Lisboa é das cidades do mundo mais pressionadas pelo turismo. Habitação a salvo, para já

No que toca à pressão do turismo sobre os serviços públicos, Lisboa está no grupo de Barcelona e Veneza. Segundo o WTTC, o risco de os habitantes serem expulsos existe, mas ainda não é um problema.

Habitantes empurrados para fora das cidades, experiência turística desvirtuada, infraestruturas sobrecarregadas, impactos negativos sobre a natureza e ameaças à herança cultural. Estes são, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês), os cinco grandes riscos que as cidades enfrentam quando a popularidade se transforma em sobrelotação. Lisboa está entre as cidades onde os serviços públicos estão mais pressionados, mas, de acordo com o WTTC, na habitação, a capital ainda está longe do impacto que se faz sentir nos principais destinos turísticos do mundo.

O estudo, intitulado “Lidar com o sucesso: gerir a sobrelotação nos destinos turísticos”, foi apresentado esta quarta-feira e teve por base a análise de quatro cidades: Barcelona (Espanha), Nova Iorque (Estados Unidos), Buenos Aires (Argentina) e Chongqing (China). Para além destas quatro, analisadas ao detalhe, o WTTC faz um diagnóstico de 68 cidades, desenhando uma escala para avaliar o risco de cada uma delas entrar em sobrecarga turística. E Lisboa está entre as mais pressionadas do mundo em vários aspetos.

O fator mais preocupante é o das infraestruturas. Entre as 68 cidades analisadas, Lisboa é uma das 14 onde o risco de sobrecarga das infraestruturas é mais elevado. Aqui, inclui-se todo o tipo de serviços públicos: transportes, saneamento público, comércio, fornecimento de energia ou estradas, por exemplo. No que toca à sobrecarga dos serviços públicos, Lisboa está no mesmo grupo de cidades como Barcelona, Cancún, Veneza, Roma ou Praga. E está a ser mais pressionada do que cidades como Paris, Rio de Janeiro, Nova Iorque ou Londres.

Já a habitação, que tem sido uma das principais preocupações dos lisboetas nos últimos anos, devido ao aumento acentuado de preços de compra e arrendamento de imóveis, não surge como uma das áreas onde o turismo tem maior impacto. Aqui, Lisboa está a meio da tabela. Ou seja: o risco de os habitantes serem empurrados da cidade pelo excesso de turismo existe, mas essa ainda não é uma realidade. Como termo comparação, Lisboa está no mesmo grupo de cidades como Pequim, Budapeste, Buenos Aires ou São Francisco. Na Europa, é até uma das cidades onde a habitação está ser menos pressionada pelo turismo.

A ameaça que o excesso de turismo representa para a herança cultural de Lisboa também começa a aumentar. Neste aspeto, Lisboa está na primeira metade da tabela onde este impacto mais se faz sentir. Apesar disso, a experiência dos turistas na cidade ainda não está desvirtuada; pelo menos, a julgar pelas críticas deixadas pelos turistas no portal TripAdvisor, o indicador que o WTTC teve em conta para avaliar este aspeto.

Portugal é um dos 10 países que recebem 20% de todo o turismo mundial

Parte destes impactos negativos deve-se à popularidade do destino Portugal. Segundo os dados do WTTC, Portugal está no grupo dos 20 países do mundo que recebem quase dois terços de todas as chegadas de turistas internacionais.

Este grupo divide-se em dois: os 10 destinos turísticos mais populares, encabeçados por França, que receberam 46% de todas as viagens internacionais; e o grupo dos 10 países seguintes, que receberam 21% dos turistas mundiais. É nesse segundo que se inclui Portugal.

Nos próximos anos, esta tendência vai não só manter-se, como acentuar-se. Em 2020, estima o WTTC, França continuará a ser o destino turístico mais popular do mundo e Portugal vai manter-se no segundo grupo de países que mais turistas recebem. Juntos, os 20 países mais populares do mundo vão receber mais turistas do que todo o resto do mundo.

Distribuir, regular, cobrar e limitar

Para os problemas identificados neste estudo, a WTTC encontra também soluções. Há cinco principais:

  • Distribuir turistas no tempo. Isto resolve dois problemas: o excesso de visitantes nas épocas altas e a sazonalidade, que deixa algumas cidades praticamente vazias no resto do ano. Uma solução, propõe o estudo, poderá ser definir um período máximo de visita, como acontece, por exemplo, nas ilhas Galápagos, onde cada cruzeiro só pode ficar um máximo de 14 noites.
  • Distribuir turistas geograficamente. O turismo tem tendência a concentrar-se em pontos geográficos específicos, o que coloca pressão sobre pequenas partes das cidades, deixando outras com grande capacidade para receber turistas. Desenvolver atrações turísticas em locais menos visitados ou promover rotas que incluam esses locais são soluções possíveis.
  • Ajustar o preço à oferta e procura. É bastante auto-explicativo: se um local tem poucos visitantes, não há razão para cobrar mais; se está sobrelotado de turistas, cobrar taxas e aumentar o preço das principais atrações são hipóteses.
  • Regular a oferta de alojamento. Esta ainda é uma solução pouco popular entre as autoridades locais, mas começa a ser implementada em vários locais. É o caso de Nova Iorque, onde o arrendamento de curto prazo foi banido. Também em Lisboa deverá ser implementada uma quota máxima para as unidades de alojamento local permitidas em cada freguesia.
  • Limitar o acesso ou as atividades. É uma medida de último recurso, que já começa a ser implementada em locais onde os residentes estão a ser excessivamente prejudicados pelos turistas. É o caso de Amesterdão proibiu a abertura de novas lojas direcionadas para o turismo, como lojas de souvenirs. Ou o de Roma, que proibiu o consumo de álcool na rua entre a meia-noite e as 7h00.

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