Mário Centeno: de quase despedido a herói em 107 dias?

  • Marta Santos Silva
  • 13 Junho 2017

O ministro ficou pendurado por um fio por causa da Caixa Geral de Depósitos mas agora é o "CR7 do Eurogrupo". Para politólogos, esta viragem rápida em percepção é natural para o cargo.

Pouco mais de 100 dias. Foi quanto bastou para o ministro das Finanças Mário Centeno passar de pendurado por um fio no Governo, com o apoio quase relutante do Presidente da República, até ser a estrela do Executivo e também do Eurogrupo. O que aconteceu? Com uma frase conhecida, o professor Carlos Jalali responde ao ECO: “Eventos, meu caro, eventos”.

A 14 de fevereiro, num comunicado no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa escrevia que aceitava que António Costa mantivesse Mário Centeno no cargo, após o escândalo de SMS trocados e “erros de perceção mútuos” com o ex-dirigente da Caixa Geral de Depósitos António Domingues, apenas pelo bem da estabilidade financeira do país.

 

Enfraquecido, Mário Centeno permaneceu, e a estabilidade financeira revelou-se: a 22 de maio Portugal saía finalmente do procedimento por défice excessivo, ou PDE, e do olhar extra atento de Bruxelas, podendo usar mais flexibilidade orçamental e deixar para trás a sombra das sanções. Um feito que, embora tenha sido atribuído pelo comissário Europeu Valdis Dombrovskis “antes de mais, ao povo português”, acabou por valer, em grande parte, louros ao ministro das Finanças, que pouco mais de três meses antes parecia estar a segurar-se pelas pontas dos dedos.

No dia seguinte à saída do PDE, o sempre crítico ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, chamou a Centeno o “Ronaldo do Ecofin”, e desde então Centeno já deu entrevistas incontáveis — ao Expresso, à RTP3, à RTP1, à Antena 1, escreveu um artigo de opinião no Público — e também falou aos meios de comunicação estrangeiros, da Bloomberg à CNBN passando pela Reuters e pelo El País. E até se estreou nas redes sociais com uma sessão de perguntas e respostas. A reviravolta não surpreende os politólogos que falaram ao ECO, que consideram a mudança natural.

É ao primeiro-ministro britânico, Maurice Macmillan, que é atribuída a frase, respondendo a um jornalista, que aquilo que determina o rumo da política são “eventos, meu caro, eventos”. O politólogo Carlos Jalali, doutorado em Ciência Política pela Universidade de Oxford e professor na Universidade de Aveiro, começa por justificar assim a reviravolta na imagem de Mário Centro. “São os resultados económicos, no caso português, que em larga medida determinam a perceção e a imagem dos políticos e dos próprios governos”, afirmou ao ECO.

Viriato Soromenho Marques, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, considera que há ainda “um aspeto especificamente europeu neste contexto também”, já que “a partir do momento em que o Orçamento do ano passado superou as expectativas em matéria de défice, isso permitiu a Centeno que fosse reconhecido, não só no país mas também no próprio Eurogrupo”.

Carlos Jalali completa: “Os resultados macroeconómicos e de consolidação orçamental serem muito positivos acaba por marcar o que é a perceção de Mário Centeno. Acaba por alterar rapidamente a imagem de que, suspeito, a maioria dos portugueses já não se recordará, e possivelmente o próprio Presidente verá nessas palavras a vindicação daquilo que ele fez, a estabilidade financeira”.

É o papel especial do ministro das Finanças?

Viriato Soromenho Marques reconhece que “o ministro da Finanças é sempre um ministro que tem um papel especial em qualquer Governo”, em especial na tradição portuguesa: “Num país particularmente dependente do crédito externo como é Portugal, alguém que consiga manter as Finanças Públicas equilibradas evidentemente tem prestígio”.

“Em larga medida a perceção em relação, sobretudo aos ministros das Finanças, e mesmo aos governos, acaba por ser ditada pelos resultados económicos. Situações económicas favoráveis acabam invariavelmente por ultrapassar outras questões que possam ter surgido antes”, afirma Carlos Jalali.

E o politólogo também colocou a questão de outra forma: “A questão que colocou Mário Centeno sob pressão era politicamente relevante, mas tem menos impacto no bolso dos portugueses do que a perceção de o desemprego estar a diminuir, a taxa de emigração ter estabilizado, o crescimento económico…”. E se fosse ao contrário? “Imagine que estávamos numa má situação económica, mas que Mário Centeno geria bem uma situação com um outro banco, será que essa gestão iria alterar a sua imagem? Provavelmente não”.

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