Diplomacia portuguesa está a acompanhar caso Navigator. Papeleira perdeu 139 milhões desde o início da semana

"O Governo e a diplomacia portuguesa estão a acompanhar" o caso da Navigator, empresa confrontada com a imposição de tarifas de 37,34% às suas vendas de papel para os EUA.

Num momento em que todos os países se queixam das ameaças, das tarifas, taxas e retórica protecionista da Administração de Donald Trump, Portugal não é exceção. A empresa de papel Navigator foi confrontada com a decisão norte-americana de impor tarifas de 37,34% às importações de papel. Um anúncio que apanhou a empresa de surpresa já que se tratou de um revés e surge depois do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e Donald Trump terem chegado a acordo para travar a escalada tarifária que estava a afetar as exportações de ambos os lados do Atlântico.

“Depois de ter sido informada pelas autoridades norte-americanas, em abril deste ano, que a taxa antidumping provisória a aplicar retroativamente nas vendas de papel para os Estados Unidos, para o período compreendido entre agosto de 2015 e fevereiro de 2017, seria de 0%, foi notificada pelo United States Department of Commerce (Departamento de Comércio dos Estados Unidos da América) que a taxa final sobre vendas realizadas durante esse período seria de 37,34%”, relata a Navigator num comunicado enviado ao mercado na noite de sexta feira.

Na nota ao mercado, a empresa explica que o processo em causa teve início em 2015, quando foi determinada uma taxa de depósito provisória de 29,53%, tendo em conta uma avaliação preliminar. “Na avaliação final, de janeiro de 2016, a taxa foi reduzida para 7,8% pela correção de um erro administrativo, sendo que essa taxa esteve em vigor até à presente data”, assinala a empresa.

“Tendo em consideração que as autoridades norte-americanas não solicitaram informações adicionais nem se verificaram quaisquer alterações de circunstâncias, acreditamos que esta decisão reflete uma mudança intencional dos pressupostos assumidos pelo Departamento de Comércio com o objetivo de aumentar a taxa final sobre vendas de papel Navigator para os Estados Unidos, apesar de a sociedade ter sempre colaborado com as autoridades americanas”, acrescenta a Navigator que considera a nova taxa terá um impacto de cerca de 66 milhões de euros no EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e de 45 milhões de euros nos lucros líquidos deste ano.

Na sequência da notícia, as ações da papeleira perderam 650 milhões de euros em duas horas, tendo chegado a cair 18% em bolsa. Desde então a empresa não pára de ser castigada em bolsa — à semelhança das outras papeleiras. Esta tarde de quarta-feira a Navigator está a perder 4,94% a negociar nos 4,2740 euros por ação. De acordo com os cálculos do ECO, desde segunda-feira a empresa perdeu 139,09 milhões de euros em bolsa.

A Semapa, que tem 70% do capital da Navigator, cai 2,06% (negoceia nos 18,06 euros por ação) e a Altri está a perder 3,96%, negociando a 8,23 euros por ação. Por comparação, a Finlandesa Stora Enso também está a cair 1,8% com as ações a negociar nos 13,91 euros.

O ECO questionou o Ministério dos Negócios Estrangeiros se o Governo português está a tomar alguma diligência diplomática por causa das tarifas e se, neste caso, estaria em causa uma “taxa política”, tal como a Administração Trump está a impor à Turquia. Fonte oficial do gabinete de Augusto Santos Silva garantiu ao ECO que “o Governo e a diplomacia portuguesa estão a acompanhar este caso”. Mas, como “esta questão é dirigida a uma empresa em particular”, “qualquer extrapolação é indevida neste momento”.

O Governo e a diplomacia portuguesa estão a acompanhar este caso. Esta questão é dirigida a uma empresa em particular e, como tal, qualquer extrapolação é indevida neste momento.

Fonte oficial do MNE

“A Administração Trump fez uma opção de política comercial na qual Portugal não se revê”, sublinhou ao ECO o secretário de Estado da Internacionalização, acrescentando que a expectativa de Portugal é que, a prazo, se possam normalizar as relações entre a União Europeia e os Estados, porque isso seria “vantajoso para ambos os lados do Atlântico”.

Eurico Brilhante Dias considera que “não há sinal que estas tarifas sejam dirigidas a Portugal”, até porque há outros países europeus que também exportam muito papel para os Estados Unidos, como por exemplo a Finlândia. No entanto, o responsável não quis comentar a decisão da Administração Trump, embora tenha reconhecido que “é uma decisão lesiva dos interesses não só portugueses e que está em linha com o tipo de decisões políticas que Portugal preferia que não tivessem ocorrido“.

O ECO questionou ainda a AICEP sobre o caso, mas a agência para o investimento e comércio externo preferiu não comentar.

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