Banca ignora alertas do facilitismo do Banco de Portugal. Crédito às famílias continua a bater recordes

No final de junho, o total dos empréstimos às famílias ascendia a mais de 116 mil milhões de euros. É a fasquia mais elevada desde maio do ano passado, sustentada no aumento do crédito ao consumo.

Após sete anos marcados por consecutivas quedas, 2018 está a ser marcado por alguma recuperação do crédito às famílias. Em junho, o stock dos empréstimos a este segmento atingiu máximos de mais de um ano, mostram dados do Banco Central Europeu (BCE). O aumento do crédito ao consumo suporta esse crescimento.

De acordo com estatísticas divulgadas nesta quarta-feira pela entidade liderada por Mario Draghi, em junho, o total do crédito à responsabilidade das famílias portuguesas fixou-se nos 116.043 milhões de euros. Trata-se do valor mais elevado desde maio do ano passado, ocasião em que ascendia a 116.048 milhões de euros. Entre maio e junho, o aumento foi de 108 milhões de euros.

Este máximo acontece após uma primeira metade do ano marcada pela recuperação dos níveis do crédito às famílias. Junho foi o quinto mês consecutivo em que o stock dos empréstimos a este segmento cresceu. Esta tendência permitiu elevar para 331 milhões de euros o crescimento do stock de crédito aos particulares registado na primeira metade deste ano, contrariando a diminuição observada nos sete anos anteriores.

Stock do crédito às famílias em máximos

Fonte: BCE

Estes números resultam da nova concessão de crédito que está, assim, a ser suficiente para compensar os empréstimos que entretanto vão vencendo. Tratar-se-á de um sinal de que os alertas do Banco de Portugal relativamente ao facilitismo na concessão de crédito estão a ser ignorados pela banca que continua com a “torneira do crédito” aberta.

Há mais de um ano que começaram a surgir os alertas por parte da entidade liderada por Carlos Costa de que os bancos deveriam fazer uma melhor avaliação do risco no que respeita à concessão de crédito de modo a evitar uma repetição dos erros passados. O alerta foi deixado no Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal divulgado em junho do ano passado. E tem vindo a ser reiterado ao longo do tempo. Justificou mesmo uma recomendação por parte do banco central português aos bancos no sentido de implementarem três tipos de limites na concessão de crédito. A medida entrou em vigor no início de julho.

Por outro lado, o aumento do crédito poderá ser interpretado como um sinal de que a política monetária do BCE que visa incentivar os bancos a injetar dinheiro na economia está a funcionar.

Consumo puxa pelo crédito às famílias

O crédito ao consumo é o principal responsável pela recente recuperação dos empréstimos às famílias. Em junho, este segmento de financiamento “engordou” em 137 milhões de euros, com o stock a ascender a 14.614 milhões de euros. Ou seja, o montante mais elevado em mais de seis anos. Seria necessário recuar até fevereiro de 2012 para assistir a uma quantia mais elevada.

Há oito meses consecutivos que o saldo dos empréstimos para consumo aumenta, suportado pelos novos montantes concedidos. Em maio foram dados 429 milhões de euros em crédito ao consumo pelos bancos, o que corresponde ao montante mensal mais elevado desde junho de 2006, elevando para 1.922 milhões de euros o total da concessão com este fim no acumulado do ano.

No que respeita ao crédito à habitação, a nova concessão também não para de aumentar. Nos primeiros cinco meses do ano, o valor disponibilizado pelos bancos com esse fim ultrapassou a fasquia dos 3,5 mil milhões de euros. Face ao mesmo período do ano passado, este montante corresponde a um aumento de 23%.

Esse aumento não está contudo a ser suficiente para compensar aqueles empréstimos que entretanto vão vencendo. Apesar de um aumento de 23 milhões no saldo dos empréstimos para a compra de casa registado em maio, no acumulado do ano a tendência continua a ser de queda. Entre o início de janeiro e o fim de maio, a redução foi de 353 milhões, com o stock a fixar-se nos 93.741 milhões de euros. Ainda assim a redução verificada no primeiro semestre é a mais baixa desde 2011.

Já o stock dos empréstimos às famílias com outros fins recuaram 52 milhões em junho, para se fixar em 7.688 milhões de euros. Mas o balanço do primeiro semestre é positivo, com esta finalidade de crédito a aumentar em 18 milhões de euros.

Depósitos aceleram para novo recorde em junho

No lado dos depósitos, os dados do BCE apontam para um novo recorde do montante total depositado pelas famílias portuguesas nos bancos. Em junho, este ascendia a 146.376 milhões de euros, valor a que nunca se assistiu tendo em conta o histórico de 15 anos do BCE.

A este novo recorde não terão sido alheios os pagamentos de subsídios de férias e o reembolso do IRS. Só em maio e junho, o stock dos depósitos cresceu em quase três mil milhões de euros. Mais precisamente 2.973 milhões.

Estes montantes permitem elevar para 3.657 milhões de euros, o crescimento do saldo dos depósitos das famílias só na primeira metade deste ano. Seria necessário recuar o primeiro semestre de 2011 para assistir a um valor superior.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Banca ignora alertas do facilitismo do Banco de Portugal. Crédito às famílias continua a bater recordes

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião