Há tecnologia portuguesa para prevenir e combater incêndios

Em Portugal há ideias e produtos para mitigar incêndios. Mas num país assolado por eles, o mercado mostra-se curto. Descubra cinco projetos "made in Portugal": há aplicações, satélites e drones.

Portugal vivia o natal de 1995 quando surgiu uma das mais famosas publicidades da história da televisão nacional. Um pastor, rodeado de ovelhas e acompanhado por um cão, recebia uma chamada num grande telemóvel com antena de dez centímetros. O que dizia a seguir ficou marcado para sempre nas mentes dos portugueses: “Tou xim? É p’ra mim!” O anúncio era da Telecel. Cinco anos mais tarde, dava origem a uma campanha completamente inédita: o Governo distribuiria telemóveis aos pastores, numa parceria com a TMN e a Alcatel, para ajudar a prevenir e a combater incêndios florestais nas serras.

Mais de 17 anos depois, os incêndios florestais são um problema que persiste — como o que começou este fim de semana em Pedrógão Grande, que provocou a morte a mais de seis dezenas de pessoas. Mas a tecnologia é bem diferente. Há um smartphone no bolso da grande maioria dos cidadãos, há sensores para tudo e mais alguma coisa. Por isso, e dadas as circunstâncias, o ECO foi à procura de tecnologia de prevenção e combate a incêndios, made in Portugal. Há ideias para drones, há aplicações e há satélites. Conheça estes cinco projetos, ideias e empresas.

Flicks Systems: deteção e prevenção via satélite

Ver o mundo do céu é uma vantagem. Mas se os olhos forem um satélite de alta precisão, ainda melhor. A Flicks Systems é uma empresa com sede no Porto, fundada em 2013 por Sérgio Tavares e Bruno Teixeira, em conjunto com dois colegas que já deixaram o projeto. Hoje, a startup dedica-se à prestação de serviços de “monitorização ambiental”. Outrora, o negócio era outro: estes empreendedores desenvolveram uma solução de deteção de incêndios florestais e prevenção de incêndios que recorre exatamente a isso, os satélites.

“Os satélites medem a 400, 600, 800 quilómetros de altitude. Nós quisemos medir a 12 quilómetros. Permitiu-nos aumentar a sensibilidade quase mil vezes. Uma pequena variação de temperatura ou dióxido de carbono é logo possível de detetar e indicar que há ali um foco de incêndio”, explicou Sérgio Tavares, ao ECO. “O sensor que nós temos validado tem quatro janelas que permitem medir quatro indicadores: a temperatura, o dióxido de carbono, os níveis de humidade — para fazer a avaliação constante do risco de incêndio — e o monóxido de carbono”, referiu. É “tudo desenvolvido aqui em Portugal”, incluindo a montagem. Só uma tecnologia do sensor é que é feita lá fora.

Como funcionaria o sistema da Flicks num cenário como o de Pedrógão Grande? “Evitar o fogo por completo não é possível garantir. Mas atenuar as consequências, isso é certo. Não só esta tecnologia. Muitas outras. O desenvolvimento para este tipo de tecnologias tem sido constante nos últimos anos. Há uma diversidade de tecnologias que poderiam ter atenuado os efeitos”, confessou. Há, no entanto, um problema. “Temos aguardado uma oportunidade [de negócio]”, explicou. Oportunidade que nunca surgiu.

“Fizemos testes em laboratório e conceitos. Até ganhámos um prémio. Só que, depois, na parte da implementação, nunca conseguimos um acordo que fosse útil e que pudesse escalar este conceito”, desabafou. Atribui parte das culpas à “desorganização das diferentes entidades”, pelo que “nunca é claro quem é responsável pela prevenção ou pela manutenção destes sistemas, e existem alguns instalados mas já desatualizados”, garantiu o empreendedor. E concluiu: “Este tipo de tecnologia só funciona integrada num sistema de prevenção a nível distrital ou nacional.” Apesar dos fogos, Portugal não parece ser um mercado de excelência neste segmento.

