sentarem ao volante de alguns modelos mais recentes, mas também de outros que não estão acessíveis aos bolsos de todos. Outros vêm numa lógica de conhecer as ofertas, ponderando a compra em breve. “Vim ver as novidades. Vim porque estou em período de reflexão para a compra de uma automóvel novo”, diz José Vieira.

“Tenho critérios definidos: não ser a diesel porque são mais poluentes e, dizem, vão ser proibidos”, referindo-se aos limites à utilização de motores de combustão a gasóleo em várias cidades europeias. “Quero um híbrido”, afirma. Porquê um híbrido? “Os elétricos ainda não satisfazem totalmente”, remata. Mas enquanto para José o que conta é o que está debaixo do capot, muitos outros casais que encontrámos no salão focam-se no tipo de automóvel. E, aí, há um claro vencedor: os SUV.

“Viemos procurar um automóvel novo. Neste caso, já temos o SUV da VW, em vista. Tem sete lugares. Precisamos para a nossa família”, dizem Pedro Santos e Carla Chambel. O mesmo acontece com Daniel Silva. Quer um SUV. “São modelos com mais estilo, mas também têm muita utilidade”, refere ao ECO. Já Bruno quer um utilitário, mas a visita ao salão trocou-lhe as voltas. “A ideia era comprar um Seat Ibiza, mas agora estamos a namorar outro. Vimos um Kia”, diz a olhar para a esposa que se enamorou por um modelo coreano.

Financiamento é chave para o carro novo

Comprar um automóvel implica um elevado esforço financeiro. São precisos 20, 30 ou 40 mil euros para retirar o carro do stand para a estrada, mas há quem os tenha para pagar a pronto. “Comprar? Só a pronto. Tenho recursos que não estão a render nada no banco. Por isso, não faz sentido pedir dinheiro emprestado. Pagava mais do que se desmobilizar este dinheiro”, diz José Varela. “Financiamento? Não. A comprar é a pronto”, dizem também Paulo Santos e Carla Chambel, mas muitos têm de recorrer ao crédito.

“Financiamento? Olhamos para a prestação”, diz Daniel Silva, acrescentando, contudo, que, no seu caso, não serão as condições apresentadas que o farão optar por um ou outro modelo. “Não é um juro 0% que define a escolha”, salientando que é preciso ser um automóvel de que goste. Bruno tem a mesma opinião, mas tentará negociar um bom crédito. “Vamos recorrer a financiamento. Pode jogar-se é com os valores residuais. Há margem para negociação”, diz. Questionado sobre o risco de sobre-endividamento dos portugueses, diz que “as pessoas têm de ter noção do risco”.

Usados num salão? Há mais escolha

Nem todas as famílias conseguem comprar um automóvel a pronto, pelo menos não um novo. Por essa razão, ou não, o certame conta, desta vez, com stands de veículos semi-novos, que se misturam com as novidades. Uma realidade que apanhou de surpresa algumas das marcas que fizeram o esforço financeiro para estarem presentes no evento, mas que outras aproveitaram. Além dos novos, várias marcas trouxeram consigo parte dos veículos de serviço, com preços mais em conta.

Se para algumas marcas a presença de semi-novos não é bem vista, para quem visita não é, de todo, estranho. Novo ou usado? “O que contribua para facilitar a escolha é bom para o consumidor”, diz José Varela, enquanto Tiago e Flávia Pereira salientam a importância de saber as alternativas que existem. Por vezes, o mesmo automóvel custa alguns milhares de euros a menos com 10 ou 20 mil quilómetros. “Abre o leque de escolha, mas queremos um carro novo. Já tivemos muitas más experiências com carros velhos”, remata Bruno.

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