O que é um bom salário em Portugal?

  • Margarida Peixoto e Cristina Oliveira da Silva
  • 10 Outubro 2016

Depende. Um ganho superior a 1.130 euros fica acima da média, mas isso não quer dizer tudo.

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Estávamos em 2007 e Paulo Macedo era diretor-geral dos Impostos. Em maio sai do cargo: o salário que recebia até então, em torno de 23 mil euros brutos, teria de ser substancialmente reduzido para cumprir o estatuto de pessoal dirigente da Função Pública. Estas regras limitavam o salário base ao vencimento do primeiro-ministro, cerca de 7.500 euros. Macedo ia receber pouco? Afinal, o que é um bom salário em Portugal?

Tudo depende e Paulo Macedo é só um exemplo, mas não é preciso ter um salário muito alto para ser considerado um bom vencimento em Portugal. Vamos a números: em média, um trabalhador do setor privado ganha 1.130 euros por mês, mostram os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho.

Este valor, mensal, é bruto e inclui subsídios, prémios, componentes variáveis. Os dados são de outubro de 2015, mas a diferença para o inverno de 2016 não deverá ser significativa — para o bem e para o mal, os salários variam relativamente devagar, em Portugal.

No universo dos funcionários públicos, o retrato das remunerações é mais simpático. Um trabalhador das Administrações Públicas ganha, em termos brutos e, uma vez mais, considerando todas as componentes do salário, 1.642,1 euros por mês. Aqui os dados são de abril de 2016 e compilados pela Direção-Geral da Administração e do Emprego Público.

Mas esta está longe de ser a única forma de olhar para a questão. Para perceber o que é um bom salário é preciso ter em conta a experiência, a escolaridade, a região, a dimensão da empresa, o setor de atividade, por exemplo, em que o trabalhador está inserido.

Para o secretário de Estado do Emprego, “a questão básica para pensar num bom salário passa pela dignidade das condições de vida que o trabalho proporciona“. Mas além do “nível salarial estritamente considerado, não podem ser retirados da equação aspetos como a adequação às competências do trabalhador e às exigências das funções desempenhadas, o cumprimento das regras laborais nas suas diferentes dimensões e, não menos importante, perspetivas de estabilidade aceitáveis que permitam projetos de vida mais sólidos e concretizar aspirações de trajeto pessoal e de desenvolvimento familiar”, afirma Miguel Cabrita, em declarações ao ECO.

“Abaixo de 25 mil euros, para um diretor é um mau salário”

“Se estiver a falar de um presidente executivo numa empresa com alguma dimensão, 25 a 30 mil euros por mês é um salário habitual. Abaixo disto é um mau salário, seja na banca ou fora da banca”, diz o ex-ministro Luís Mira Amaral, que esteve à frente do banco BIC.

De acordo com o guia do mercado laboral de 2016 da Hays Portugal, um diretor de sucursal da banca de retalho, com mais de dez anos de experiência, tem um salário bruto anual médio, sem contar com componentes variáveis, de 48 mil euros, em Lisboa.

Mas se a função for outra, a referência do que é um bom salário muda: “Se estiver a falar de diretores, é razoável dez a 15 mil euros por mês”, concretiza Mira Amaral.

"Se estiver a falar de um presidente executivo numa empresa com alguma dimensão, 25 a 30 mil euros por mês é um salário habitual. Abaixo disto é um mau salário, seja na banca ou fora da banca.”

Luís Mira Amaral

Ex-ministro e ex-presidente do BIC

A escala segue por aí abaixo. “Jovens altamente qualificados, das áreas de engenharia, economia ou gestão, estão a entrar para as empresas com salários entre os mil e os 1.200 euros e isto é um salário muito baixo”, defende o engenheiro.

“Fico chocado quando vejo todos preocupados com o salário mínimo de 530 euros para trabalhadores indiferenciados, mas ninguém se preocupa com estes trabalhadores altamente qualificados. Depois admiram-se que vão para o estrangeiro”, remata.

E os 530 euros são um bom salário? “Socialmente é muito chato. Mas o drama é que para a produtividade que estes trabalhadores têm, a economia portuguesa não pode pagar muito mais”, defende.

O Governo está a negociar o aumento do salário mínimo com os parceiros sociais e já se mostrou disponível para firmar um acordo mais abrangente para conseguir o apoio das confederações patronais e sindicais. O Programa do Governo aponta para uma subida para 557 euros em 2017 e prevê atingir 600 euros em 2019.

Um dos grandes objetivos do aumento do salário mínimo, explica o secretário de Estado do Emprego, “passa por garantir dignidade aos trabalhadores que estão nos segmentos mais baixos da escala salarial e combater as desigualdades e a pobreza entre trabalhadores”. “É preciso não esquecer que Portugal tem diferenças salariais superiores à média europeia e que mais de um em cada dez trabalhadores em Portugal está em risco de pobreza“, sublinha Miguel Cabrita.

