Volta a Portugal em incubadoras: incubar passa por ensinar empreendedorismo

Inaugurada no final de 2016, a incubadora da cidade é motor de inovação e análise de mercado: vai adaptando o que faz às necessidades que aparecem.

Etapa 4: Rumo ao sul, voltamos ao centro. Nesta nossa Volta a Portugal em incubadoras, 222 quilómetros depois, chegamos a Torres Novas, em pleno Vale do Tejo e a apenas uma hora de Lisboa.

Ainda cheira a novo. As paredes, pintadas de branco imaculado, funcionam apenas como suporte do espaço recém-inaugurado, mesmo em frente ao jardim de Torres Novas. O antigo edifício do hospital da cidade foi reabilitado e, com essa renovação veio a ideia de renovar a energia da cidade. Na antiga entrada do hospital, o edifício bonito pintado de amarelo vai ser transformado numa espécie de centro cultural com concertos, exposições e outros eventos artísticos. E, o edifício adjacente, onde antes funcionava a maternidade, transformou-se há pouco mais de quatro meses na incubadora da cidade: um convite quente e seguro para ficar… e fixar a população.

Edifício da Startup Torres Novas fica em frente ao jardim da cidade.José Pedro Tomaz/ECO

“Tínhamos noção de que havia gente interessada em lançar negócios mas não sabíamos que havia tanta gente com essa ambição”, conta Nuno Valente, gestor do projeto da incubadora, em entrevista ao ECO. A casa serve de cartão de visita à cidade. E, acredita Nuno, como fator agregador para localidades próximas como Entroncamento, Tomar e Golegã, por exemplo.

Estamos aqui a um salto da A23, tínhamos uma cidade agradável, equipamentos. E a partir desse momento começámos a fazer a criação da rede de mentores que, logicamente conta com gurus locais como Paulo Pereira da Silva da Renova. Temos também outras pessoas, jovens empresários com perspetivas mais recentes, de quem começou o negócio há pouco tempo e teve certos problemas.

Nuno Valente

Startup Torres Novas

Paulo Gaspar, 25 anos, é um dos primeiros ‘moradores’ da incubadora. Com o sócio, Paulo Garrido, criou uma empresa que serve de base de negócio a quatro estufas que trabalham com hidroponia na região. O desafio foi lançado por uma dona de uma estufa que, com falta de disponibilidade para trabalhar a parte comercial como no setor agrícola, pediu ajuda. “Criamos os portos para o escoamento do produto. O nosso grande cliente é a Nutrigreen”, conta Paulo Gaspar, em conversa com o ECO.

Para quem começa, poder fazer parte de uma estrutura com vantagens ao nível dos custos fixos foi preponderante para o lançamento do negócio. “Seria muito complicado termos um gabinete próprio porque estamos a crescer, para qualquer empresa que esteja a começar”.

“São estes desafios que, primeiro, só dão despesa mas depois dão receita. Primeiro, porque ocupam a mente das pessoas, porque dá a impressão que este país anda todo depressivo. Acho que preocupados com ideias novas, com projetos para rentabilizar, lucros e receitas, podemos ver as pessoas ocupadas e sem desemprego. E dizer à população de Torres Novas: mesmo que não tenham ideia nenhuma, há ali um espaço que vos pode ajudar. Vão lá ver aquilo, podem ficar inspirados a falar com outros”, explica o presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira.

Paulo Gaspar ocupa, com o sócio, uma das salas da Startup Torres Novas: a startup que criou, a Horta d’Água, trabalha com quatro estufas de hidroponia.José Pedro Tomaz/ECO

Bernardo Monteiro, 18 anos, faz várias vezes por semana o caminho que separa a Chamusca de Torres Novas. O estudante, que trabalha no escritório de uma fábrica na região, partilhou com o professor a sua ideia para a PAP, projeto de aptidão profissional, para concluir o curso. A ideia virou negócio.

“A ideia é criar um site onde as pessoas se inscrevem, fazem o log in e colocam dados pessoas relativos à saúde, fica lá uma ficha médica pessoal: cirurgias, doenças, medicação, tipo de sangue, alergias”. A ideia ainda é isso mesmo: uma ideia. Mas Bernardo, o único fundador da startup, quer transformar esta informação num código QR que facilitará o processo de entrada num hospital no caso, por exemplo, de uma pessoa estar inconsciente. “Os cartões têm um chip e basta um leitor de NFC’s para que, em qualquer lugar do mundo, os médicos possam ter acesso à informação ligada à pessoa”, explica. O negócio passa, depois, por transformar estes códigos em objetos como capas de telemóvel, pulseiras e cartões. É daí que Bernardo pensa conseguir fazer dinheiro.

“O meu sonho era ser enfermeiro ou médico, infelizmente não pude seguir. Quis fazer alguma coisa que pudesse ajudar nessa área”, conta.

Bernardo Monteiro, 18 anos, queria ter estudado saúde. Foi em conversa com um professor da escola profissional que frequenta que surgiu a ideia de integrar o primeiro grupo de residentes da Startup Torres Novas, onde está a desenvolver um sistema para uma ficha médica pessoal.José Pedro Tomaz/ECO

Pensar global, agir local

No dia em que Nuno Valente aceitou alinhar na estratégia de empreendedorismo e inovação da Câmara Municipal de Torres Novas, o engenheiro decidiu ir buscar inspiração a algumas das referências em incubação, a nível nacional. Optou por ‘estagiar’ durante uma semana na Startup Lisboa.

