BCE deve deixar taxas de juro inalteradas na reunião de quinta-feira

  • Lusa
  • 8 Março 2017

Esta quinta-feira, o Banco Central Europeu deverá manter as taxas de juro de referência para a zona euro, mas as previsões para o PIB e inflação podem ser ligeiramente revistas em alta.

O Banco Central Europeu (BCE) deverá manter as taxas de juro de referência para a zona euro na sua reunião de quinta-feira, em Frankfurt, segundo os analistas ouvidos pela Lusa.

O economista chefe do Montepio Geral, Rui Bernardes Serra, considera que, depois de na reunião de dezembro o BCE ter estendido por mais nove meses o programa de compra de dívida e de ter anunciado que, a partir de 1 de abril, o ritmo de compras mensais será reduzido, é esperada uma “manutenção das taxas de juro e do essencial do programa”.

É provável, no entanto, que as previsões para o PIB e para a inflação possam ser ligeiramente revistas em alta, refere.

Para Rui Bernardes Serra, o presidente do BCE, no seu discurso, deverá sinalizar o seu compromisso em atingir o target de 2% para a inflação no médio prazo.

“É verdade que, em fevereiro, a inflação homóloga já atingiu os 2%, facto que já deve ter colocado o BCE em alerta, mas não devendo, para já, provocar alterações na sua política monetária, já que a inflação core (0,9%) está bastante abaixo dos 2%”, disse.

Ou seja, para o economista chefe do Montepio, o BCE deverá continuar com uma política “extremamente expansionista, sinalizando, ao contrário do que alguns economistas alemães têm vindo a defender após a forte aceleração da inflação daquele país a partir de dezembro (e também, de um modo geral, nos demais países da zona euro), que não pretende efetuar subidas de taxas este ano e no próximo”.

"[O BCE deverá continuar com uma política] extremamente expansionista, sinalizando, ao contrário do que alguns economistas alemães têm vindo a defender após a forte aceleração da inflação daquele país a partir de dezembro (e também, de um modo geral, nos demais países da zona euro), que não pretende efetuar subidas de taxas este ano e no próximo.”

Rui Bernardes Serra

Economista-chefe do Montepio Geral

Já o gestor da corretora XTB Eduardo Silva destaca que o sentimento positivo na Europa “está a gerar algum ruído em torno da reunião de março, que se previa bastante calma”.

Para Eduardo Silva, o “grande desafio” do presidente do BCE, Mario Draghi, será o de “resistir à pressão de anunciar que o programa de compra de dívida tem os dias contados”.

“No momento em que o mercado sentir que a política monetária vai inverter, o euro irá valorizar fortemente, os periféricos irão sentir maiores dificuldades de financiamento e as ações das maiores exportadoras irão sofrer a tensão do mercado. Isto tudo acrescido do facto que fica a ideia que o banco central cedeu por fim à pressão dos alemães“, disse.

Eduardo Silva defende que, face a este contexto, Draghi terá de fazer um balanço entre traçar um cenário menos negativo sem, no entanto, anunciar uma inversão na política do BCE.

Nos EUA e no Reino Unido, onde os programas foram bem-sucedidos, ambos os países resistiram a anunciar o fim precipitado do programa, o bom senso recomenda que se siga uma postura similar. As pressões são, todavia, evidentes e públicas”, apontou.

"No momento em que o mercado sentir que a política monetária vai inverter, o euro irá valorizar fortemente, os periféricos irão sentir maiores dificuldades de financiamento e as ações das maiores exportadoras irão sofrer a tensão do mercado. Isto tudo acrescido do facto que fica a ideia que o banco central cedeu por fim à pressão dos alemães.”

Eduardo Silva

Gestor da XTB

Por seu turno, José Lagarto, gestor de ativos da Orey Financial, sublinha que “desde a última reunião do BCE, em 19 de janeiro, os dados económicos na Europa têm sido positivos e, em especial, os dados relativos à inflação que têm surpreendido pela positiva“.

O responsável assinala que Draghi “tem vindo até agora a desvalorizar as subidas observadas na taxa de inflação, apontando a subida dos preços da energia como principal responsável pelos números observados, já que a inflação core se tem mantido inalterada a 0,9%” e que “esta ideia poderá voltar a ser defendida na reunião deste mês”.

Segundo José Lagarto o calendário eleitoral europeu continua a ser um “fator de risco considerável” para a economia europeia.

“Do outro lado do Atlântico, os fatores de risco também não são menores. As promessas do Presidente dos EUA, de uma política protecionista e de uma ‘América primeiro’, poderão ter um impacto significativo a nível global. Por fim e não menos importante, a revisão em baixa do crescimento chinês estimado pelo primeiro-ministro Li no início desta semana, o que poderá também pesar no crescimento global da economia”, acrescenta.

“Neste cenário de incerteza elevada, o BCE poderá manter inalterada a sua política monetária, tanto no que toca à taxa de juro, como no que respeita às medidas de política monetária não convencional“, remata.

"Do outro lado do Atlântico, os fatores de risco também não são menores. As promessas do Presidente dos EUA, de uma política protecionista e de uma ‘América primeiro’, poderão ter um impacto significativo a nível global. Por fim e não menos importante, a revisão em baixa do crescimento chinês estimado pelo primeiro-ministro Li no início desta semana, o que poderá também pesar no crescimento global da economia.”

José Lagarto

Gestor de ativos da Orey Financial

Também Teresa Gil Pinheiro, analista financeira do BPI, aponta para que “o BCE mantenha inalterada a sua política monetária” na reunião de quinta-feira, tanto no que se refere ao nível das taxas de juro como ao programa de compra de ativos.

“Contudo, é possível que seja adotado um discurso mais otimista na medida em que se tem assistido à divulgação de informação económica que aponta para o fortalecimento da atividade, evidente, por exemplo, no comportamento dos indicadores PMI que apresentam uma forte correlação com o PIB”, sublinha.

Quanto à inflação, a analista do BPI antecipa que o BCE mantenha um “discurso cauteloso”.

"Contudo, é possível que seja adotado um discurso mais otimista na medida em que se tem assistido à divulgação de informação económica que aponta para o fortalecimento da atividade, evidente, por exemplo, no comportamento dos indicadores PMI que apresentam uma forte correlação com o PIB.”

Teresa Gil Pinheiro

Analista financeira do BPI

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