“Lixo” há muito em Portugal, mas o Novo Banco está no fundo do caixote

Lixo, lixo e mais "lixo" financeiro. Portugal é "lixo", mas as empresas portuguesas também. São raras as exceções, sendo que mesmo entre o "lixo", há empresas que o são mais que outras.

Portugal é “lixo”. É, e vai continuar a ser durante mais algum tempo, apesar de todas as vozes que se têm levantado contra a falta de ação por parte das agências de notação financeira. E o facto de o ser pesa nas empresas portuguesas. É que a avaliação do soberano tem reflexo na das cotadas, mantendo a maioria das empresas com uma classificação especulativa. Ou seja, há muito “lixo” em Lisboa. Mas no meio de tanto “lixo”, é o do Novo Banco que está no fundo do caixote.

S&P, Moody’s e Fitch, agência de notação financeira que deverá manter novamente inalterada a avaliação que faz da dívida portuguesa, têm todas Portugal com ratings de “lixo”. Está a um nível, nas três, de deixar de ser considerada investimento especulativo, sendo apenas classificada de qualidade para a DBRS, a agência canadiana que garante que o país é elegível para o programa de compra de dívida do Banco Central Europeu (BCE). Ao ter uma notação baixa — o Barclays só vê a saída do “lixo” em 2019 –, também a das empresas portuguesas acaba por sê-lo.

É que as regras das agências limitam a classificação dada às empresas em função do soberano. Só podem, no máximo, ser dois níveis superiores às do país a que pertencem, daí que entre as várias empresas na bolsa nacional apenas a REN e a EDP têm classificações de qualidade, de acordo com a recolha do ECO. A REN faz o pleno, com notas positivas tanto na S&P, Moody’s como na Fitch (BBB-, BBB- e Baa3, respetivamente), enquanto a EDP conta com BBB- na Fitch e Baa3 na Moody’s, ficando apenas no “lixo” na S&P (BB+), já a Navigator é “lixo” na Moody’s e S&P. Fora de bolsa, a Brisa é de qualidade para a Moody’s e a Fitch.

Na banca, o setor mais sensível ao soberano, o resultado é bem diferente. Tendo em conta as debilidades do país, as agências de notação tendem a ser menos compreensivas com a banca, o que se traduz em ratings bem menos favoráveis — o Santander Totta é a exceção, mas apenas porque é considerado o rating de Espanha como base para a notação da instituição de direito português. O BPI, que foi comprado pelo CaixaBank, tem as melhores classificações, ainda que seja “lixo”. É até menos arriscado que a CGD, o banco do Estado.

A instituição liderada por Paulo Macedo é “lixo” para a Fitch, que lhe dá uma notação de BB-, sendo apenas de qualidade para a DBRS, a agência que também vê a dívida do país como um investimento de qualidade. O BCP tem a mesma nota de BB- na S&P, mas está aquém da CGD na avaliação dada pela agência canadiana. Pior estão o Montepio e o Novo Banco. A dívida emitida por estas duas instituições é “lixo” como a dos restantes bancos, mas é um “lixo” que está mais fundo no caixote.

Na banca, o setor mais sensível ao soberano, o resultado é bem diferente. Tendo em conta as debilidades do país, as agências de notação tendem a ser menos compreensivas com a banca, o que se traduz em ratings bem menos favoráveis.

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O banco liderado por Félix Morgado só se aproxima do BCP na DBRS, sendo a notação de BB face ao BB High do banco liderado por Nuno Amado. Mas esta é a única agência que confere ao Montepio uma notação relativamente boa dentro da categoria de “lixo” já que as restantes são bem mais penalizadoras quanto à qualidade da dívida emitida pelo banco controlado pela Associação Mutualista Montepio Geral. A Moody’s dá-lhe B3 e a Fitch apenas B.

Estas notações sinalizam a perspetiva de debilidade da instituição aos olhos das agências, isto numa altura em que o banco se prepara para passar a sociedade anónima, uma alteração estatutária que permitirá a entrada de um investidor no capital do banco comandado por Félix Morgado. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa está na frente para assumir essa posição, embora não sejam conhecidos os termos. A entrada desse investidor deverá permitir colmatar as necessidades de capital do banco que o Banco de Portugal está neste momento a avaliar.

Com pior rating que o Montepio só mesmo outro banco, o Novo Banco. A instituição que resultou da resolução do BES, em 2014, é “lixo”, mas não é um “lixo” qualquer. Está quase no fundo do caixote para as agências de notação financeira. Caiu para o patamar de Caa1 na Moody’s depois de ter sido anunciado que o acordo para a venda do banco à Lone Star está sujeito à obtenção de uma almofada de 500 milhões de euros com uma operação de troca de dívida sénior.

A Moody’s baixou ainda mais o rating do Novo Banco para um nível de quase incumprimento. “O corte do rating, mantendo-o sob revisão para novas revisões em baixa, reflete a expectativa de perdas que os obrigacionistas seniores do Novo Banco deverão enfrentar como parte” da troca de obrigações. Mesmo a DBRS, que tende a ter classificações mais positivas do que as “três grandes” agências de rating, dá ao Novo Banco uma classificação de CCC.

Este CCC traduz-se como “altamente especulativo e em risco de incumprimento nos juros ou na dívida”, diz a DBRS, que manteve a notação sob revisão. “Durante o período de revisão, que poderá durar mais de três meses, a DBRS irá focar-se nos termos e condições da operação de troca de obrigações. A DBRS irá possivelmente considerar qualquer operação como problemática se os termos da troca forem desfavoráveis para os obrigacionistas”, antecipando um corte para D, de default, ou seja, incumprimento, “para refletir (…) uma oferta coerciva para os obrigacionistas seniores e um incumprimento dos títulos”.

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