Em que é que Louçã e César das Neves concordam? Que há riscos de colapso evidentes

  • Margarida Peixoto
  • 30 Janeiro 2018

Os dois economistas, de pensamento ideológico bastante distinto, concordam que há riscos evidentes de um novo colapso. Mas isso não quer dizer que estejam de acordo em tudo.

Em que é que César das Neves e Francisco Louçã, dois economistas de ideologias completamente divergentes, estão de acordo? Que os riscos de um colapso económico são evidentes. Mas isto não implica que coincidam em cada um destes riscos. Esta terça-feira, na 2ª Conferência na Caixa – A crise financeira e a economia portuguesa: aprendemos as lições?, os dois economistas deixaram alertas para a economia nacional.

“As coisas estão tão más que estamos de acordo, tirando a heresia final”, ironizou João César das Neves, depois da intervenção de Francisco Louçã, que tinha terminado com a “heresia” de se achar sempre que “Deus escreve direito por linhas tortas.”

Os dois economistas destacaram a insuficiência do investimento, público e privado, atual que não chega, tampouco, para repor o capital que vai sendo amortizado. Ambos notaram fragilidades estruturais na economia nacional, mas divergiram no valor que atribuem a alguns dos desenvolvimentos recentes, como é o caso do boom do turismo. Se César das Neves aponta o crescimento deste setor como um dos poucos elementos diferenciadores, em termos estruturais, do crescimento português face ao período pré-crise, Francisco Louçã desconfia da sua capacidade para melhorar definitivamente as condições do país.

Não estamos a aprender as lições e estamos a repetir o imobiliário. Há uma novidade: o turismo.

João César das Neves

Economista

“Não estamos a aprender as lições e estamos a repetir o imobiliário. Há uma novidade: o turismo, que não estava cá e que parece relativamente sólida”, defendeu César das Neves. “Um país de turismo é um país sem valor acrescentado”, contrapôs, pouco depois, Francisco Louçã.

César das Neves argumentou também que o crescimento do PIB ainda fica aquém do que seria de esperar, dada a dimensão da recessão, que as finanças públicas estão frágeis (com uma herança pesadíssima da dívida) e que a produtividade e a competitividade estão aquém do necessário.

Um país de turismo é um país sem valor acrescentado.

Francisco Louçã

Economista

Já Francisco Louçã deu mais ênfase aos riscos internacionais por si mesmos e à forma como podem comprometer a economia portuguesa, nomeadamente o risco de uma bolha financeira internacional. “Temos todos os riscos para uma crise”, alertou o ex-líder do Bloco de Esquerda.

E enunciou-os: “O aumento das dívidas públicas, aumento dos balanços dos bancos centrais, a redução dos preços, em função da longa recessão que nos deixou muito próximos do perigo da deflação” e ainda “a não correspondência entre a disponibilização de liquidez e a disponibilidade para a concessão de crédito”.

Francisco Louçã defendeu que o euro é ele mesmo um risco, bem como a política monetária e o esgotamento da sua margem de manobra. “O euro é um dos fatores de risco para a nossa economia”, disse. “A política de liberalização da circulação de capitais é ela própria um fator de risco”, frisou.

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