Ameaça de independência da Catalunha leva bolsa espanhola a cair mais de 2%. Faz disparar juros da dívida

O Ibex recua mais de 2%, para mínimos de março, perante a perspectiva de a Catalunha anunciar de forma unilateral a sua independência. Os receios dos investidores também fazem disparar os juros.

Está a ser um dia negro para a bolsa de Madrid. Numa sessão negativa para a generalidade das bolsas europeias, o índice de referência espanhol destaca-se pela negativa ao desvalorizar mais de 2%, para mínimos de março, com a banca sob forte pressão. Também na dívida, a perceção do risco agravou-se, com os investidores a temerem os efeitos negativos da declaração unilateral de independência por parte da Catalunha que poderá acontecer nos próximos dias.

Naquela que foi a sua primeira entrevista após o referendo independentista de domingo passado, em que o “Sim” à independência ganhou, Carles Puigdemont, presidente do governo regional da Catalunha (“Generalitat”), indicou que o governo regional catalão “vai agir no final desta semana ou no início da próxima”.

Estas declarações do responsável da Catalunha surgiram ainda antes de o rei de Espanha, Felipe VI, ter feito uma declaração institucional, transmitida pela televisão, em que acusou “determinadas autoridades” da Catalunha de “deslealdade” institucional e de terem uma “conduta irresponsável”, totalmente à margem do Direito e da Democracia.

Bolsa de Espanha em derrapagem

Fonte: Bloomberg | Valores em pontos

As palavras do rei não foram bem recebidas na Catalunha. E o agudizar da tensão está a fazer escalar os receios dos investidores, levando muitos a afastarem-se dos ativos de maior risco como as ações. Na Europa, o dia está a ser de quedas nos principais índices, com o Stoxx 600 a ceder 0,26%, mas a bolsa espanhola é a mais castigada. O Ibex-35, o índice de referência de Espanha, cai 2,42% para 10.009,4 pontos. Está em mínimos de março.

As quedas são transversais a todos os setores na bolsa espanhola, mas a banca é claramente a mais castigada pelos investidores. O CaixaBank, que detém o BPI, é o que mais perde. O banco catalão cai quase 6%, enquanto o Sabadell cede 5,8% e o Bankia perde 4,15%. O Santander está a deslizar 3%.

As quedas da banca são mais expressivas também devido ao impacto negativo que a eventual declaração de independência da Catalunha está a ter no mercado de dívida, com as obrigações espanholas a deslizarem. A taxa das obrigações a dez anos está a subir 3,5 pontos base para 1,758%, tendo chegado a 1,792% durante uma sessão em que as yield soberanas dos restantes países do euro estão praticamente estáveis.

O que temem os mercados?

O efeito devastador que o grito de independência catalão está a ter tanto na bolsa como no juros da dívida soberana espanhola são fáceis de perceber tendo em conta o impacto económico que daí pode resultar. Madrid antevê que a secessão leve a um colapso de 30% na economia catalã. A Catalunha é atualmente a mais próspera das regiões espanholas.

“O estabelecimento de uma fronteira resultaria em perda de emprego, rendimento e riqueza para todos, seja na Catalunha seja no resto da Espanha. Estas perdas seriam provocadas pelos obstáculos ao comércio, pelos problemas financeiros, pelas necessidades orçamentais do novo Estado”, afirmou o economista Alain Cuenca, da Universidade de Saragoça, à CNBC ainda antes de se saber que o “sim” à independência venceu na Catalunha.

E a dívida pública da Catalunha — que não é insignificante nos seus 72,2 mil milhões de euros — também iria provocar problemas. Muitos acreditam que poderá ter de ser assumida pelo Reino de Espanha, mas pode não ser bem assim, e a separação da dívida é imprevisível. “O problema é a transição”, continuou Cuenca. “Durante quanto tempo durariam os problemas financeiros? Quantos empregos, quantos investimentos, quantas operações comerciais seriam perdidas na transição?”.

Estas são apenas algumas das questões que os investidores têm neste momento em mente e que os está a colocar nervosos.

(Notícia atualizada às 12h14 com mais informação)

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