Com a equipa liderada agora por Miguel Fontes, Nuno Valente aprendeu o dia-a-dia numa incubadora. A semana intensa permitiu-lhe aprender os primeiros passos necessários para passar da ideia à prática. “Pedi a um amigo que vive em Lisboa para ficar em casa dele, e foi muito engraçado perceber como funcionavam, a lógica de receção e do funcionamento. Muito do que agora veem aqui foi inspirado no funcionamento da Startup Lisboa. O júri de seleção, quem constituía a rede de mentoria, a génese da criação do ecossistema. Tudo isso demora quase um ano e meio para criar toda a estrutura”, esclarece.

A Startup Torres Novas criou também uma rede próxima de parceiros, que acompanham ao detalhe todos os passos. A ANJE, a Audax do ISCTE e a Startup Lisboa são alguns dos mais importantes. “Era essencial ter parceiros assim para isto conseguir funcionar e de forma a criar a sustentabilidade necessária”.

Mas aproximar a cidade das pessoas não foi o único pretexto para a criação de um centro de incentivo às ideias e aos negócios. Pode uma incubadora servir de motor à retenção de talento?

Alexandre Lopes, 25 anos, estudou comunicação social. Em Leiria. De regresso a Torres Novas, prepara-se para lançar um jornal online local, orientado para o público dos 18 aos 35 anos.José Pedro Tomaz/ECO

Aos 25 anos, Alexandre Lopes decidiu voltar a casa e começar do zero. Começou a trabalhar no projeto de um jornal online dirigido ao público millennial. “Como não havia nenhum meio orientado para jovens que gostem de consumir muita da informação na internet mas falam de muitos outros temas. Vamos apostar em tecnologia — produtos, crescimento –, na área de sociedade, porque queremos descobrir novos bares, restaurantes. E explorar também a parte cultural: cinema, teatro, música, exposições. Vamos agregar tudo no nosso site, uma espécie de Time Out mas noutra plataforma e, à nossa dimensão”, explica o empreendedor, ao ECO.

Com David Fialho, cofundador, estão a trabalhar no desenvolvimento da plataforma e do conteúdo do EchoBoomer (nativos digitais), que será lançado provavelmente ainda este ano. “Achei que nunca houve nenhum meio que conseguisse informar sobre tudo o que acontece, queremos ser um dinamizador da região”, esclarece.

" Tenho amigos a sair de Lisboa e Torres Novas é opção. Um T3 ótimo aqui custa 110 mil euros. Aqui há oferta de gastronomia ótima, há uma ótima qualidade de vida. E até chama à cidade a Las Vegas do Ribatejo, por causa da vida noturna.”

Nuno Valente

Startup Torres Novas

Por agora, os projetos em incubação física na Startup Torres Novas ainda se contam pelos dedos das duas mãos. Coisa diferente são as startups incubadas virtualmente, mais de 20 de momento. “A situação económica do país e a tipicidade do concelho — no último Censos subimos 0,01% em população — foram alguns dos fatores que nos levaram a apostar nesta área do empreendedorismo”, diz Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas.

 

Temos centralidade, nas piores crises do país, há uma questão que sobrevive sempre às crises, a logística. Torres Novas deixou de ser conhecida pela empresa tradicional do papel, fiação e tecidos, e transformou-se, diversificou-se. Com a localização geográfica, apetece-me dizer que é a melhor a nível nacional, é verdade.

Pedro Ferreira

Presidente da Câmara de Torres Novas

Autoestradas, investimento, talento. Tudo isso fez com que o autarca de Torres Novas pensasse em apostar numa dinâmica que “ensinasse a pescar” em vez de dar o peixe e a cana. “Porque não Torres Novas? Estava a custar-me ter aqui jovens criativos, um nível cultural invejável e a irem-se embora de Torres Novas por vários motivos. O tradicionalismo da indústria da região não lhes permitia darem criatividade ao que lhes apetecia fazer. Essas coisas acontecem quando os jovens se juntam, se encontram. O que precisam para o arranque? Recetividade e um sítio. Este”, detalha o autarca.

Na incubadora, os residentes não pagam internet nem eletricidade, contam com uma rede de mentores que inclui empresários de sucesso da região, especialistas fiscais e outras pessoas com perspetiva, fundamental, considera Pedro Ferreira. “Um bom empresário tem de ter visão de águia. E os que têm, mais tarde ou mais cedo, aparecem com um negócio, uma empresa. Começámos há pouco tempo, os desafios estão criados e tenho a certeza que vai correr bem. Podiam ser todos a apontar para uma área… mas não, vejo uma grande diversidade”, assinala.

Nuno Valente é coordenador da unidade de projeto – uma equipa de quatro pessoas – relacionada com a incubadora Startup Torres Novas.José Pedro Tomaz/ECO

Com um período máximo de permanência de 25 meses — três meses de pré-incubação, dez de incubação e até 12 de aceleração –, a Startup Torres Novas quer constituir-se como uma alternativa aos locais e aos de fora.

Temos muitas ideias e, quando começamos a pensar, isto não tem fim. Mas temos quatro meses, temos de nos focar e dar um passo de cada vez.

Nuno Valente

Startup Torres Novas

“O princípio não é fazer tudo por eles, acima de tudo o projeto tem de ter um cariz inovador, diferenciador. Isto não é um gabinete do empreendedor. Não é essa a ideia. Isto de as pessoas acharem que estamos aqui para fazer tudo por elas não existe. Claro que vamos estar a ver o que está a ser feito mas há que trabalhar. Nós só criamos as condições”, assinala Nuno Valente. E ainda que a área logística fosse a mais “esperada” nos primeiros tempos, a experiência de poucos meses já esclareceu os promotores. As próximas apostam serão diversificadas: tecidos, destilação e frutos secos, tudo negócios com tradição local, poderão ser também prioridades.

 

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