Cinco coisas inéditas que saíram das legislativas francesas

  • Marta Santos Silva
  • 19 Junho 2017

As legislativas francesas deram maioria a Emmanuel Macron com uma abstenção recorde, mas bateram ainda outros máximos: nunca tantos deputados novos entraram de uma vez na Assembleia.

Emmanuel Macron fez o que há dois anos pareceria impossível: fundou um movimento de raiz com o qual chegou à Presidência francesa e ainda conseguiu uma maioria no Parlamento nas eleições legislativas deste domingo. O En Marche, juntamente com os seus aliados MoDem, conseguiu encher 359 assentos na câmara dos deputados — menos do que o que se esperava, já que as sondagens anteviam mais de 400 — e fortalece assim a sua responsabilidade e o seu mandato para liderar o destino da França.

Emmanuel Macron levou o En Marche para uma vitória nas presidências e subsequentemente nas legislativas, nos primeiros atos eleitorais em que o movimento se bateu.© European Union

Foi um ato eleitoral cheio de pormenores invulgares e recordes batidos. Aqui estão cinco dos pormenores a recordar sobre estas eleições legislativas em França.

75% dos deputados são novos

É um recorde, segundo escreve o Le Monde, que fez as contas: 75% dos deputados eleitos este domingo não estavam no Parlamento. Só 145 deputados foram reeleitos para os seus assentos, o que representa uma taxa histórica de renovação. Nas eleições anteriores, há cinco anos, apenas 40% dos deputados eram novos, e em 2007 eram só 25%. O Le Monde assinala que é um recorde neste regime, desde 1958: a média é que entre 120 e 270 assentos mudem de ocupante.

Quais os motivos por detrás desta alteração? Cerca de 39% dos deputados da anterior Assembleia da República não se recandidataram, muitos deles por terem concluído que o ambiente político no país tinha mudado e que já não tinham apoio junto das suas bases. Também a lei que proíbe a acumulação de mandatos (ou seja, de ser deputado e ao mesmo tempo presidente da Câmara, por exemplo) fez com que alguns deputados decidissem deixar o Parlamento para se dedicarem a outras prioridades.

Nunca houve tantas mulheres no Parlamento

Ainda não chegaram à paridade, mas as deputadas eleitas em França este domingo são em maior número do que em qualquer outra Assembleia em França: 223 mulheres vão ter assento no Parlamento após a segunda volta das legislativas. É um novo recorde e um aumento significativo em relação às 155 deputadas que estavam presentes na legislatura anterior, sublinha o Le Figaro, representando assim 38,65% dos deputados. O partido de Macron e o seu aliado MoDem são os que garantiram mais assentos para mulheres: 46% dos seus deputados são-no.

O que representa isto para França? Salta do 64º lugar para o 17º no top mundial de parlamentos com mais mulheres, e na Europa fica com o quarto lugar, apenas atrás da Suécia, da Finlândia e de Espanha.

PS sofreu derrota histórica

Desde as primeiras eleições legislativas em que participou, em 1973, o Partido Socialista nunca obteve menos assentos do que este ano nem nunca sofreu uma queda tão drástica: de 280 deputados, o PS caiu para apenas 29. “A derrota é sem recurso”, concedeu o dirigente socialista Jean-Christophe Cambadélis, logo às 20 horas, quando a queda se tornava já evidente. “Assumo a minha parte da responsabilidade”, disse, mas assinalou que “a esquerda tem de mudar tudo”, citado pelo Le Figaro.

“O PS não pode deixar de esperar entrar num período de convalescença”, escreve o jornal, após umas eleições presidenciais em que o seu candidato, Benoît Hamon, saiu derrotado por candidatos mais extremistas, e umas legislativas com uma queda tão histórica. Os deputados reduzidos para quase um décimo do que eram na Assembleia anterior representam um grande choque para o partido que durante tanto tempo se impôs como uma de duas forças principais.

Insubmissos entram no Parlamento… e Marine também

Marine Le Pen conseguiu entrar no Parlamento com oito deputados, o número maior de representantes para o partido de extrema-direita desde que o pai da atual líder juntou 35 em 1986. Não é suficiente para constituírem um grupo parlamentar sozinhos, pelo que terão de procurar ajuda junto de possíveis parceiros à direita para o poderem fazer. Segundo o Le Parisien, porém, a vitória não chegou para impedir que Le Pen criticasse a legitimidade das eleições.

A estrear-se no Parlamento está o movimento A França Insubmissa, liderada pelo veterano Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu 18 deputados, o suficiente para formar um grupo, mas decidiu de qualquer forma juntar-se aos deputados comunistas para formar um grupo de 28 deputados. Não basta para ultrapassar o Partido Socialista, o que era um objetivo de Mélenchon, lembra o Le Figaro, mas é um resultado invejável para um partido tão jovem.

Abstenção bateu novo recorde

A menor participação de sempre numa eleição legislativa: apenas 43,4% dos eleitores, 12 pontos a menos do que em 2012, foram às urnas este domingo. O recorde histórico ultrapassa o do domingo anterior, e as explicações são muitas.

O Le Parisien assinala várias causas possíveis: por um lado, um ciclo eleitoral extremamente longo, que passou das presidenciais para as legislativas com pequena interrupção, resultando em quatro idas consecutivas às urnas; por outro, o facto de os jovens não se reconhecerem nos candidatos.

“Mais do que um recorde”, escreve o instituto de sondagens Ipsos, “é algo nunca visto para as eleições legislativas”.

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