"Evitar o fogo por completo não é possível garantir. Mas atenuar as consequências, isso é certo. Não só esta tecnologia. Muitas outras. O desenvolvimento para este tipo de tecnologias tem sido constante nos últimos anos.”

Sérgio Tavares

Fundador da Flicks Systems

SparroWatch: ninhos de pássaros, inteligentes

O grupo chama-se OOZ Labs e é composto por vários empreendedores. Têm participado por gosto em algumas iniciativas, e foi daí que nasceu a ideia de prevenir incêndios usando abrigos para pássaros. Os abrigos são de madeira, têm um pequeno painel solar no topo e formam uma rede Wi-Fi entre eles. “A casa-mãe tem uma ligação mais forte, diretamente à internet, e envia toda a informação para o sistema central”, explicou ao ECO Bruno Amaral, membro do grupo.

“Podem fazer todo o tipo de medições, mas o que fizemos inicialmente foi de temperatura e humidade, que nos pareceu que era o mais importante para prevenir incêndios. Não tanto para os detetar, mas para os prevenir através de uma ação de limpeza das florestas. Também podem ter sensores de CO2. Aí sim já estamos a entrar no campo da deteção mais rápida dos incêndios. Uma das casinhas que detetasse um nível de CO2 acima do normal poderia disparar imediatamente um alarme para as casas à sua volta, para enviar qualquer informação para o sistema central”, resumiu.

Ou seja, o SparroWatch, como chamaram ao sistema, é capaz de indicar, num espaço definido, uma zona que esteja “mais seca do que tudo o resto”. “Então, se temos de fazer uma limpeza das matas, começamos por ali. O que eu acho mais importante não é a deteção de incêndio. É a prevenção”, atirou.

"Acho que se pode dizer que só queremos salvar o mundo, o resto logo se vê.”

Bruno Amaral

Membro do grupo OOZ Labs

A OOZ Labs não é uma empresa, mas sim um grupo de entusiastas. Essa “falta de estrutura”, como indicou Bruno Amaral, terá ditado o insucesso na hora de implementar a ideia no terreno. “Não encontrámos nenhum parceiro com quem realizar este tipo de projeto-piloto. E também por falta de tempo da equipa. Fazemos isto como um hobbie. Gostávamos que fosse feito um projeto-piloto com ou sem a nossa ajuda. Está tudo no site. Mas neste momento, a única coisa que impede uma pessoa de nos roubar a ideia é a honra de cada um”, desabafou.

Apesar de tudo, Bruno Amaral diz compreender a posição das empresas com quem a equipa contactou. “Compreendo o ponto de vista delas quando aparece um grupo de pessoas que diz ‘olá, somos o OZZ Labs e temos aqui uma ideia gira’. É complicado confiar. Se fosse uma empresa já formatada, se calhar ouviriam-nos com mais atenção. Mas somos só um grupo de amigos que fez uma coisa gira. Não é tanto a falta de apoios, é mesmo a nossa falta de estrutura, creio eu.”

No entanto, ainda não perdeu a esperança. “Gostávamos de ver isto a andar e sim, ainda tenho esperança de que isso possa acontecer. Aliás, para uma universidade penso que seria um projeto interessante”, disse. E rematou com um desabafo: “Acho que se pode dizer que só queremos salvar o mundo, o resto logo se vê.”

Neste momento, a única coisa que impede uma pessoa de nos roubar a ideia é a honra de cada um.

Bruno Amaral

Membro do grupo OOZ Labs

Giff: monitorização e fogo controlado

Foi mais pela técnica do que pela tecnologia que o ECO contactou a Giff, uma empresa de Vila do Conde que se dedica à análise de risco de investimentos florestais e, sobretudo, ao fogo controlado — o ato de provocar um incêndio controlado para eliminar a acumulação de combustíveis nas florestas e que, tantas vezes, é o fator crítico para a progressão rápida dos incêndios. Ao ECO, António Salgueiro, gestor, explicou em linhas gerais a metodologia que desenvolveu ao longo de mais de duas décadas a minimizar o risco de incêndio.

