António Domingues vai ganhar muito ou pouco? Depende

São 423 mil euros por ano. São cerca de 30 mil por mês, mas depois de impostos o novo presidente executivo da CGD fica com menos de 13 mil euros.

António Domingues vai receber um salário bruto anual de 423 mil euros, correspondente a mais de 30 mil euros mensais. O anúncio, feito por Mário Centeno, tem suscitado muito debate, sobretudo no Parlamento, com várias vozes a insurgirem-se contra o valor que o antigo administrador do BPI vai obter à frente do banco público. Mas será mesmo um salário muito elevado?


A realidade dos impostos portugueses vai fazer com que, na prática, o gestor do maior banco português leve para casa menos de metade dos 423 mil euros. Após aplicada a taxa máxima de retenção de IRS, o salário líquido de António Domingues fixa-se em perto de 182 mil euros anuais, com o salário mensal a rondar menos de 13 mil euros líquidos, de acordo com cálculos do ECO. Isto excluindo eventuais prémios que o novo presidente da CGD possa vir a receber.

Se estiver a falar de um presidente executivo numa empresa com alguma dimensão, 25 a 30 mil euros por mês é um salário habitual. Abaixo disto é um mau salário, seja na banca ou fora da banca

Mira Amaral

Ex-CEO do BIC

13 mil euros é o equivalente a quase 25 salários mínimos nacionais. Nesta métrica, é um valor substancial, ainda que estejamos a falar de um cargo de liderança de uma instituição com enorme peso no financiamento da economia nacional. É um cargo público. E quanto ganha um funcionário público? 1.642,1 euros por mês, brutos. São cerca de 1.100 euros, líquidos. Ou seja, o novo líder da CGD vai ganhar 12 vezes mais.

Mas António Domingues é um presidente executivo. “Se estiver a falar de um presidente executivo numa empresa com alguma dimensão, 25 a 30 mil euros por mês é um salário habitual. Abaixo disto é um mau salário, seja na banca ou fora da banca”, diz o ex-ministro Luís Mira Amaral, que esteve à frente do banco BIC.

Na comparação com outros CEO, o líder do banco no qual o Estado deverá injetar 2,7 mil milhões de euros, nem ganha assim tanto. É mais baixo do que o recebido, por exemplo, pelos CEO do Santander Totta ou do BPI. No ano passado, o vice-presidente executivo do Totta, António Vieira Monteiro, recebeu um salário bruto fixo de 568 mil euros. Para além disso, o presidente do Totta recebeu um prémio em dinheiro de 225 mil euros, mais 209 mil euros cujo pagamento ficou retido. Já Fernando Ulrich arrecadou em 2015 um vencimento fixo de 462 mil euros e teve direito a um prémio de gestão da ordem dos 122 mil euros.

Se formos comparar com a remuneração dos gestores mais bem pagos das cotadas do PSI-20, a discrepância é muito mais elevada. O salário dos 10 CEO mais bem pagos das cotadas que integram o índice de referência da bolsa nacional aponta para um valor médio superior a 933 mil euros anuais. Ou seja, mais do dobro do salário que António Domingues vai receber à frente da CGD. António Mexia é o mais bem pago: 1,82 milhões de euros, mas a empresa que lidera tem lucros anuais na casa dos mil milhões de euros.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

António Domingues vai ganhar muito ou pouco? Depende

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião