Pedro Sánchez herda uma Espanha sem Orçamento e a crescer mais devagar

  • Juliana Nogueira Santos
  • 2 Junho 2018

Pedro Sánchez é o novo presidente do Governo espanhol. O seu maior presente vem de Rajoy: uma grande economia para governar. E em que estado chega?

Pedro Sánchez é agora o sétimo presidente da monarquia parlamentar.Lusa

A sentença do caso Gürtel veio ditar a sentença do Governo de Mariano Rajoy. Um dia após vários políticos terem sido acusados de envolvimento num esquema de corrupção que ajudou a financiar o partido de Mariano Rajoy, o Partido Popular (PP), o Partido Socialista Espanhol (PSOE) apresentou uma moção de censura no Congresso.

Com 180 votos a favor, 169 contra e uma abstenção, o Governo do PP foi afastado e a história escreveu-se. Já tinham sido apresentadas quatro moções de censuras desde que a monarquia parlamentar foi instituída, mas esta foi a primeira vez que foi aprovada. E foi a primeira vez que um líder da oposição passou, de um segundo para o outro, a ser presidente sem ter de consultar os espanhóis.

Pedro Sánchez, do PSOE, é agora o presidente do Governo espanhol. E por entre congratulações e motivos de orgulho, o presente maior vem de Rajoy: uma grande economia para governar. E em que estado chega? Com um ritmo de abrandamento e o orçamento numa encruzilhada.

Um Orçamento pendurado

A dois meses da entrada em vigor e sem uma maioria de apoio no Parlamento, Mariano Rajoy conseguiu que o Orçamento do Estado para 2018, que veio a ser o último do seu mandato, passasse na câmara baixa e seguisse caminho para o Senado, onde o seu partido tem a maioria.

Neste, Cristóbal Montoro, ministro das Finanças, quis aliviar a pressão que sobrecarregou os espanhóis durante os anos de recessão económica, com as pensões a aumentarem pelo menos 0,25%, os salários dos funcionários públicos a avançarem 1,5% e um pacote de investimento público que ascende aos 8,48 mil milhões de euros.

As propostas do Governo de Rajoy estão agora numa encruzilhada, estando ainda pendentes de aprovação do Senado. Com a mudança de Governo, e ainda sem se saber quem vai ocupar o lugar deixado vago por Montoro, os planos para o Orçamento podem seguir quatro cenários: a aprovação e a consequente entrada em vigor, o regresso ao Congresso — caso o PP queira mudar algo –, o veto dos populares — que iria tirar o tapete dos pés do novo Governo –, ou o veto dos socialistas.

Do lado do PSOE, Sánchez já prometeu que o último cenário não está em causa, invocando a estabilidade política e o “desafio” de cumprir aquilo que foi proposto pela oposição. “O Governo que surgirá terá a prioridade de cumprir os compromissos europeus, manter o Orçamento de 2018 e apresentar o de 2019 com tempo e forma”, afirmou Sánchez antes de ser conhecido o resultado da moção de censura.

Depois de os deputados terem votado, este discurso fez eco em Bruxelas. Jean-Claude Juncker deu os parabéns ao socialista e afirmou estar à espera que o primeiro-ministro espanhol continue a contribuir para uma União Europeia “mais unida e mais justa”, tendo traçado logo à partida uma linha intransponível: a da aprovação do orçamento.

Ainda que a incerteza ronde as paredes do Palácio da Moncloa, nos mercados os investidores estão quase certos que não vai acontecer nenhuma viragem neste processo. Numa nota de research desta sexta-feira, o UBS disse que “Sánchez reiterou o compromisso com a ortodoxia europeia e o controlo orçamental em Espanha, bem como o seu plano inclui a aceitação do atual orçamento para 2018″.

O banco de investimento deixou ainda espaço para a possibilidade de o socialista ser mais “expansivo em termos de gastos”, mas considerou ainda que não há muita margem para tal, visto que “as tentativas para reverter reformas poderão não encontrar maioria no Parlamento”. Desta forma, a notícia do novo Governo também foi recebida de braços abertos no principal índice bolsista espanhol, que recuperou do seu pior mês desde 2012.

Uma economia a abrandar

Já esta semana, a OCDE expressou-se acerca da saúde da economia espanhola, prevendo um abrandamento na economia. Se no primeiro trimestre deste ano o PIB cresceu 0,7%, mantendo o ritmo dos dois trimestres anteriores, a organização liderada por José Ángel Gurría prevê que Espanha feche o ano de 2018 com a economia a avançar 2,8%, menos 0,3 pontos percentuais do que no ano anterior.

No ano de 2019 o travão vai ainda mais a fundo, com o crescimento da economia a fixar-se nos 2,4%. “O consumo privado irá desacelerar à medida que a criação de emprego também fica mais moderada, mais continuará a ser o maior motor da economia”, pode ler-se no relatório da OCDE. “O investimento privado irá também acalmar gradualmente.”

Um dos grandes problemas concentra-se ainda no setor do emprego, onde a taxa de desemprego ainda ronda os dois dígitos. A OCDE prevê que esta atinja os 13,8% em 2019, mas deixa um alerta: se as oportunidades de emprego não forem criadas e os desempregados não tenham ajuda do Estado para voltar a trabalhar este valor não será atingido.

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