Grécia: 3.000 dias, três resgates e 300 mil milhões depois. À terceira será de vez?

Termina hoje o calvário grego. Oito anos depois do primeiro pedido de ajuda, a Grécia volta mandar nos seus destinos. Economia está a recuperar, mas dívida deixa Atenas e investidores em alerta.

“Estamos diante de uma nova Odisseia”. A 23 de abril de 2010, George Papandreou anunciava que a Grécia não tinha resistido à pressão dos mercados e não restava outra alternativa senão pedir ajuda financeira internacional à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), atirando o país para a incerteza. O então primeiro-ministro grego falava a partir da ilha de Kastellorizo. Mais de 3.000 dias, três regastes e 300 mil milhões de euros depois, há esta segunda-feira uma cerimónia simbólica naquela ilha pitoresca ao largo da costa turca para celebrar o fim de uma crise sem precedentes na democracia mais antiga do mundo que deixou a Zona Euro à beira do colapso. Findo o terceiro resgate, os gregos passam a andar pelo seu próprio pé a partir de hoje.

Apesar das celebrações, avizinham-se tempos desafiantes em Atenas. A economia está a crescer após um longo período de recessão e o Governo de Alexis Tsipras consegue apresentar excedentes orçamentais que têm contido a escalada da dívida pública acima dos 180% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas o endividamento público continua tão elevado que deixa o país sem grande margem de manobra. Assim como continua elevado o desemprego: um em cada cinco gregos está sem emprego, o maior dos flagelos sociais que a Grécia herda dos resgates.

Longe da contestação nas ruas de outros tempos, a Grécia prepara-se agora para uma transição pós-programas suave, assim esperam os economistas do Commerzbank. Mas não se vai livrar de perigos no futuro.

Para já, os investidores parecem novamente dispostos a emprestar dinheiro ao país a um preço aceitável. Os juros gregos na maturidade a 10 anos rondam os 4,322%, bem longe dos 40% observados em 2012, aquando do perdão de dívida à Grécia no valor de mais de 100 mil milhões de euros envolvendo apenas os investidores privados, bancos portugueses incluídos.

Por outro lado, a tranche final de 15 mil milhões de euros vai permitir ao Governo dispor de uma almofada financeira relativamente confortável, de cerca de 20 mil milhões de euros. “Será o suficiente para fazer face ao serviço da dívida até meados de 2020”, estima o banco alemão.

Ainda assim, os próximos anos vão ser um verdadeiro teste à capacidade do país. Para o pós-resgate, a Grécia comprometeu-se a produzir excedentes primários de 3,5% do PIB até 2022, um feito alcançado por poucos países nas últimas cinco décadas. Até 2060, terá de apresentar excedentes de 2,2% até 2060. Demasiada ambição?

“Não é apenas do FMI que considera esta meta irrealista. Também agências de rating duvidam que a Grécia seja capaz de pagar a sua dívida numa perspetiva de longo prazo”, nota o Commerzbank.

Em 2011, gregos manifestavam-se contra as primeiras medidas de austeridade no país no âmbito da assistência internacional.Simela Pantzartze/EPA 21 junho 2011

“Último ato do drama”

Reclamar novamente a soberania do país será o “último ato do drama” para a Grécia, sublinhava o Atenas, após a última tranche da ajuda ter obtido luz verde dos parceiros europeus. “Agora podemos virar para uma nova página de progresso, justiça e crescimento”, frisava ainda.

Para trás fica uma economia que contraiu 26% durante os últimos anos e as perspetivas apontam agora para um crescimento de 2% este ano e 2,4% no próximo, o suficiente para a União Europeia falar numa história de sucesso. “Sem a ajuda europeia, a Grécia teria colapsado e iria estar num profundo caos político e económico durante décadas”, assinalou o comissário para os Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici, num artigo de opinião num jornal alemão.

Na verdade, o fim do resgate a Atenas significa também o fim uma das maiores crises financeiras no Velho Continente. Desde 2010, mais quatro países além da Grécia sucumbiram ao aperto dos investidores, no que ficará na história como as crises das dívidas soberanas na Zona Euro. A Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre também pediram ajuda financeira internacional, embora cada pacote de assistência tivesse particularidades e impactos diferentes em cada país. Se no caso irlandês, espanhol e cipriota o que estava em causa era sobretudo sobrevivência dos bancos, a situação portuguesa comparava-se mais à tragédia grega. Por várias vezes ouvimos os responsáveis portugueses dizerem que “Portugal não é a Grécia”. Por alguma razão.

