Se os juros subirem, são os mais jovens e os mais pobres que saem mais penalizados

  • Margarida Peixoto
  • 15 Dezembro 2017

Os economistas do Banco de Portugal estimaram o impacto de uma subida dos juros de mercado de curto prazo, no rendimento disponível das famílias. Efeito é negativo.

Se os juros de mercado de curto prazo subirem, são os mais jovens e as famílias mais pobres que, em Portugal, verão o seu rendimento disponível encolher mais. A conclusão consta do Boletim Económico de dezembro, publicado esta sexta-feira pelo Banco de Portugal (BdP).

Este texto começa com um “se”. Mas na verdade deveria ser quase um “quando”. Os juros de mercado de curto prazo estão excecionalmente baixos, a beneficiar da política expansionista do Banco Central Europeu (BCE). E por isso é quase certo que deverão subir, à medida que o BCE foi retirando os estímulos do mercado — não se sabe é exatamente quando, nem com que intensidade.

Seja como for importa, por isso, antecipar que impactos é que a subida expectável dos juros de mercado poderá ter nas famílias em Portugal. Os economistas do BdP foram à procura da resposta e chegaram a algumas conclusões teóricas, mas que devem servir como mensagem para nortear a prática.

Segundo as contas do Banco — que assumiu um aumento de um ponto percentual dos juros nos mercados que se transmitiria a 100% tanto aos empréstimos com taxa variável detidos pelas famílias, como aos depósitos — o impacto é generalizadamente negativo. Mas não penaliza todos por igual: “O efeito no rendimento é negativo para as famílias que têm dívida com taxa variável, sobretudo as mais jovens e as dos quartis mais baixos do rendimento”.

O próximo gráfico mostra o impacto no rendimento disponível das famílias com dívida a taxa variável, segundo os quartis de rendimento. Verifica-se que, quanto mais pobres (primeiros quartis), maior é a quebra de rendimento disponível que deverão sentir. Isto acontece, em parte, por causa do “elevado valor médio da dívida [destas famílias] face ao dos depósitos”, explicam os economistas.

Impacto consoante o rendimento

Fonte: Banco de Portugal

Mas não é tudo: são as famílias mais jovens que sentirão mais os efeitos, como mostra o próximo gráfico. Neste caso, o impacto mais negativo nestas famílias explica-se pelo maior nível do seu endividamento.

Impacto consoante a idade

Fonte: Banco de Portugal

Impacto global para a economia será negativo

Mesmo considerando todas as famílias na análise — e não apenas as que têm dívidas com taxas de juro variáveis — o impacto no rendimento disponível continua a ser negativo. “O efeito agregado é de -0,7% do rendimento”, diz o Banco de Portugal, e “poderá ser mais acentuado no caso de uma transmissão apenas parcial do aumento das taxas de juro às taxas dos depósitos”.

A redução generalizada do rendimento disponível poderá refletir-se em menor consumo e, por essa via, num abrandamento da atividade económica. Contudo, os economistas do BdP frisam que “o efeito no consumo agregado deverá ser atenuado pelo facto de nas classes de menor rendimento, onde a propensão a consumir é mais elevada, a percentagem de famílias afetadas pelo aumento dos juros dos empréstimos ser reduzida.” Os números mostram que no primeiro quartil de rendimentos há 13% de famílias com dívida a taxa variável e que no segundo quartil o peso é de 23%.

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