Trump ameaça Yellen. E outros bancos centrais?

Trump não gosta de Yellen. Mas mais do que isso, a vitória do republicano pode colocar em causa a política monetária da Fed. E também poderá obrigar a novas medidas do BoJ e do BCE.

A vitória de Trump nas eleições presidenciais levanta muitas dúvidas sobre o impacto que poderá ter na economia norte-americana, mas também na mundial. E nos mercados financeiros. Mas coloca sobretudo muitas reticências sobre o rumo da política monetária dos principais bancos centrais daqui em diante. O mercado parece acreditar cada vez menos numa subida dos juros nos EUA. O Banco do Japão já reuniu de emergência, já o BCE diz que está pronto para agir, caso seja necessário.

Uma das principais dúvidas que surge neste momento é se a Fed vai ou não avançar subir os juros em dezembro. Depois de há poucos dias, a entidade liderada por Janet Yellen ter sinalizado como quase certo um movimento de subida dos juros no próximo mês, o mercado parece estar a acreditar menos nessa possibilidade. Segundo a Bloomberg, as apostas nessa subida de juros recuaram para 47% nas últimas horas, com o mercado a antecipar que o aumento da volatilidade ponha um travão na decisão da Fed. Antes do resultado, a probabilidade era de 82%.

"Caso Trump vença, e — dada a incerteza que isso traz — se os mercados estiverem voláteis no início de dezembro e a incerteza relativamente àquilo que a administração de Trump aparenta ser, a Fed pode não avançar.”

George Gonçalves

Analista do Nomura

“Caso Trump vença, e — dada a incerteza que isso traz — se os mercados estiverem voláteis no início de dezembro e a incerteza relativamente àquilo que a administração de Trump aparenta ser, a Fed pode não avançar”, afirma George Gonçalves, responsável do Nomura, em Nova Iorque, pouco antes de o candidato republicano se sagrar vitorioso.

Uma posição já defendida por Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics durante a campanha, o magnata prometeu desmantelar ou renegociar os acordos de comércio internacional, o que poderia desencadear uma onda de protecionismo, e colocar em causa a recuperação económica global. Além disso, os seus planos preveem uma forte redução de impostos. E isso poderá aumentar drasticamente o défice orçamental dos EUA. Donald Trump “aumenta a probabilidade de a Fed não avançar com uma subida em dezembro”, defendeu.

Trump ameaça escalada nos preços

Caso de as propostas de Trump relativamente ao comércio, aos impostos e à imigração serem todas implementadas, a equipa liderada por Zandi, antecipa um cenário muito pouco favorável. Alerta que tais decisões poderão conduzir a uma pressão inflacionista. A acontecer, aí a Fed terá de atuar, avançando com aumentos agressivos da taxa de juro. E, nesse contexto, atirar os EUA para uma recessão económica.

Já a meados de outubro, o presidente da Fed de Filadélfia, Patrick Harker, tinha referido que a Fed teria que monitorizar as mudanças nas políticas que poderiam resultar das eleições desta terça-feira, após o escrutínio. Isto porque com a taxa de desemprego abaixo da fasquia dos 5%, um grande impulso pela via fiscal, iria alimentar a inflação.

A vitória de Trump é uma ameaça aos juros, mas também à permanência de Janet Yellen na liderança da Fed. Enquanto candidato, o republicano foi muito crítico em relação à ação de Yellen nos comandos da entidade responsável pela política monetária dos EUA. Acusou a Fed de manter as taxas de juro baixas para ajudar o presidente democrata, Barack Obama, e indicou que poderia substituir Yellen no fim do mandato, em janeiro de 2018, levando diversos analistas a especular sobre a possibilidade de a presidente da Fed se demitir antes desse prazo.

Fed? O BCE está em alerta

Do lado de cá do Atlântico, os responsáveis do Banco Central Europeu reagem com cautela à eleição de Donald Trump, naquilo que parece sugerir que a atual postura acomodatícia da política monetária se deverá manter apesar da turbulência que inundou os mercados europeus no arranque do dia de hoje.

Peter Praet, membro executivo do BCE, procurou acalmar os investidores, referindo que a entidade responsável pela política monetária da Zona Euro está a “monitorizar de forma próxima a situação, como é habitual, e normalmente aquilo para que olhamos é para a volatilidade dos primeiros dias”. À margem de uma conferência em Bruxelas, procurou transmitir tranquilidade: “temos que estar calmo – mais calmos que os mercados, certamente”, disse.

Outros responsáveis do BCE, assumiram uma postura próxima de Peter Praet. É o caso de Ewald Nowotny, responsável pelo banco central da Áustria, que disse que agora era hora de estar “atento”. Mas acrescentou: “estamos preparados para intervir se necessário em caso de emergência”, afirmando que uma eventual ações irá depender da própria reação da Reserva Federal dos EUA na próxima reunião de política monetária em dezembro. “Estava a ser visto como muito provável que viessem a aumentar as taxas. Se tal continua a ser provável, ninguém sabe dizer. Isto tem efeitos sobre as taxas na Europa”, acrescentou Nowotny.

O BCE está monitorizar de forma próxima a situação, como é habitual, e normalmente aquilo para que olhamos é para a volatilidade dos primeiros dias

Peter Praet

Membro do conselho de governadores do BCE

 

Independentemente de implicações futuras sobre as taxas, as perspetivas apontam para um aumento das compras de dívida por parte do Banco Central Europeu, ao abrigo do programa com a que a autoridade monetária da Zona Euro pretende injetar mensalmente 80 mil milhões de euros no eurosistema, pelo menos até março de 2017. O RBS diz que o resultado das eleições nos EUA aumenta a “perspetiva de um aumento das compras de dívida por parte do Banco Central Europeu”.

Praet sinalizou hoje em Bruxelas de que os estímulos provavelmente irão continuar. “Para assegurar um retorno da taxa de juro para níveis inferiores, mas próximos de 2% no médio prazo, irá continuar a ser necessário preservar um montante muito substancial de suporte monetário”, disse, acrescentando que em dezembro “será avaliado todo o cenário”. .

Japão reúne de urgência

O Japão foi um dos mercados que mais reagiu a quente à vitória de Trump nas presidenciais, com a bolsa de Tóquio a tombar 5%, a mais expressiva desde a vitória do Brexit, em junho. Os investidores temem que este resultado eleitoral atrase o movimento de subida dos juros na maior economia do mundo e receiam também a volatilidade que poderá gerar no mercado cambial, tal como afirmou o ministro das finanças japonês em entrevista à Bloomberg na passada segunda-feira. “Trump tornou claro que prefere uma política de dólar fraco” comentou o economista-chefe do Mizuho Bank, em Tóquio.

Certo é que no seguimento da vitória de Trump e da derrocada da bolsa de Tóquio, o ministro das Finanças japonês reuniu-se esta quarta-feira de emergência com o Banco do Japão (BoJ). A política monetária japonesa está a ser altamente expansionista, com juros zero e um programa de compras de ativos alargado. A dúvida é se ainda poderão fazer mais para puxar pela economia.

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