Para tal, uma das principais ações é a do fogo controlado. Diminuindo os combustíveis, fazendo essa “gestão estratégica”, é possível a um investidor aumentar a segurança do território onde tem localizado esse investimento. Claro que com labaredas bem menores do que aquelas que se veem nos incêndios descontrolados. Mas nem tudo é um mar de rosas, porque nem toda a gente aposta neste tipo de soluções.

“A prevenção é normalmente um ato não produtivo. Não tem retorno direto. É um ato de retorno diferido. Quando estamos a fazer gestão de combustíveis, o que estamos a fazer é diminuir o risco de um ato que é diferido no tempo e no espaço, que é um incêndio florestal. Portanto, o retorno para o investidor é zero. É só aumentar a segurança do investimento que ele tem. O que fazemos é tentar, com o mínimo de investimento, que o território esteja o mais protegido possível”, explicou António Salgueiro.

Um dos principais clientes chegou a ser o Estado, mas agora a empresa trabalha mais com associações florestais. A empresa tem ainda tentado sensibilizar as autoridades para a necessidade de se fazer essa gestão e de interligar prevenção com combate, o que, para o gestor da empresa, é algo que não existe em Portugal. “Esse é um dos grandes problemas da nossa intervenção, que é muitas vezes não termos esta ligação. Nos territórios onde temos vindo a fazer essas propostas de intervenção, o que temos feito é termos as coisas prontas e, quando temos esse trabalho aferido, chamamos os responsáveis da zona pelo combate a incêndios, quer a nível municipal quer às vezes a nível distrital da Proteção Civil, para lhes mostrar o que foi feito”, indicou. E como reagem eles? “A reação normalmente é positiva, mas sem ser muito implicada”, garantiu.

Por outras palavras, gostam, mas não aderem. Nesse sentido, António Salgueiro terminou com uma crítica: “Não temos tido estabilidade no setor florestal. Se olharmos para o número de diretores e de nomes das instituições responsáveis pela floresta em Portugal nos últimos 20 anos, é inacreditável o ritmo a que mudaram. De nome, de presidentes, de direção. A nossa floresta é uma coisa de que se fala porque é simpático falar nela, mas não passa disso. Matámos os serviços florestais na verdadeira aceção do termo. Deixaram de ser entidades com capacidade de gestão, o que implicou que muito do nosso território esteja hoje em dia desestruturado.”

A prevenção é normalmente um ato não produtivo. Não tem retorno direto.

António Salgueiro

Gestor da Giff, especialista em fogo controlado

Fogos.pt: um programador e um bombeiro entram num bar…

Talvez já conheça este, ou talvez não. O Fogos.pt é um site que fornece informação em tempo real acerca dos incêndios ativos no país, mantido por João Pina nos tempos livres. É um projeto que tem vindo a ser melhorado ao longo do último par de anos, autossustentável, e que conta já com aplicações móveis para dispositivos iOS e Android. “Neste momento, as aplicações têm perto de 60.000 utilizadores registados, o Fogos.pt nas últimas 24 horas chegou a chegar aos 11 milhões de pedidos e tenho constantemente 1.200 a 1.300 pessoas online nestes últimos dias. Tem sido mesmo uma utilização extrema”, contou ao ECO esta segunda-feira, dois dias depois do começo do fogo em Pedrógão Grande.

Engana-se quem pensa que só recorre a este site o utilizador comum. Sei que muitos bombeiros, muitos GIPS, muitos — diria até — comandantes operacionais, distritais, já falei com alguns e sei que eles utilizam a minha aplicação. Como tinha as notificações a funcionar, que não estão neste momento, a minha aplicação avisava mais depressa os bombeiros, e comandantes do que a própria Proteção Civil. Por isso, sei que também é muito utilizada por bombeiros e acredito que a maior parte dos utilizadores registados sejam bombeiros ou forças, ou grupos, todos relacionados com isto aqui”, explicou o entusiasta e fundador do projeto.

Mas tudo começou numa conversa de café. “O Fogos.pt nasceu numa conversa de café com bombeiros meus amigos. Numa noite de copos, estávamos a beber umas cervejas, eles estavam a queixar-se de que o PDF [o método antigo da Proteção Civil para mostrar as ocorrências] não dava para perceber nada. E lembrei-me de fazer uma coisa com isto. Foi assim que nasceu: havia necessidade e implementei, basicamente”, disse João Pina.

