Incêndio: Quem responde às três perguntas de Costa?

O primeiro-ministro colocou três questões acerca do trágico incêndio que começou em Pedrógão Grande, Leiria. A quem cabe responder? E o que já se sabe?

O incêndio que começou este sábado em Pedrógão Grande fez mais de seis dezenas de vítimas e centenas de feridos. Apesar de ter sido excluída a hipótese de fogo posto por parte da Polícia Judiciária (PJ), o Ministério Público abriu ainda assim uma investigação. Assim como o Governo: António Costa, primeiro-ministro, fez três questões, as quais quer ver respondidas rapidamente:

  • Pergunta #1: Existiram mesmo condições meteorológicas invulgares que expliquem a dimensão e intensidade deste incêndio, nomeadamente o número de vítimas sem paralelo?
  • Pergunta #2: Houve ou não falhas no Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal, vulgo SIRESP?
  • Pergunta #3: Qual foi o processo de decisão que levou ao não encerramento da estrada nacional 236-1, onde morreram grande parte das vítimas?

Pergunta #1: A meteorologia

“Houve no local circunstâncias meteorológicas e dinâmicas geofísicas invulgares que possam explicar a dimensão e intensidade da tragédia, em especial no número de vítimas humanas, sem paralelo nas ocorrências de incêndios florestais, infelizmente tão frequentes em Portugal?” É a primeira pergunta do primeiro-ministro.

Tratando-se de uma questão técnica e de âmbito meteorológico e atmosférico, cabe ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) fornecer uma resposta. Terá de ser desenvolvido um estudo com toda a informação e fundamentação que permita retirar uma conclusão para responder a António Costa.

No domingo, a investigação da PJ concluiu que a origem do incêndio teria sido um raio que caiu numa árvore, havendo registo de trovoadas secas na região. Trata-se de um fenómeno em que se registam descargas elétricas sem estarem acompanhadas de pluviosidade, uma vez que a água evapora antes de chegar à superfície. É, por isso, uma condição caracterizada por tempo quente, seco e “abafado”, como aquele que se fez sentir no domingo.

As trovoadas secas podem, de facto, provocar incêndios. Aliás, de acordo com o site Live Science, são conhecidas por isso mesmo. O IPMA terá, portanto, a tarefa de provar cientificamente que trovoadas secas afetaram a região de Pedrógão Grande e que um raio caiu, de facto, na localidade de Escalos Fundeiros, o local específico onde começou o fogo. O IPMA recolhe informação sobre trovoadas, nomeadamente descargas elétricas, pelo que deverá ter competência para o fazer.

No entanto, há dados que não batem certo e há quem não acredite na tese da PJ, como alguns dos próprios habitantes daquela localidade. O Expresso encontrou a árvore rachada citada pela PJ, onde terá caído o raio, mas alguns moradores garantem que só escutaram o ribombar da trovoada já depois do incêndio lavrar na região.

Aliás, informação recolhida pelo Público a partir do próprio serviço de registo de descargas elétricas do IPMA, disponível na internet mostra que não houve descargas elétricas naquela localidade em específico, algo que Jorge Miranda, presidente da entidade, disse “não ser verdade”. Há muito que explicar.

Pergunta #2: O SIRESP

“Houve interrupção do funcionamento da rede SIRESP? Porquê, durante quanto tempo, se não funcionaram as suas próprias redundâncias e que impacto teve no planeamento, comando e execução das operações, como se estabeleceram ligações alternativas?” É a segunda pergunta do primeiro-ministro.

Mas antes de perceber quem deve responder à questão, convém perceber o que é concretamente o SIRESP. Trata-se de uma rede de comunicações eletrónicas independente da rede móvel usada nos telemóveis. São mais de 500 torres espalhadas pelo país que permitem às forças e serviços de segurança comunicarem via rádio (tipo walkie-talkies) em salas de comunicação próprias ou, numa situação de emergência, usar-se uma sala conjunta para as várias autoridades.

É por isso “um sistema único, baseado numa só infraestrutura, nacional, partilhado, que deve assegurar a satisfação das necessidades de comunicações das forças e serviços de emergência e de segurança, satisfazendo a intercomunicação e a interoperabilidade entre aquelas forças e serviços e, em caso de emergência, permitir a centralização do comando e da coordenação”, lê-se numa resolução do conselho de ministros datada de 8 de abril de 2003, que redefiniu as condições de instalação deste sistema.

Quem o usa? A resposta é longa, mas entre as entidades mais diretamente conhecidas pelo público está, claro, todo o setor militar, as várias entidades de polícia, as secretas, a Direção-Geral das Florestas, a Direção-Geral dos Serviços Prisionais e por aí em diante. Todas as comunicações funcionam em frequências muito altas, são encriptadas com uma tecnologia denominada TETRA e isso significa, em teoria, que só os terminais programados para reconhecer a forma do sinal poderão desencriptar o seu conteúdo — isto é, são confidenciais.

E quem a opera? A rede é gerida por uma PPP entre o ministério da Administração Interna e a empresa homónima, SIRESP S.A.. É a esta empresa que cabe gerir a infraestrutura da rede. Entre os acionistas estão a PT, a Galilei, a Motorola, a Esegur e a Datacomp, de acordo com a informação publicada no site da empresa. Será esta a primeira entidade a poder responder se houve ou não uma interrupção do serviço. Em segunda instância, um inquérito que abranja as forças de segurança e de proteção civil poderá fazer concluir se houve ou não uma interrupção do serviço.

Numa fase mais avançada da investigação, e se se confirmarem as falhas, ter-se-á de apurar o que esteve na origem das mesmas. Mas, em suma, a esta questão deverá responder o SIRESP e as autoridades que partilham o serviço, tais como a GNR e a Proteção Civil.

Pergunta #3: A estrada

“Porque não foi encerrada ao trânsito a estrada nacional, foi esta via indicada pelas autoridades como alternativa ao IC8 já encerrado e foram adotadas medidas de segurança à circulação nesta via?” É a terceira pergunta do primeiro-ministro.

Morreram mais de três dezenas de pessoas na estrada nacional 236-1, que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra. O troço, já conhecido como estrada da morte, era ladeado por floresta, o que levou a que rapidamente ficasse cercado pelas chamas. Era uma estrada aberta à circulação no momento da tragédia, o que motivou a pergunta do primeiro-ministro: porque estava aberta?

Não será fácil apurar responsabilidades, pelo que a inquérito terá de ser feito aos principais intervenientes no processo. Só conhecendo as versões de quem atuava no teatro de operações naquela altura permitirá apurar a cadeia de ações, ou falta dela, que levou a que aquela estrada permanecesse aberta quando foi alcançada pelas chamas.

Ana Paula Neves, vice-presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera, disse à Lusa no domingo que a maioria das vítimas seriam turistas que teriam ido visitar a praia fluvial das Rocas. Acredita-se que a falta de oxigénio, devido ao incêndio, poderá explicar o facto de alguns motores de automóveis terem falhado no momento da fuga do local, como relataram algumas testemunhas que conseguiram escapar.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história e às newsletters ECO Insider e Novo Normal.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Incêndio: Quem responde às três perguntas de Costa?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião