Luís Rosa: Ricardo Salgado “sacudiu a água do capote” no BES

  • Rita Atalaia
  • 23 Novembro 2017

No livro "A Conspiração dos Poderosos", o jornalista Luís Rosa revela três interrogatórios onde Salgado explica os segredos do "saco azul". Mas nunca assume a culpa pela derrocada do império GES/BES.

“A minha intenção foi colocar o leitor dentro da sala de interrogatório e perceber realmente como é que a justiça funciona.” Foi com esta premissa que Luís Rosa, jornalista do Observador, aceitou contar a queda do Dono Disto Tudo (Ricardo Salgado) em “A Conspiração dos Poderosos”, depois de vários artigos publicados no jornal digital desde 2015 sobre o Universo Grupo Espírito Santo (GES). O livro surge como uma oportunidade de “dar voz a Ricardo Salgado”, que explica em três interrogatórios os segredos do “saco azul” que lhe permitiu controlar tudo e todos… até ser apanhado. Apesar de nunca assumir a culpa.

Monte Branco, Universo Espírito Santo e Operação Marquês. É através dos interrogatórios nestas três operações que Ricardo Salgado revela como foi criado e financiado o “saco azul” do GES. “Há duas fases diferentes. Há uma fase em que o ‘saco azul’, como está descrito no livro, é criado com o nome de Espirito Santo Financial (ESF), depois muda-se o nome para Espirito Santo Enterprise (ESE) e, finalmente, tem um terceiro nome que é Enterprise Management Services”, revela Luís Rosa numa conversa com o ECO sobre a obra editada pela Esfera dos Livros. Um veículo que é usado inicialmente para pagar aos “membros da família, depois foi alargado a administradores que não eram membros da família e depois a altos funcionários do GES e do BES”.

“Quando a ESF é criada, a família Espírito Santo já regressou a Portugal. E, quando regressa, parte dos salários da família Espírito Santo, ou pelo menos dos membros que eram titulares de órgãos sociais no BES e na Tranquilidade, eram pagos pelo ‘saco azul’ do BES. Ainda antes da ESF havia outra offshore que se chamava ESI – BVI que tinha sede nas ilhas virgens britânicas”, diz o autor. Estes pagamentos à família, como explicou Salgado nos interrogatórios, aconteciam através deste veículo para “não sobrecarregarem a folha salarial do BES e da Tranquilidade”.

Depois, em 2004, a ESE desaparece do organograma do GES. Luís Rosa conta que falou com vários membros da família ES que disseram desconhecer a existência da sociedade. Teria supostamente sido encerrada. “É a partir daí que ela começa a ser secreta.”

São três períodos diferentes, três fases diferentes da vida de Ricardo Salgado. Mas o seu discurso não muda. É uma autêntica sacudidela de água do capote de forma permanente e absoluta que ele tem ao longo destes três diferentes interrogatórios.

Luís Rosa

Mas como é que Ricardo Salgado escondeu o “saco azul” durante tanto tempo? “Parece-me que Ricardo Salgado era seguido de forma cega pelos membros da família“, refere o autor. Aquilo que o banqueiro “determinava, propunha, a estratégica que construía era, regra geral, aprovado”, diz Luís Rosa. E o sentido crítico dos membros da família Espírito Santo apareceu “já muito perto da derrocada, quando já não havia nada a fazer”. Entre os altos funcionários, também ninguém ousava questionar Salgado. “Tinha um controlo total da situação. Portanto, do ponto de vista interno, foi bastante fácil esconder as coisas”, explica o jornalista.

Apesar de ter sido confrontado com vários factos documentados, Ricardo Salgado nunca assumiu a culpa. “São três períodos diferentes, três fases diferentes da vida de Ricardo Salgado. Mas o seu discurso não muda. É uma autêntica sacudidela de água do capote de forma permanente e absoluta que ele tem ao longo destes três diferentes interrogatórios“, nota Luís Rosa. “Existe, no mínimo incompetência, porque o BES conseguiu ser contaminado pelo buraco financeiro do GES”. Um buraco que é “obviamente responsabilidade da gestão liderada por Ricardo Salgado. Pelo menos isso deveria eventualmente assumir. Mas não o faz, o que não deixa de ser surpreendente”, diz o autor do livro.

Como Angola pesou na queda do império GES/BES

Quando estalou a crise em Portugal, a torneira da liquidez fechou para os bancos. Foi nesta altura que o GES procurou o apoio de Angola, através nomeadamente da Escom e do BES Angola. “Angola sempre teve um papel muito importante no GES, nomeadamente a partir do momento que o grupo começa a ter problemas financeiros”, explica Luís Rosa ao ECO.

"Angola sempre teve um papel muito importante no GES, nomeadamente a partir do momento que o grupo começa a ter problemas financeiros.”

Luís Rosa

“Quando começa a existir um buraco — e a alegada falsificação da contabilidade terá começado em 2008 ou 2009 — a necessidade de liquidez do GES começa a ser muito aguda e Angola tem um papel essencial nesse acesso à liquidez, seja pelos lucros e dividendos do BESA, seja pela importância que a Escom tinha no acesso à liquidez de imobiliário e diamantes”, refere o jornalista.

Uma relação que aproximou Ricardo Salgado de José Eduardo dos Santos. Em Angola, este acesso à liquidez implica “grandes relações com o poder político e há, de facto, uma relação íntima entre o GES e o regime de José Eduardo dos Santos”, denota o autor. Mas até este apoio foi perdido por Salgado quando a economia angolana entrou em crise e deixou de ceder liquidez como antes.

Luís Rosa, autor do livro “A Conspiração dos Poderosos”.João Porfírio

Um novo DDT? “Eles podem sempre aparecer”

Apesar de reconhecer que houve falhas claras na regulação, Luís Rosa afirma que por muito que o Banco de Portugal, Ministério Público e o Estado supervisionem e fiscalizem, “nunca conseguirão evitar a prática de irregularidades”. É, por isso, possível que volte a aparecer outro Dono Disto Tudo (DDT). “O capitalismo, que é um sistema económico que trouxe muitos progressos à humanidade, muito progresso económico e social a Portugal, é o melhor sistema económico que existe. Tem os seus defeitos, que derivam essencialmente da ganância das pessoas, que é um defeito que existirá sempre”.

"Não devemos ficar em silêncio e muitas vezes muitas pessoas ficaram em silêncio. É por isso que se constroem os donos disto tudo.”

Luís Rosa

Aos olhos do autor, o que não pode acontecer é remetermo-nos ao silêncio. Os jornalistas devem desempenhar o seu papel, relatando dentro das linhas editoriais dos jornais e do respeito pela lei. Já a sociedade civil deve manter atenta e com espírito crítico. “Não devemos ficar em silêncio e muitas vezes muitas pessoas ficaram em silêncio. É por isso que se constroem os Donos Disto Tudo”, remata.

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