Em nome de Fátima, do Papa Francisco e da santa inflação, ámen

O Papa Francisco vai estar presente nas comemorações do centenário das aparições de Fátima e os poucos hotéis e alojamentos locais ainda com vagas aproveitaram para inflacionar os preços em 400%.

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Se pensa que ir a Roma para ver o Papa é caro, experimente ir vê-lo a Fátima. A 13 de maio deste ano, por ocasião do centenário das aparições de Fátima, Francisco vai estar por lá e os poucos hotéis e alojamentos locais que ainda não estão reservados aproveitaram para inflacionar os preços… a uma média de 400%.

A pesquisa feita pelo ECO no portal Booking mostra que as 21 unidades hoteleiras de Fátima ainda disponíveis a 12 e 13 de maio cobram, em média, 818,5 euros por noite. No fim de semana seguinte, o preço médio passa a ser de 140,72 euros por noite, ou seja, há um aumento superior a 400% no fim de semana em que Fátima recebe o Papa.

O período de comemoração das aparições sempre foi aquele em que os preços cobrados pela hotelaria de Fátima são mais altos, mas nunca a este nível. No ano passado, o preço médio praticado pelos hotéis de Fátima no mês de maio, segundo os dados da Associação da Hotelaria de Portugal (que contabiliza apenas os hotéis e exclui outros tipos de alojamento) foi de 49 euros por quarto.

Contactada, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) refere que está a fazer ações de fiscalização na região. “A ASAE mantém-se atenta às diversas atividades económicas relacionadas com as comemorações do centenário das aparições de Fátima, estando em curso diversas ações de fiscalização, a nível nacional, com vista a garantir a saúde pública, a defesa dos direitos dos consumidores e uma leal concorrência entre os operadores económicos”.

Papa Francisco

Contudo, o inflacionamento dos preços não constitui qualquer tipo de infração, esclarece a ASAE. “Sobre a factualidade de unidades hoteleiras, em específicos períodos temporais, alterarem os preços e cobrarem montantes muito superiores ao habitual, é uma matéria que já mereceu a nossa atenção, como já ocorreu em momentos anteriores (por exemplo, no decurso da final da Champions League, em Lisboa). Sem prejuízo do necessário cumprimento das regras de afixação de preços, tem sido considerado que esta alteração dos valores, mesmo perante circunstâncias de procura excecionais, se enquadra no ‘regular exercício da atividade hoteleira’, uma vez que é determinada em função dos níveis da procura e da oferta do mercado — como tal, não configurando tais condutas como infrações antieconómicas”.

Por outro lado, esta situação não é a regra mas a exceção, garante Alexandre Marto Pereira, vice-presidente da Associação Empresarial de Ourém-Fátima (Aciso) e administrador da cadeia hoteleira Fátima Hotels, que conta com 10 hotéis e mil camas. “Os hotéis em Fátima fazem acordos com as operadoras e fixam um preço para o 13 de maio. Os preços não disparam nesta altura. Poderá acontecer em alguns casos, mas não na hotelaria tradicional. Na minha rede de hotéis, os preços são inferiores a 250 euros por noite”, detalha o responsável.

Ainda assim, sai mais barato ir ver o Papa ao Vaticano na Páscoa do que ir a Fátima em maio. No mesmo portal de reservas em hotéis e alojamentos locais, as 654 unidades disponíveis na cidade-Estado cobram uma média de 126 euros por noite. Com voos de ida e volta de Lisboa para Roma a partir dos 140 euros, basta fazer as contas.

“Efeito Francisco” já se sente além-Fátima

O 13 de maio será, como sempre, o dia mais importante do ano para Fátima. Mas, este ano, o impacto vai sentir-se bem para lá das comemorações das aparições e bem para lá do santuário. É que, desta vez, não só deverão estar em Fátima à volta de um milhão de visitantes por esta altura, como uma comunidade de 1.200 milhões de fiéis católicos estará de olhos postos na cidade portuguesa, para ver Francisco. “O Papa Francisco é muito popular, diria mesmo universalmente popular. Isso vai trazer muita gente, até porque ele não faz muitas viagens, portanto, quando faz, as pessoas aproveitam”, diz Alexandre Marto Pereira.