Quer ganhar bem? Vá para Lisboa

Para encontrar um bom salário, também conta a geografia. Em regra, é em Lisboa que estão as remunerações mais altas. “Mil euros em Lisboa está abaixo do referencial”, adianta João Cerejeira, economista e professor na Universidade do Minho.

Para encontrar um bom salário “tem de ir para Lisboa, ter boas qualificações e procurar uma grande empresa para trabalhar. Pode também procurar integrar-se num dos setores que pagam melhor: a banca, os transportes e a eletricidade, gás, água”, sugere ainda Cerejeira.

Fonte: Quadros de pessoal 2014 (Dados reportam ao Continente e ao ganho médio mensal bruto)
Fonte: Quadros de pessoal 2014 (Dados reportam ao Continente e ao ganho médio mensal bruto)
Fonte: Quadros de pessoal 2014 (Dados reportam ao Continente e ao ganho médio mensal bruto) *Rep. do poder legislativo, dirigentes superiores da Adm. Pública, diretores e gestores de empresas
Fonte: Quadros de pessoal 2014 (Dados reportam ao Continente e ao ganho médio mensal bruto) *Rep. do poder legislativo, dirigentes superiores da Adm. Pública, diretores e gestores de empresas

Mas como em qualquer regra, há sempre exceções. No estudo da Hays, que se foca apenas no mercado de trabalho qualificado, há exemplos de funções que são mais bem pagas no Porto do que em Lisboa.

Um diretor-geral da Indústria, com mais de dez anos de experiência, ganha, em média e em termos brutos, 112 mil euros por ano no Porto, mas 100 mil em Lisboa.

Para ter uma ideia sobre se o seu salário fica acima ou abaixo da média, a Fundação Francisco Manuel dos Santos construiu um simulador, no âmbito da iniciativa Portugal Desigual. Contudo, a ferramenta utiliza dados de 2014.

Estar longe do chefe não é mau

Portugal é um país de pequenas e médias empresas (PME), mas são sobretudo as grandes que pagam bem. João Cerejeira explica que trabalhadores com características iguais podem ter salários diferentes, só por estarem em empresas distintas.

Como é que isto se explica? Temos de falar no ‘salário de eficiência’. “As empresas pagam geralmente um bocadinho acima da produtividade do seu trabalhador”, diz o professor. “Isto justifica-se pelo afastamento entre quem decide o salário e quem executa a tarefa. O empresário não tem um conhecimento perfeito das capacidades do seu trabalhador”, continua.

É por isso que “quanto maior for a distância entre o empregador e o trabalhador, maior é o salário de eficiência”, concretiza.

Pela mesma ordem de ideias, “as grandes empresas pagam mais do que as pequenas porque há uma distância maior entre quem executa a tarefa e quem a monitoriza”, explica ainda João Cerejeira.

"Quanto maior for a distância entre o empregador e o trabalhador, maior é o salário de eficiência.”

João Cerejeira

Professor na Universidade do Minho

Estas empresas são também, tendencialmente, as que têm maior poder de mercado, conseguindo obter rendas superiores e, com isso, sustentar salários mais elevados.

A teoria é confirmada pela prática: segundo os quadros de pessoal da Segurança Social, as empresas com mais de 500 funcionários pagavam em média 1.424,70 euros, em 2014. Já a média para o conjunto das empresas de Portugal continental era de 1.093,21 euros de ganho. A mesma base de dados mostra que as atividades de eletricidade, gás, vapor, água quente e fria e ar frio eram as mais bem remuneradas, com quase 2.900 euros de ganho médio mensal.

Além do ‘salário de eficiência’, também os custos de contratação explicam por que motivo dois trabalhadores com características idênticas podem ter salários diferentes só porque trabalham em empresas distintas. Há custos de mobilidade entre as empresas que podem justificar que um empregador prefira manter o seu empregado por um valor mais alto do que o que teria de pagar se fosse buscar outro profissional ao mercado.

"Infelizmente, em Portugal os salários médios são baixos e os salários baixos são muitos.”

Pedro Mota Soares

Deputado, ex-ministro do Emprego

O inverso também se aplica: o trabalhador tem custos de mudança de emprego (por exemplo, perder a companhia de colegas de quem gosta) que podem não justificar a passagem para outra empresa, mesmo que essa lhe ofereça um salário ligeiramente superior.

Independentemente da teoria, na prática os salários são curtos, admite o ex-ministro do Emprego do Governo de Passos Coelho, Mota Soares. “Infelizmente, em Portugal os salários médios são baixos e os salários baixos são muitos”, frisa. O estudo da FFMS mostra o que é possível comprar com um salário mínimo.

O atual deputado defende ainda que o desenvolvimento económico não pode ser feito à custa de vencimentos reduzidos, mas argumenta que a evolução salarial deve estar ligada à produtividade. Esta é uma “lei de ferro” — corrobora o economista Daniel Bessa — que não pode ser quebrada, sob pena de acabar “com o que resta do tecido empresarial português” e gerar “mais desemprego”.

 

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