Incenso, mirra… e esqueça o ouro

A segunda metade do ano foi marcada por uma acentuada desvalorização do ouro. E as expectativas não são muito animadores relativamente ao rumo da cotações do metal amarelo nos próximos tempos.

Há precisamente 2016 anos os três Reis Magos — Melchior, Gaspar e Baltazar — preparavam-se para partir e seguir a Estrela de Belém rumo ao encontro do menino Jesus. Na bagagem levavam ouro, incenso e mirra para presentear o recém-nascido. Oferendas consideradas muito valiosas e simbólicas. Enquanto o incenso e a mirra representavam a essência divina e a essência humana, respetivamente, o ouro era o presente habitualmente entregue aos reis.

Se a data da partida dos Reis Magos fosse hoje, seria aconselhável apressarem o passo. A recomendação destina-se sobretudo a Melchior, o rei a quem coube entregar o ouro ao menino Jesus. O objetivo: impedir que a preciosa prenda que transportava perdesse valor. Isto porque, desde o máximo registado na primeira semana de julho deste ano, a cotação do ouro já desvalorizou em torno de 17%. O preço do metal precioso caiu neste período mais de 200 dólares, passando dos 1.366 dólares/onça para o atuais 1.129 dólares. E as perspetivas não são muito animadoras em relação ao rumo futuro do “metal amarelo”.

Ouro em queda

Fonte: Bloomberg (Valores em dólares)
Fonte: Bloomberg (Valores em dólares/onça)

O máximo do ano para a cotação do ouro aconteceu em julho, após o aval dos britânicos à saída do Reino Unido da União Europeia no referendo que decorreu a 23 de junho. Temendo o impacto da decisão, os investidores procuraram refúgio no “metal amarelo”, levando o preço da matéria-prima a escalar até máximos de mais de dois anos. À medida que os investidores foram incorporando a decisão e o previsível período prolongado de tempo até à sua efetivação, foram também abandonando a aposta neste ativo refúgio. Em consequência, a cotação do ouro também foi aliviando.

O último pico das cotações acabou por acontecer nos dias anteriores à eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, em novembro, com os investidores a procurarem refúgio no ativo já a antecipar a vitória do candidato republicano. Mas rapidamente as expectativas dos investidores mudaram e recuaram na sua aposta em relação ao “metal amarelo”, uma tendência que se mantém.

A promessa de Trump de colocar a economia norte-americana em rápida aceleração veio colocar as perspetivas para a inflação acima do objetivo da Fed. E a Reserva Federal respondeu à altura. A entidade responsável pela política monetária dos EUA avançou com a primeira subida de juros em um ano, e colocou em cima da mesa novos aumentos do preço do dinheiro já no próximo ano. Se, numa primeira reação, os investidores prefeririam a manutenção dos estímulos, agora a convicção é de que a atividade económica está suficientemente robusta.

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Consequências? O dólar ganha valor face às principais divisas mundiais e há maior apetite do mercado por ativos mais arriscados em detrimento dos ativos seguros. Quem perde? O ouro, uma matéria-prima cotada em dólares e que os investidores gostam de ter em carteira em momentos de maior incerteza. “A força do dólar colocou muitas matérias-primas sobre pressão, em especial o ouro”, disse Frank Cholly, estratego da RJO Futures, à Bloomberg.

"Ainda existem riscos de desvalorização para os preços do ouro devido às expectativas relativamente a um crescimento modesto nos EUA, um dólar forte e a continuação da pressão vendedora no mercado de obrigações.”

Jason Schenker

Prestige Economics LLC

É com base neste cenário que os analistas alertam que outlook para o ouro se mantém sombrio, com a matéria-prima a prometer perder brilho durante algum tempo. “Ainda existem riscos de desvalorização para os preços do ouro devido às expectativas relativamente a um crescimento modesto nos EUA, um dólar forte e a continuação da pressão vendedora no mercado de obrigações”, afirmou Jason Schenker, daPrestige Economics LLC, à bloomberg.

Atualmente, a cotação do ouro está em mínimos de 10 meses, e apesar das fortes quebras desde julho consegue manter um balanço acumulado no ano positivo. O metal precioso valoriza 3% em 2016, isto depois de três anos consecutivos de queda.

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