"Quem faz viagens de horas e horas para ir ver o Papa não vai vê-lo para depois ir embora. Vai ficar mais dias.”

Alexandre Marto Pereira

Vice-presidente da Associação Empresarial de Ourém-Fátima

A parte mais importante não é essa. “É o impacto que terá para o país. Quem faz viagens de horas e horas para vir ver o Papa não vai vê-lo para depois ir embora. Vai ficar mais dias, vai visitar Lisboa, ou o Porto, ou outra cidade. Era importante que as outras regiões percebessem esta importância do turismo religioso”, defende o responsável.

Por outro lado, salienta, “vamos receber milhares de jornalistas que vão publicitar a região em todo o mundo, para 1.200 milhões de católicos”. Este “é um investimento que o Estado português nunca poderia suportar”.

"As reservas estão muito para além daquilo que é o perímetro da hotelaria de Fátima e de Leiria.”

Pedro Machado

Presidente do Turismo do Centro

Feitas as contas, antecipa Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, Fátima deverá ultrapassar a barreira dos sete milhões de visitantes e um milhão de dormidas em 2017, ajudando a região Centro a fechar o ano com mais de 250 milhões de euros em receitas turísticas. Só em Fátima, acrescenta Alexandre Marto Pereira, as receitas turísticas deverão disparar 20% este ano, ascendendo a 30 milhões de euros.

O efeito, aliás, já se faz sentir. “As reservas estão muito para além daquilo que é o perímetro da hotelaria de Fátima e de Leiria. Já existem reservas confirmadas em cidades como Coimbra, Figueira da Foz ou Aveiro. Lisboa, seguramente, já tem muitas reservas, até porque é a porta de entrada. Ou seja, o efeito desta presença estende-se muito para além da região Centro”.

"Estamos a consolidar Portugal como destino religioso para o ano inteiro e estamos a consolidar a ideia de que Fátima é o altar do mundo.”

Pedro Machado

Presidente do Turismo do Centro

Para agarrar os turistas que virão no 13 de maio, o Turismo do Centro já colocou em prática a estratégia para tornar Fátima no “altar do mundo”.

Segundo Pedro Machado, a região lançou, em parceria com o Turismo de Portugal, uma campanha de meios que passa pela elaboração de um guia para operadores turísticos e pela organização de um workshop internacional de turismo religioso. Isto para além da “participação em muitos certames internacionais”.

“Estamos a consolidar Portugal como destino religioso para o ano inteiro, e não apenas em maio. E estamos a consolidar a ideia de que Fátima é o altar do mundo”, conclui o responsável.

Ourém: Licença para gastar

A visita do Papa é só de um dia mas Ourém, concelho a que pertence Fátima, vai precaver-se para o ano inteiro. O município tem luz verde do Governo para celebrar contratos públicos por ajuste direto até ao final deste ano, para responder às necessidades do centenário das aparições de Fátima e da visita de Francisco.

Num decreto-lei publicado este mês, o Governo reconhece que Fátima “constitui uma forte componente económica e promocional de Portugal”, enquanto destino de turismo religioso, “chegando a milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo, dando visibilidade à região Centro e ao país”.

Por isso, e por serem “esperadas milhões de pessoas”, torna-se “necessário garantir acessos seguros e condições de escoamento rodoviário rápido e eficaz”. O executivo de António Costa decidiu, assim, “adotar, até dezembro de 2017, um regime de contratação de empreitadas de obras públicas e de aquisição de bens e serviços que combine a celeridade procedimental exigida pela proximidade da data”.

A administração direta e indireta do Estado, o setor empresarial do Estado e o município de Ourém têm assim autorização para estabelecer contratos, por ajuste direto, de empreitada de obras públicas, locação ou aquisição de bens móveis e aquisição de serviços relacionados com o centenário das aparições ou com a visita do Papa.

Para poderem ser celebrados por ajuste direto, os montantes dos contratos têm de ser inferiores a 5,18 milhões de euros no caso das obras públicas, 207 mil euros na aquisição de bens móveis e 750 mil euros na aquisição de serviços.

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