O Fogos.pt é um site já bem conhecido de muitos portugueses.

Posto isto, recorrendo a conhecimentos que tem enquanto programador, e a outros obtidos na internet, João Pina desenvolveu toda a tecnologia por detrás do site, das aplicações e do sistema informático que vai buscar à Proteção Civil os dados para preencher o mapa, tais como as coordenadas do posto de comando, o estado do incêndio e o número exato de meios envolvidos na luta contra as chamas. A ideia, para os próximos tempos, é reativar as notificações, que deixaram de funcionar por motivos alheios e cuja nova funcionalidade estará com “70% do trabalho já feito”, a ser lançada ao público muito, muito em breve. Talvez mesmo ainda esta semana, mas sem compromisso.

Como tinha as notificações a funcionar, que não estão neste momento, a minha aplicação avisava mais depressa os bombeiros, e comandantes do que a própria Proteção Civil.

João Pina

Criador do Fogos.pt

Qual será o próximo passo? “Acho que vai continuar a ser um hobbie que eu tenho com muito gosto. Tenho alguns rendimentos que vêm de lá, mas são todos para pagar as despesas que já começam a ser grandes. Para mim é quanto basta, desde que esteja a ajudar”, disse.

Para terminar, uma ideia conceitual: drones

André Luz envolve-se em vários projetos, mas a área onde trabalha mesmo é em “desenvolvimento de produtos” para as indústrias automóvel e aeronáutica. Ao ECO, revelou uma ideia disruptiva que tem para um conceito que garante que poderia ser usado numa melhor prevenção e combate dos incêndios florestais em Portugal. Não passa disso mesmo: uma ideia. Mas o jovem engenheiro assume ser fácil de implementar com um investimento entre “três e cinco milhões de euros”, parte do Estado, parte do Portugal 2020, por exemplo.

Num discurso idealista, mas concreto e explicado, André Luz disse querer criar dois tipos de drones para o efeito: um drone de asa fixa para monitorização do incêndio com câmaras por infravermelhos e capazes de ver por entre o fumo; outro drone de “asas rotativas” a diesel capaz de transportar reservatórios com um produto químico semelhante ao dos extintores e de o espalhar pelo incêndio, o que poderia ajudar a extinguir as chamas. Não entraremos em detalhes técnicos.

"Obviamente que há desafios técnicos. Mas não há aqui nada, tecnologicamente, que me assuste.”

André Luz

Engenheiro

“Um drone de asa fixa, com estas câmaras e numa altura bastante elevada, permite olhar por cima do fogo e perceber ‘o fogo está a ir por ali’ ou ‘para onde é que está a ir’. Ou seja, quem está a fazer o controlo das operações sabe o que está a arder e onde estão as frentes a progredir”, disse em conversa com o ECO. Cruzando estas informações com os dados já existentes acerca da direção do vento, André Luz acredita poder ser útil a quem manda no teatro de operações.

“Depois há a parte de ataque ao fogo. A segunda coisa é um drone do tipo helicóptero que tem umas bombas químicas, semelhantes ao que existe nos extintores, e que permite que, na frente do fogo, disparar para a zona onde a frente de fogo está”, indicou. Este drone, disse, teria de ter redundância e poder funcionar também a bateria. Seria um drone pesado, é verdade. Mas André Luz garantiu poder resultar.

“Obviamente que há desafios técnicos. Mas não há aqui nada, tecnologicamente, que me assuste. A questão que há sempre é o financiamento. É o país. Não podemos esquecer que quando estamos a falar de tecnologia que só tem um cliente, chamado Estado, mais ninguém compra. Pode tentar-se vender aos empresários da celulose, mas mesmo assim é difícil. Quando há um cliente chamado Estado, podemos esquecer tudo o que se fale de empreendedorismo e startups. Não há capital de risco que entre em negócios onde só se vende ao Estado”, concluiu o engenheiro.

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