Os seis recados de Catarina Martins

Em entrevista ao Expresso, Catarina Martins diz não acreditar que se repita o acordo à esquerda. Preparada para formar Governo, alerta os eleitores para o que foram as maiorias absolutas do PS.

Catarina Martins, a coordenadora do Bloco de Esquerda, um dos partidos que dão apoia parlamentar ao Governo de António Costa adianta numa extensa entrevista ao jornal Expresso que o acordo à esquerda que existe “não é repetível”.

A coordenadora do Bloco de Esquerda não se compromete assim com novos acordos à esquerda para lá desta legislatura. Mas vejamos ponto por ponto o que defendeu Catarina Martins.

  • Acordo

Apesar de se dizer bastante satisfeita com o acordo estabelecido à esquerda (PS, BE e PCP), a coordenadora do BE diz agora que este “não é repetível”. “O acordo que existe tem a ver com uma conjuntura e uma relação de forças muito específicas, portanto não é repetível”. A conjuntura a que a líder bloquista se referia eram os anos da troika “absolutamente destruidores”. Para Catarina Martins, o objetivo do acordo era o de criar uma maioria para afastar a direita do poder e para que “não existisse a tentação no PS, que se percebe que tem protagonistas, força e espaço para um acordo à direita”. A coordenador do BE adianta mesmo que: “Face a perigos concretos, a esquerda deu suporte a uma outra solução, para travar o empobrecimento do país e para este começar a recuperar”. Apesar de afirmar que gosta “muito do acordo a três” porque, admite, é como tem mais força, reconhece que não é possível ter reuniões a três.

  • Maioria absoluta do PS

Admitindo estar preparada para participar no Governo, Catarina Martins diz estar “absolutamente convencida” de que uma maioria do PS seria um retrocesso. “Estou absolutamente convencida de que sim”, afirmou. Catarina Martins refere mesmo que: “As pessoas conhecem as maiorias absolutas do PS”. Questionada diretamente sobre se a atual experiência não teria mudado essa perceção, Catarina Martins respondeu: “As pessoas têm a perceção de que houve uma alteração política, que veem com simpatia, e percebem que foi feita porque o PS não teve maioria absoluta nem ganhou as eleições.”

  • Incêndio de Pedrógão

Acerca do trágico incêndio de junho em Pedrógão Grande, o Bloco defende que é preciso perceber o que aconteceu e o que falhou. “A nossa convicção é de que, sem prejuízo de poderem existir responsabilidades pessoais, que devem ser conhecidas e ter consequências, é preciso analisar o modelo de proteção civil”, disse. Para Catarina Martins “nada seria pior do que demitir uma ministra ou dois ministros e a seguir continuarmos com o mesmo modelo, sem corrigir nada, e com o mesmo desordenamento do território e a mesma ausência de política florestal“.

  • Autárquicas

A líder do Bloco de Esquerda diz que o objetivo do partido é ter mais votos e mais autarcas. Para Lisboa, a bloquista admite “convergência política” com Fernando Medina e deixa nas mãos dos lisboetas a possibilidade de formar “uma gerigonça autárquica”. Catarina Martins sublinha que cabe aos lisboetas dar expressão eleitoral ao Bloco para que possa repetir a nível municipal o que já existe no Estado Central. “Se o Bloco de Esquerda tiver força em Lisboa, para determinada linhas essenciais de programa, nomeadamente em torno da habitação e dos transportes, estou certa que haverá uma solução de governo da cidade bem melhor do que a que tem existido”, acrescentou. Um bom resultado nas autárquicas “eleger em Lisboa é seguramente importante e também no Porto”, referiu.

  • Folga financeira

Bloco de Esquerda e o primeiro-ministro, António Costa estão de lados opostos no que se refere à folga financeira. Costa diz que não há folga e o Bloco afirma o contrário. Para Catarina Martins, a questão tem a ver com opções políticas. Questionada sobre se estas divergências se mantém no Orçamento de Estado para 2018, Catarina Martins adianta que: “O PS não é de agora interiorizou o discurso de austeridade europeu. Mesmo quando compreende os resultados económicos positivos e fica contente com eles, acaba sempre a olhar para a economia da mesma posição”. Ainda assim, Catarina Martins acredita que o orçamento de Estado vai ser aprovado.

  • Grandes investimentos

O Bloco opõe-se à ideia de maioria de dois terços para aprovar grandes investimentos. Para Catarina Martins, “existe uma maioria capaz de discutir planos de investimento a longo prazo e discutir o que são os investimentos e infraestruturas essenciais para o país”. A líder do Bloco diz que a discussão deve ser feita “com um amplo debate público, mas não faz nenhum sentido ficar refém do voto da direita”. Quanto aos investimentos que o Bloco considera prioritários, Catarina elenca o aeroporto de Lisboa, e a ferrovia, que considera mesmo como o “grande investimento do futuro”.

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