Nova SBE não é uma escola tech mas rendeu-se à tecnologia

  • Joana Azevedo Viana
  • 30 Maio 2017

Universidade Nova de Lisboa vai ao leme de vários projetos inovadores. Primeiros resultados serão conhecidos dentro de dois ou três meses.

A transformação digital chegou em força à Europa e a School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa vai ao leme de vários projetos inovadores. As raízes de um desses projetos não são portuguesas, são americanas, embora remontem a Karachi, no Paquistão, onde Rayid Ghani nasceu em 1977 e onde estudou gramática antes de se mudar para os EUA para aprender matemática avançada numa escola do Tennessee.

“O que eu fiz ali foi explorar e descobrir o que queria fazer e acabei por concluir que queria uma carreira no setor da investigação, ligada à inteligência artificial e à aprendizagem de máquinas”, explicou, em 2013, numa entrevista a um site norte-americano. “Queria estudar e compreender como é que nós, humanos, aprendemos, e também resolver problemas práticos de grande dimensão tornando os computadores mais inteligentes através do uso de dados.”

Daí até estudar mineração de dados e aprendizagem de máquinas foi um salto; maior ainda foi o segundo pulo, quando ganhou fama mundial como arquiteto da campanha cibernética de Barack Obama em 2008, a primeira vez que as redes sociais desempenharam um papel preponderante numa corrida eleitoral. “Foi a primeira grande jogada de social media”, descreve ao ECO Miguel Moreira, um dos responsáveis pelos projetos e parcerias digitais da Nova SBE. “Ghani teve a brilhante ideia de se unir à comunidade científica e de aproveitar o facto de a computação se ter tornado muito acessível e barata para aliar os avanços em áreas como Big Data e analítica avançada a áreas de impacto social.”

Assim nasceu o conceito Data Science for Social Good, que dá o mote a um projeto “muito entusiasmante” que a Nova SBE vai lançar já a 8 de junho. “Desafiámos várias instituições públicas e privadas, na área da saúde, autarquias e empresas de utilities, a participar, e vamos trazer 25 especialistas em data analytics de vários países que, durante três meses, vão estar a trabalhar quase pro bono, usando esta capacidade de processamento de dados para tentar obter pistas para resolver problemas relevantes com impacto na sociedade”, explica o responsável do Center for Digital Business da SBE.

Acreditamos que é uma forma de unir as comunidades científica e académica e um método muito distinto de transformação digital.

Miguel Moreira

Nova SBE

Um dos dinamizadores do projeto é o professor Leid Zejnilović, cofundador de uma empresa de consultoria digital, a Orka, e voluntário na startup Patient Inovation, uma plataforma sem fins lucrativos onde doentes e aqueles que cuidam deles podem partilhar e aceder a dados e soluções úteis para lidarem com os seus problemas de saúde.

Afinal, do que se fala quando falamos de “ciência de dados”?

A área registou um grande crescimento nos últimos cinco anos e, explica Moreira, “passa por recorrer à mineração e exploração de dados para entender pequenas nuances e padrões comportamentais que a mente humana não alcança”. A partir disso, Ghani teve a ideia de recorrer a estes instrumentos para melhorar as sociedades, “usar esta técnica para tentar resolver problemas vários que vão desde o trânsito à poluição, passando pela prevenção de doenças ou de violência doméstica”.

Entre outras empresas e entidades, a mais recente iniciativa da Nova SBE — que “está a assumir a liderança deste projeto a nível europeu” — envolve a Câmara Municipal de Cascais, com quem a escola de gestão lisboeta já tinha uma outra parceria em curso e que precisava de ajuda para resolver problemas nas áreas da empregabilidade, mobilidade e trânsito. “E também já temos empresas for profit a pedir-nos para as ajudarmos a analisar pistas.”

A Nova SBE não é uma escola de tecnologia mas não demorou muito a perceber a sua importância também na área da gestão. “Sabemos que um dos grandes obstáculos que as empresas enfrentam hoje em dia é a tecnologia, há esta resistência à tecnologia, uma barreira que é mais organizacional, social e cultural”, explica Moreira. “É nesse sentido que queremos contribuir para uma reformatação dos percursos formativos de quadros que acompanhe a rapidez da evolução tecnológica. Na nossa visão, há uma série de skills que os gestores, dirigentes e executivos devem ter para gerirem as mudanças à medida que elas vão surgindo. E nesse sentido também combinamos a parte tecnológica e de gestão com uma vertente mais humanística, de aposta na criatividade e na experimentação.”

Essa vertente é nota forte em muitos projetos de transformação digital que passam, não só por ajudar as empresas a adaptar os seus modelos de negócios às novas tecnologias, como também por usar essas tecnologias para as ajudar a chegar a mais clientes. Ou, no caso da banca, para fidelizar clientes. “Apesar da transformação, o que percebemos é que no setor bancário há um grande desafio com os millennials” — a geração dos que nasceram entre 1980 e 2000 e que cresceram a par da computação e das evoluções tecnológicas. “O problema que os bancos enfrentam não é tanto angariar clientes dessa geração mas mantê-los”, explica o gestor. E nesse sentido, a SBE tem apostado no “manancial de riqueza que é a sua base de alunos, cerca de três mil, para integrar esses jovens nos processos; acaba por funcionar como uma espécie de observatório de ideias, em que tentamos mapear comportamentos e experiências usando programas que estimulam os interesses” e também as relações empresariais adaptadas aos avanços digitais.

Esta forma de colaboração estreita com as tecnologias dá-se em áreas como o Big Data, “para conjugar conclusões que consigamos inferir em paralelo com métodos menos convencionais para identificar padrões e comportamentos de potenciais clientes”. E aí, um dos métodos preponderantes é o gamification, a técnica que vai beber ao design de jogos informáticos, através da criação de aplicações de smartphones e outras, para que as empresas possam escutar o seu público-alvo. “Um dos grandes problemas da sociedade tecnológica é a dispersão da atenção, que dificulta os processos e a construção de engagement das empresas com os clientes.” A ideia do gamification é usar a tecnologia para “fortalecer essas relações e também para garantir que se acompanha a evolução das próprias tecnologias, o que é muito útil considerando que os mais jovens estão mais atentos à área”.

Com o Santander, a SBE já tem em marcha o que Moreira descreve como “um projeto de laboratório, ainda a dar os primeiros passos” e cujo primeiro ciclo deverá permitir tirar algumas conclusões preliminares dentro de dois ou três meses. A par disso, alguns projetos e parcerias da faculdade de gestão da Nova também passam por formar muitos executivos que, pertencendo às gerações mais velhas, estão à partida mais desligados da tecnologia. “A Jerónimo Martins pediu-nos ajuda para preparar um programa de formação executiva em tecnologias disruptivas. Mais do que ensinar programação, programas como este passam por demonstrar as aplicações práticas da tecnologia nos setores dos clientes, em áreas como a análise avançada e big data, inteligência artificial, realidade aumentada e virtual.”

O objetivo, conclui Moreira a fechar o ciclo, “é aumentar a confiança nos processos de networking”, demonstrando não só as qualificações necessárias para funcionar na era digital como as formas de introduzir e aproveitar estas tecnologias no setor empresarial sem correr riscos. “Em suma, é explicar que tipo de barreiras há, regulatórias e de confiança, para garantir que as empresas respeitam a privacidade dos clientes e protegem os dados dos clientes, garantindo ética e boas práticas na criação e implementação de sistemas de envolvimento com o cliente.”

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