Pedrógão: Primeiro-ministro considera “chocante discussão sobre critérios estatísticos”

  • Cristina Oliveira da Silva e Tiago Varzim
  • 24 Julho 2017

"Qualquer vida humana tem um valor absoluto, as tragédias não se medem pelo número de vítimas", disse ainda António Costa. O Ministério Público confirmou a identificação de 64 vítimas.

O primeiro-ministro considera “chocante a discussão sobre critérios estatísticos” relativamente ao número de mortes resultantes do incêndio de Pedrógão Grande, “porque a dimensão daquela tragédia é algo inimaginável”. Já a ministra da Administração Interna garante que “não existe nenhuma lista secreta” de vítimas e mantém o número oficial: 64 mortos.

Os governantes reagiam assim a notícias recentes, que dão conta de números divergentes: o Expresso avançou no sábado que existe uma 65ª vítima, atropelada por um carro que fugiu [acesso pago]. Já o i diz que o número pode ser superior, apontando para a lista de uma empresária, que reúne mais de 80 nomes.

Numa declaração transmitida pela RTP3, António Costa começou por dizer que há um inquérito-crime a decorrer e alertou: “se alguém tem conhecimento de mais alguma vítima, esses dados devem ser obviamente reportados ao inquérito porque tudo deve ser esclarecido”.

“Os números que eu disponho são os números que têm sido públicos por parte das autoridades, se as autoridades vierem a identificar que há mais, elas serão mais”, afirmou o primeiro-ministro, salientando depois: “mas alguém acha que se as vítimas tivessem sido metade daquelas que são conhecidas, a tragédia era menor?” “Qualquer vida humana tem um valor absoluto, as tragédias não se medem pelo número de vítimas”, notou.

Aliás, Costa considera “até chocante a discussão sobre critérios estatísticos, porque a dimensão daquela tragédia é algo inimaginável, horrível” que “choca a todos”.

Também esta segunda-feira, a ministra da Administração Interna garantiu que “não existe nenhuma lista secreta”, apontando para os critérios de apuramento “muito objetivos”: “as pessoas que faleceram numa consequência desse incêndio, seja por inalação de fumos, seja por queimaduras, por exemplo”.

Questionada sobre a divergência de números, Constança Urbano de Sousa, em declarações emitidas pela SIC Notícias, começou por dizer que é preciso saber “se há essa divergência”, salientando que houve equipas multidisciplinares em todas as aldeias e “não houve notícia” de “mortes relacionadas com aquele incêndio”. Acrescentou ainda que a lista “consta de um processo judicial”, do Ministério Público, que o classificou “com segredo de justiça”. “Quem define os critérios” são “as autoridades públicas”, ou seja, o Ministério Público e a Polícia Judiciária, disse, voltando a apontar para 64 mortos.

Já quanto ao pagamento de indemnizações, a ministra salienta que não é o Governo que tem a lista de vítimas mas sim o Ministério Público, indicando depois que o Código do Processo Penal tem uma “norma que permite às seguradoras acedera essa lista para efeitos indemnizatórios”.

PGR confirma 64 vítimas identificadas

O Ministério Público confirmou esta segunda-feira que foram identificadas, até ao momento, 64 vítimas. O esclarecimento surge “face a notícias recentemente vindas a público relativas aos incêndios de Pedrógão Grande e ao respetivo número de vítimas”, explica a Procuradoria-Geral da República em comunicado. A PGR revela ainda que foi instaurado um inquérito distinto para investigar a morte de mais uma vítima por acidente de carro.

Contudo, apesar de confirmar o número de vítimas oficial que tinha sido divulgado há um mês, o Ministério Público diz estar atento ao que tem vindo a público na imprensa. “Todos os elementos ora vindos a público, designadamente através da comunicação social, serão objeto de análise e investigação“, lê-se no comunicado divulgado esta segunda-feira. A investigação está a ser coadjuvada pela diretoria de Coimbra da Polícia Judiciária.

Além disso, a PGR pede a todos os que tenham conhecimento de “quaisquer factos” relacionados com os incêndios de Pedrógão Grande para enviar a informação para o Ministério Público. O comunicado esclarece ainda que o inquérito mantém-se em segredo de justiça, mas que para efeitos de indemnização pode ser requerido o acesso aos autos.

Autarcas defendem divulgação da lista

Os municípios de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos entendem que a lista de vítimas do incêndio de junho deve ser divulgada para serenar as populações, enquanto o autarca de Pedrógão Grande apelou a que “os boateiros” sejam corridos.

“Para serenar as populações, se calhar não era desajustado que se tornasse público ou se compilasse o nome e a relação de todas as pessoas”, disse à agência Lusa o presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, Jorge Abreu, que referiu ainda não ter tido acesso à lista oficial de vítimas.

Também o autarca da Castanheira de Pera, Fernando Lopes, considerou que, “se calhar, o melhor é divulgar a lista” para acalmar as populações, visto que têm corrido várias listas e rumores de mais vítimas mortais nos concelhos mais afetados. Porém, Fernando Lopes recordou que os familiares das vítimas também poderão não estar “disponíveis para autorizar a divulgação”.

Já o presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, vincou que as autarquias têm a sua própria lista do conhecimento que têm das pessoas que faleceram. “Eventualmente, poderá aparecer um cadáver aqui ou acolá”, notou, citado pela Lusa, apesar de duvidar que tal tenha acontecido, visto que ninguém se dirigiu à Câmara “a reivindicar a morte ou desaparecimento de fosse quem fosse”.

(notícia atualizada às 15:16)

 

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