E em Portugal? Há espaço para um negócio ao estilo da AT&T?

  • Rita Atalaia
  • 25 Outubro 2016

Clientes não querem apenas ver televisão, querem conteúdo de qualidade. A consolidação entre telecoms e media pode ser o futuro. Ou talvez não.

Os negócios na área dos conteúdos estão a ganhar cada vez mais peso no cenário internacional. Mais recentemente, a AT&T aceitou comprar a Time Warner numa operação de consolidação de vários milhares de milhões de dólares. E em Portugal? Será que há margem para fusões? Sim e não. Os analistas dividem-se quando se trata deste tema.

Por um lado, uns acreditam que uma fusão deverá acontecer num futuro muito próximo. Até porque os clientes das telecoms não querem apenas ver televisão, querem conteúdos. Outros dizem que as condições do mercado não são atraentes.

“A entrada dos operadores de telecom no segmento dos media é algo que faz sentido, nomeadamente atendendo ao desenvolvimento do streaming e do aumento das velocidades de download, tendo inclusive implicações significativas no segmento de publicidade/marketing”, diz um analista que preferiu não ser identificado. “Os clientes não querem apenas ver televisão ou ter internet. Querem ter as melhores séries e os melhores filmes”, explica. Por isso, acredita “fortemente” que a fusão entre telecoms e empresas dos media pode acontecer nos próximos anos.

E isto não é de agora. Há exemplos: a Portugal Telecom tentou comprar 30% da Media Capital, em 2009. Na altura, o então Governo de José Sócrates opôs-se ao negócio, alegando que o negócio poderia criar dúvidas em torno da linha editorial da TVI. Já no início deste ano, a Altice, que comprou a PT Portugal, assumiu publicamente que está interessada em comprar media em Portugal. Armando Pereira, o acionista português da Altice, não escondeu o interesse do grupo em comprar projetos de media, ou mesmo comprar ou fazer um novo canal de televisão.

Há uma entrada das telecoms no mundo dos media (…) os clientes não querem apenas ver televisão ou ter internet. Querem ter as melhores séries e os melhores filmes.

Analista do setor

“Cada vez mais temos operações globais como o Netflix”, nota o mesmo analista. O Netflix mudou a forma como as pessoas acedem ao conteúdo: produz várias séries próprias e disponibiliza filmes e documentários através do streaming, o que significa que os clientes têm ao seu dispor uma longa lista de conteúdos que podem ver em qualquer dia da semana e a qualquer hora. A empresa norte-americana angariou mais 3,6 milhões de subscritores no terceiro trimestre fiscal, principalmente devido às séries Stranger Things e Narcos.

As próprias empresas de telecomunicações têm os seus próprios canais de televisão ou de rádio, acrescenta um especialista. É o caso da Vodafone, com o canal de rádio Vodafone FM, ou da MEO, com o MEO Sudoeste.

Em Portugal, Nuno Mello, gestor da corretora XTB, defende que é mais provável que haja uma fusão de uma telecom com um grupo de media internacional do que nacional. “Apesar de haver alguns grupos de comunicação social importantes em Portugal como a Media Capital, Cofina e Impresa, a sua dimensão não se compara com os grandes conglomerados de media que há lá fora e portanto veria como mais provável e capaz de criar mais sinergias a fusão de uma telecom portuguesa com um grande grupo de media internacional do que com o português”, explica o gestor.

Fusões? Não em Portugal

Nem todos os analistas são da opinião de que a fusão entre uma telecom e uma empresa de media está para breve. Muito pelo contrário, há quem defenda que as condições de mercado não são as melhores. “Atualmente, as condições de mercado não se revelam atraentes para uma possível fusão entre operadoras e empresas de media em Portugal, devido aos valores que estas operações originariam, e que se revelam elevados no enquadramento ainda relativamente anémico no segmento de publicidade (no caso dos media) e dos elevados investimentos em conteúdo futebolístico (no caso das operadoras), que constringem investimentos expressivos por qualquer um dos segmentos”, explica a equipa de research do BiG.

Os analistas acrescentam que a aposta das telecoms na área dos conteúdos “resume-se à compra dos direitos televisivos dos principais clubes nacionais e à compra e distribuição de canais via as suas plataformas. Devido ao valor elevado das operações supracitadas, projetamos que o investimento em conteúdo por parte das operadoras deverá continuar a centrar-se na oferta de canais e conteúdos estrangeiros nas suas plataformas e não na geração de conteúdo original”.

"Atualmente, as condições de mercado não se revelam atraentes para uma possível fusão entre operadoras e empresas de media em Portugal, devido aos valores que estas operações originariam, e que se revelam elevados no enquadramento ainda relativamente anémico no segmento de publicidade (no caso dos media) e dos elevados investimentos em conteúdo futebolístico (no caso das operadoras), que constringem investimentos expressivos por qualquer um dos segmentos”

equipa de research do BiG

Os três principais clubes de futebol assinaram acordos milionários com a NOS e a Altice. “Há uns anos isto seria impensável”, salienta o analista que preferiu não ser identificado. No ano passado, a PT Portugal fez um acordo com o Porto, que inclui direitos televisivos por 457,5 milhões de euros e vai durar 10 anos. Já a NOS assinou um contrato com o Benfica pela transmissão em exclusivo da BTV por um período que pode atingir uma década. O acordo também foi expressivo: 400 milhões.

Rui Bárbara, Gestor de Ativos do Banco Carregosa, também é da opinião de que é mais difícil prever fusões semelhantes à da AT&T/Time Warner em Portugal porque “não há assim tantas empresas”. “Se falarmos só de empresas que estão na bolsa, temos uma empresa de telecomunicações e duas de media, sendo que uma delas é familiar. A convergência entre empresas de media e de telecomunicações, se faz algum sentido em matéria de conteúdos — porque um produz e o outro distribui — em termos acionistas, em Portugal, no atual momento, parece menos óbvia”, explica o gestor. Acrescenta que “em Portugal, como noutros países, os conteúdos mais apetecidos são os desportivos”.

E se a Altice se juntasse à TVI? Ou à SIC?

A equipa de research do BiG diz que seria um “evento inédito no mercado”. Por isso, o impacto é difícil de prever. “Contudo, uma combinação ou até apenas uma parceria com a TVI ou SIC poderia levar a PT à criação e distribuição de conteúdo original”, nota a equipa do banco.

Já Rui Bárbara, do Banco Carregosa, coloca várias questões: “Alguém iria mudar do pacote da MEO para o pacote da ZON por causa disso? A empresa que detivesse a TVI iria negar a SIC ao concorrente? E a Autoridade da Concorrência iria permitir essa concentração? O gestor pensa que “tanto o mercado de telecomunicações, como o de media (sobretudo o segmento de televisão) parecem já estar bastante concentrados em Portugal”.

A oferta também deverá aumentar no caso de uma fusão. “Caso a PT se fundisse com a Media Capital (TVI) ou com a Impresa (SIC) iríamos ter certamente muito mais canais temáticos oferecidos exclusivamente por cabo, como aliás já acontece no dia de hoje com por exemplo a TVI24 e a SIC Notícias e uma maior oferta de conteúdos para os clientes por cabo”, diz Nuno Mello, da corretora XTB.

“Tanto o mercado de telecomunicações, como o de Media (sobretudo o segmento de televisão) parecem já estar bastante concentrados em Portugal”

Rui Bárbara

Gestor de Ativos do Banco Carregosa

No caso da AT&T, o que pode estar a levar a empresa a apostar nos conteúdos é a publicidade. “Se a AT&T controlasse a tecnologia e os conteúdos dos media para colocar anúncios”, isso ajudaria a empresa a chegar a mais pessoas, “independentemente de onde estão, nos telemóveis, televisão ou a navegar na internet”, disse Greg Portell, parceiro na A.T. Kearney à CNBC. Em Portugal, esse fator também poderá ser tido em conta num possível cenário de fusão.

Comprar uma empresa de media seria essencialmente uma aposta na publicidade. Com a quantidade de dados que têm dos seus clientes e os hábitos de consumo — incluindo onde estão, o que gostam de ver e o que gostam de comprar — as telecoms são uma possível mina de ouro para os publicitários. No entanto, para se tornarem nestes gigantes da publicidade, precisam de ganhar escala, apostar na tecnologia e no conteúdo. É aqui que entram os media.

E a AT&T não está sozinha nesta aposta. A rival Verizon, assim como a Comcast, também avançaram com fusões semelhantes nos últimos anos. “O setor [das telecomunicações] está a evoluir para empresas de media de maneira a se manter competitivo”, explica Eric Franchi, cofundador da empresa de publicidade digital Undertone, à CNBC.

 

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