Presunto pata negra diretamente do Texas. E por mil dólares

  • Ana Luísa Alves
  • 16 Dezembro 2016

Dois empreendedores espanhóis levaram a tradição do presunto de pata negra além-fronteiras e começou uma empresa nos EUA. Poderão os americanos vir a substituir o peru na Ação de Graças?

Em 2013, um empresário de Barcelona, Sergio Marsal, e outro de Sevilha, o expert em presunto Manuel Murga, ambos de 50 anos, reuniram com outros empresários espanhóis três milhões de dólares para começar um negócio. “Um ano mais tarde fomos para os Estados Unidos da América, num voo que levava 145 fêmeas de porco ibérico”, disse Marsal ao El País.

A empresa de Marsal, a Acornseekers, tem uma quinta no Texas e dois acordos de criação com agricultores americanos, um no Texas e outro na Florida.

As quintas escolhidas seguem a estrada Interestatal l-10, que atravessa o sul dos Estados Unidos de leste a oeste, de Jacksonville (Flórida) a Los Angeles. É a geografia dos carvalhos e azinheiras, as árvores que dão bolota, alimento imprescindível para o porco ibérico. “O Manolo, que é o técnico, acredita que os azinhais já estavam aqui antes de chegarem os espanhóis, mas a mim parece-me mais bonita a hipótese de que os trouxemos”, acrescenta Marsal.

A qualidade da bolota, disse, é adequada. “A percentagem de ácido oleico é perfeita”. A importância do presunto de bolota nos EUA tem uma história complicada. A Embutidos Fermín foi a primeira empresa a conseguir exportar presunto ibérico, emm 2007. Murga e Marsal foram os primeiros a trazer os porcos vivos. Mas o mais complicado foi vencer as resistências da burocracia espanhola. “Dá medo aos nossos funcionários selar a sua empresa para algo novo”, disse Marsal.

Marsal também lamenta que ” o setor ibérico em Espanha tenha sofrido pressão para que não deixem mais porcos ir para os EUA. Parece que alguns pensam que estamos a roubar um tesouro espanhol, quando a nossa filosofia é exatamente o contrário: exportar o melhor da nossa gastronomia, como fizeram os franceses com o vinho na Califórnia”.

Ao El País, Marsal recorda ainda uma viagem a Miami, em 1979, em que os seus pais estavam desesperados por encontrar um restaurante com carta de vinhos. “Menos de quarenta anos depois, os EUA são o primeiro consumidor de vinho espanhol no estrangeiro”, acrescenta.

A empresa de Marsal e dos sócios está agora a captar dois milhões de dólares, necessários para construir uma espécie de armazém. A ideia dos empresários é começar a vender os primeiros presuntos de pata negra em 2018 por mil dólares cada, o triplo do que custam em Espanha.

Ainda assim, a equipa reparou que o negócio do presunto curado é uma aposta a médio prazo, porque educar o gosto norte-americano levará algum tempo. “Oxalá algum dia eles se esqueçam de comer peru no dia de Ação de Graças e ponham antes uma pata de porco ibérico o forno”, imagina Marsal.

Editado por Mariana de Araújo Barbosa (mariana.barbosa@eco.pt)

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