Primeira conferência de imprensa: Trump passa negócio para os filhos

  • Juliana Nogueira Santos
  • 11 Janeiro 2017

Num discurso pejado de críticas aos democratas e aos meios de comunicação liberais, Trump afirmou que vai passar todos os seus negócios para os seus dois filhos e que o muro do México vai avançar.

Mais de 12 horas após Barack Obama entregar o seu discurso de despedida, o Donald Trump falou na Trump Tower em Nova Iorque, na primeira conferência de imprensa convocada como presidente eleito. Seria para tratar os avanços económicos até então, contudo os assuntos não ficaram por aqui.

Legado fica na família

Trump não respondeu diretamente às perguntas que tratavam dos conflitos de interesses que poderiam surgir no período da sua presidência, tendo deixado esse assunto, bem como todas as decisões relativas aos seus negócios, a uma advogada da Morgan, Lewis & Bockius, empresa responsável pela redação das regras, entre as quais se destacam:

  • Todos os ativos atuais têm de ser colocados num trust fund, fundo esse que também vai receber futuros royalties;
  • A Trump Organization passa a ser administrada pelos seus dois filhos Donald Jr. e Eric Trump;
  • Seguir-se-á a contratação de um conselheiro de ética para ajudar os novos administradores…
  • e a demissão do próprio de todas as posições da Trump Organization;
  • A filha Ivanka vai também abandonar as posições na empresa e passar a ser mãe e dona de casa a tempo inteiro;
  • Organização vai ter restrições em relação a novos negócios: vão deixar de fazer negócios internacionais e os nacionais vão passar a enfrentar um processo muito duro;
  • Se o presidente eleito tiver acesso a um negócio antes de ser feito, tanto através de informações privadas quer através da comunicação social, esse deixa de ter efeito;
  • Todos os negócios pendentes até à data da tomada de posse serão cancelados.

Esta decisão foi considerada por todos a melhor alternativa para resolver as preocupações do americanos, tendo sido postas de lado as hipóteses de venda aos filhos — por risco de endividamento –, de nacionalização — por ser um processo muito difícil — e da constituição de um blind trust — por não haver uma instituição que garanta a “cegueira” completa desse.

Guerra aberta às farmacêuticas

À luz das notícias que afirmavam que a Ford e a Fiat Chrysler mantiveram os postos de trabalho nos Estados Unidos, Trump aproveitou para dar os parabéns às empresas que estão a desistir da transferência de país. Assim, abriu guerra às que vão passar os empregos para o outro lado da fronteira, afirmando que estas vão pagar impostos de fronteira altíssimos e também às farmacêuticas, que viram as suas ações a caírem exponencialmente.

Às 16h35 as ações do índice S&P 500 atingiram mínimos diários. As farmacêuticas foram as que mais sofreram.
Às 16h35 as ações do índice S&P 500 atingiram mínimos diários. As farmacêuticas foram as que mais sofreram.

Rússia e os media

“Tenho guarda-costas e câmaras por todo o lado”, foi o que o presidente eleito respondeu quando foi levantado o assunto de uma possível pressão russa durante a sua presidência. Trump afirmou também a ligação da Rússia aos ataques informáticos, garantindo que isso não vai acontecer mais: “A China, a Rússia e o Japão vão-nos respeitar.”

As críticas aos meios de comunicação não se ficaram pela época da campanha eleitoral, estendendo-se aos dois meios que ontem avançaram a notícia que Trump esteve em Moscovo e levou a cabo alguns atos sexuais degradantes e que o seu advogado esteve em contactos secretos com os serviços secretos russos, aquando de uma viagem a Praga. À luz destas acusações, o presidente eleito afirmou ser “uma desgraça” que a CNN e o Buzzfeed tenham transmitido informação “falsa e fabricada” — ato que “poderia ter sido feito pela Alemanha nazi”, como afirmou num tweet.

Mais tarde, negou-se a dar a palavra ao jornalista da CNN, justificando com “vocês são notícias falsas”.

“Não é uma cerca, é um muro”

O assunto das fronteiras não ficou de lado, com Trump a responder à letra a uma pergunta de um jornalista que se referiu à “cerca” que ia ser construída na fronteira com o México: “Não é uma cerca, é um muro”, e vai ser construído, mesmo antes do período mínimo de um ano e meio. Em relação ao financiamento, e depois de ter afirmado durante toda a campanha que a conta teria como morada do destinatário, o México, Trump reiterou que, embora respeite muito os mexicanos e o seu governo, essa será a morada definitiva.

A conferência de imprensa acabou com a certeza de que, daqui a oito anos, vai reencontrar um negócio rentável ou que, se isso não acontecer, vai dizer aos seus filhos “Estão despedidos!”. Reveja aqui a conferência de hoje.

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