BMW, TV e cervejas. Como em Angola se troca kwanzas por euros e dólares

  • ECO
  • 14 Setembro 2017

Trocar kwanzas em Angola é cada vez mais difícil após as sucessivas desvalorizações. Muitos vão aos países vizinhos e até a Portugal tentar vender bens e assim conseguir outras divisas.

Num contexto em que trocar kwanzas por euros ou dólares tem vindo a tornar-se cada vez mais difícil, os angolanos encontraram novas formas de aceder às divisas estrangeiras. A Bloomberg conta esta quinta-feira a história de Filipe Afonso, que comprou duas motas BMW em segunda mão, enviou-as para Portugal e vendeu-as por euros. À semelhança de Filipe, vários angolanos deslocam-se até à República Democrática Congo para vender bens como televisões, fraldas ou cerveja e mais facilmente aceder a moedas estrangeiras.

Já Juliol Lusol desloca-se todas as semanas de Luanda para Luvo. A viagem estende-se por cerca de 560 quilómetros, com destino a um mercado ao ar livre, perto da fronteira angolana com o Congo. “Eu não quero lucro”, afirma, citado pela mesma fonte. “Eu só quero dólares”. Como resposta ao fluxo de importações angolanas no país, o Governo congolês já colocou um travão na entrada de uma série de produtos angolanos, através de uma interdição de seis meses.

Vários bancos internacionais têm vindo a colocar um travão nas suas reservas de dólares no país, dadas as suas preocupações com lavagem de capitais no sistema bancário. A contribuir para o cenário, a Câmara de Comércio e Indústria Angola-China e responsáveis portugueses ligados ao setor da construção falam de milhares de trabalhadores chineses e portugueses a abandonar o país africano, com as dificuldades de acesso a divisas estrangeiras.

Angola é um país altamente dependente do petróleo e da importação de bens de consumo. Considerado o segundo maior produtor de “ouro negro” do OPEP, o país viu o seu crescimento económico estagnar e uma diminuição na entrada de divisas. Além disso, a economia angolana tem vindo a presenciar uma desvalorização do kwanza e uma inflação de 40% só este ano. O banco central angolano limitou o acesso a dólares no passado mês de novembro. A instituição financeira colocou restrições aos montantes disponíveis para os bancos comerciais que, por consequente, limitaram levantamentos em balcão. Nas ruas, as kinguilas debruçam-se com enormes dificuldades em processar trocas monetárias.

A desvalorização da moeda coloca as autoridades num impasse: por um lado, poderá impulsionar as exportações e atrair investimento, por outro, fazer escalar ainda mais os preços junto dos consumidores. Tiago Dionísio, analista da Eaglestone Advisory SA, fala à Bloomberg sobre rumores em torno de uma nova baixa do kwanza. No entanto, acredita que tal não acontecerá antes do final deste ano. “A desvalorização colocaria uma maior pressão aos preços para os consumidores. Acho que as autoridades continuarão a defender o kwanza à custa das reservas internacionais”.

A Moody’s referiu no final de agosto que o Governo recentemente tomado por João Lourenço não terá outra escolha senão proceder a uma depreciação do kwanza. A moeda de Angola tem rondado os 166 face ao dólar desde abril de 2016. A pressão da procura por moeda estrangeira, porém, tem feito a moeda angolana ascender a máximos 630 kwanzas face ao dólar em junho, no mercado negro. Trata-se de uma desvalorização de cerca de 60% face à valorização oficial. Embora o banco central angolano tenha autorizado uma desvalorização da moeda na ordem dos 40%, David Earnshaw, analista da BMI Research (Grupo Fitch), referiu esta semana que ainda assim a divisa está “sobrevalorizada”, esperando um programa mais “flexível” no próximo ano que permita uma desvalorização de mais 20% face ao dólar.

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