Entre explosões e erros de matemática: cinco dos acidentes mais caros da era espacial

  • Marta Santos Silva
  • 21 Outubro 2016

Pôr sondas em Marte não é tarefa fácil, nem barata. A sonda Schiaparelli está perdida, mas é um pequeno acidente comparado com alguns dos grandes falhanços desde o princípio da exploração espacial.

A sonda Schiaparelli está avariada em Marte sem esperança de voltar a funcionar, assumiu a Agência Espacial Europeia (ESA) no final da tarde desta quinta-feira. No entanto, a Schiaparelli era só uma pequena parte do programa espacial ExoMars, uma iniciativa da ESA para explorar possível vida no planeta vizinho, cujo custo total ascende a 1,3 mil milhões de euros.

A perda da Schiaparelli poderá mesmo acabar por ser benéfica para o programa ExoMars, sublinha a agência espacial, visto que ajudará a recolher informações críticas para perceber como se pode aterrar em segurança no planeta vermelho. Em 2020, a ESA pretende lançar uma nova sonda, essa sim carregada de tecnologia avançada e com grandes esperanças depositadas nela, e o falhanço da Schiaparelli vai ajudar a prevenir que a segunda sonda se despenhe.

A história da exploração espacial está inevitavelmente cheia de falhanços, alguns dos quais acabaram por ter solução, e outros que acabaram na destruição total dos aparelhos.

Um pequeno erro deixou o telescópio Hubble míope

“Saquem da cicuta, rapazes.” Foi assim que o engenheiro chefe do Telescópio Hubble, Jean Olivier, reagiu à notícia de que a experiência científica espacial mais cara de sempre — 1,5 mil milhões de dólares a preços de 1990 — tinha um erro que não era possível resolver a partir da Terra.

O telescópio Hubble estava em órbita há um mês quando lhe foi diagnosticada uma “aberração esférica”: o enorme espelho que o telescópio usa para ver e fotografar o espaço mais distante tinha sido polido até ficar ligeiramente chato de mais. As imagens que chegavam à agência espacial dos Estados Unidos, a NASA, não tinham nada a ver com aquelas que, agora, associamos ao telescópio, porque a má calibração do espelho desfocava a luz.

A galáxia espiral M100 fotografada antes (esquerda) e depois de o erro no espelho do Hubble ter sido compensado.
A galáxia espiral M100 fotografada antes (esquerda) e depois de o erro no espelho do Hubble ter sido compensado.NASA

Mas o erro era contornável. Em 1993, o vaivém espacial Endeavor levou a primeira missão de reparação ao telescópio que se encontrava em órbita. A correção foi “uma obra-prima da engenharia ótica”, lê-se no site oficial do telescópio, com a criação de uma nova câmara fotográfica para substituir a primeira, cuja construção lhe permitia compensar com precisão o erro no polimento do espelho.

“Quando a primeira imagem chegou, era extraordinária”, disse ao The Guardian o cientista David Lecrkone, que trabalhou no Hubble entre 1976 e 2009. “Foi uma reviravolta maravilhosa”.

Satélite sul-coreano era demasiado pesado para descolar

Em 2009, a agência espacial da Coreia do Sul estava a tentar lançar o seu primeiro satélite para a órbita terrestre: o Naro-1. No entanto, seriam precisas três tentativas para levar o satélite para o espaço, e com isso perder-se-iam 353 milhões de euros nos valores da época.

O primeiro Naro-1 foi lançado no dia 25 de agosto de 2009 e mal chegou a levantar-se do chão — o peso do aparelho de propulsão impediu-o de se separar da estrutura de lançamento, visto que não conseguia gerar força suficiente para descolar. Também o segundo Naro-1, lançado quase um ano depois, seria um falhanço: embora tenha conseguido descolar, pouco mais de dois minutos depois já tinha perdido o contacto com a Terra. Não se sabe ao certo o que terá causado o acidente, mas os peritos acreditam que o foguetão explodiu no ar.

A Coreia do Sul só conseguiria lançar o Naro-1 para órbita em janeiro de 2013, quando finalmente o lançamento foi bem-sucedido.

Erro de conversão destrói sonda de 125 milhões

A missão da NASA para levar o primeiro satélite de observação climática para Marte tinha tudo para correr bem, exceto um pormenor: um grupo de engenheiros esqueceu-se de converter a unidade na qual fazia os cálculos — medindo a força em libras — para aquela que estava a ser usada pelo resto dos sistemas da missão: o newton.

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Montagem da sonda Mars Climate Orbiter. NASA/JPLNASA

O Mars Climate Orbiter da NASA custou 125 milhões de dólares em 1999. No dia 23 de setembro, quando a sonda estava a entrar na órbita de Marte, deixou de comunicar com a Terra. “Tornou-se bastante claro numa questão de meia hora que a nave tinha atingido o topo da atmosfera e pegado fogo”, contou à Wired o engenheiro da NASA Richard Cook. Isto porque o software dos propulsores calculava a força debitada em libras, e outro software interpretava esses dados como se estivessem em newtons.

“Esta história das unidades já se tornou uma lenda, o exemplo em todos os manuais escolares. Toda a gente ficou espantada que não nos tivéssemos apercebido disso”, acrescentou Cook.

Estação espacial soviética nem durou duas semanas

Em 1973, a União Soviética lançou a Salyut 2: ia ser a primeira estação espacial com fins militares mas nunca chegou a ser visitada por nenhuma tripulação. Apenas três dias após ter sido lançada, uma parte da estação explodiu, o que levou à sua despressurização, ou seja, o seu interior ficou exposto ao vácuo do espaço.

O sistema de controlo da estação espacial deixou de funcionar e perdeu os painéis solares que lhe permitiam gerar energia. Em duas semanas estava completamente inutilizável, e após dois meses acabou por perder a órbita e cair para a Terra.

É difícil saber ao certo quanto custou o projeto, devido ao secretismo à volta das operações espaciais durante a Guerra Fria, mas o Business Insider estima que andasse à volta de 500 milhões de dólares em valores da época.

Os desastres do Challenger e do Columbia foram os mais dispendiosos de sempre

Em 1986, o vaivém espacial Challenger, da NASA, explodiu apenas 73 segundos depois de ter descolado. Os sete tripulantes que seguiam no vaivém morreram. A causa do acidente acabou por se descobrir: uma peça que selava um dos propulsores do vaivém tinha falhado por estar a ser usada em condições demasiado frias.

Só em 2003 haveria um acidente aeroespacial tão marcante como o do Challenger, com a destruição do Columbia, um vaivém que trazia de volta para a Terra sete tripulantes que tinham passado uma temporada na Estação Espacial Internacional. O acidente foi provocado por um pequeno incidente na descolagem, quando um pedaço de espuma tinha atingido a asa do vaivém, deixando-a um pouco danificada. Esse problema pequeno foi amplificado na reentrada na atmosfera, na viagem de regresso, quando o vaivém se despedaçou.

Entre o Challenger, que custou 5,5 mil milhões de dólares a construir em 1986, e o Columbia, que valia 13 mil milhões em 2003, estes são certamente os desastres mais caros, além de terem provocado grandes perdas humanas e de terem marcado as gerações que os viram — nalguns casos, em direto. A explosão do Challenger, por exemplo, terá sido vista em direto na televisão por 17% dos norte-americanos.

Editado por Mónica Silvares.

Notícia atualizada às 18.30 de 21 de outubro com a confirmação de que a sonda Schiaparelli deixou de funcionar quando aterrou em Marte.

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