Foi também durante este período que mais se especulou sobre a continuidade do projeto da moeda única como o conhecemos desde sempre. A crise levou Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), a proferir as famosas palavras de redenção: “Dentro do nosso mandato, o BCE está pronto a fazer tudo o que for preciso para preservar o euro. E, acreditem em mim, será suficiente”. Foi num discurso em Londres, a 26 de julho de 2012, que o italiano começou a reescrever a história na Zona Euro. Uma história que teve sobretudo epicentro em Atenas.

Tal como em Portugal, também na Grécia a palavra troika entrou depressa no vocabulário da população, mas não pelas melhores razões. Rapidamente os credores oficiais passaram a ser o inimigo comum de várias franjas da sociedade.

Por várias vezes, os gregos manifestaram-se nas ruas contra as medidas de austeridade, incluindo cortes nos rendimentos e aumento dos impostos, com greves, protestos e violência à mistura. Os momentos de tensão com a polícia colocaram a praça Syntagma, em Atenas, nos jornais e televisões de todo o mundo.

“Keep calm and go to hell”: assim era recebida a troika em Atenas, num cartaz de um grego durante o discurso Alexis Tsipras, após a vitória nas eleições de janeiro de 2015.Orestis Panagioutou/EPA 25 janeiro 2015

Num momento de grande convulsão social, o Syriza ascendeu ao poder em janeiro de 2015, conquistando a maioria no Parlamento grego, com a promessa de fazer finca-pé às exigências da Europa e virar a página da austeridade. Uma luta que cá em Portugal se sentiu de forma particular. Foi pelo apoio incondicional da União Europeia à Grécia que o ministro das Finanças Yannis Varoufakis batalhou em Bruxelas, emergindo como um dos protagonistas do movimento anti-austeridade. O economista grego travou acesos combates com os seus pares europeus, sobretudo com o alemão Wolfgang Schäuble e o então presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem, em intermináveis reuniões noturnas em Bruxelas.

Conforme o próprio relatou no seu blogue sobre um desses encontros: “A reunião do Eurogrupo de 27 de junho de 2015 não ficará gravada na história da Europa como um momento de orgulho. (…) A própria ideia de um governo consultar o seu povo sobre uma proposta problemática apresentada pelas instituições era tratada com incompreensão e muitas vezes com desdém, perto do desprezo. Eu fui questionado: ‘Como espera que pessoas comuns entendam estas questões complexas?’. De facto, a democracia não teve um bom dia na reunião do Eurogrupo de ontem“.

O impasse em Bruxelas a propósito de uma nova ajuda à Grécia deixou novamente o país numa situação limite em julho de 2015. O Governo quis auscultar a população sobre as condições que vinham associadas ao novo empréstimo. Quando foram às urnas, os gregos foram claros e disseram ‘não’ no referendo, intensificando a crise na Zona Euro. Tudo se precipitou. Na iminência de o Estado entrar em falência e de o país abandonar a moeda única, o Governo apresentou a sua demissão, convocou eleições antecipadas. Tsipras voltariam a sair vitorioso com nova maioria. Legitimado, aceitou as condições do novo resgate. Para Varoufakis, já dispensado do novo elenco governativo, foi a “legalização da capitulação” da Grécia.

Com eleições agendadas para setembro do próximo ano, Tsipras já não granjeia tanta popularidade como quando foi eleito pela primeira vez, com a melhoria da economia ainda longe de se refletir na vida de muitos gregos.

As sondagens colocam o Syriza com uma desvantagem de dez pontos face aos conservadores da Nova Democracia e o partido vai querer recuperar terreno político acenando com a bandeira do fim da presença da troika em Atenas. Há quem veja, por isso, um Governo muito menos disposto a reformar a partir de agora. E mais dificuldades para a Grécia se manter num rumo estável.

Alexis Tsipras e Yannis Varoufakis, primeiro-ministros e ministro das Finanças da Grécia: a dupla não permaneceu muito tempo no Governo, após braço-de-ferro com parceiros europeus em julho de 2015.Orestis Panagiotou/EPA

Sobretudo num momento em que Itália parece encaminhar-se para o olho do furacão dos mercados. A Economist escrevia há dias que uma “crise em Itália, uma economia muito maior e com um pesado fardo da dívida, seria um teste severo e, atravessando-se na miséria da Grécia, fatal” para os gregos.

O Commerzbank alerta para as “fundações instáveis” que suportam a retoma económica helénica, estimulada sobretudo pela procura externa, para os quais contribuíram fatores como o boom do turismo, a depreciação do euro (que fomentou a competitividade das exportações dos Estados-membros) e empresas muito mais orientadas para as exportações, num ajustamento em tudo semelhante com o português. “Contudo, o estímulo do comércio internacional vai possivelmente diminuir”, avisa o banco alemão.

“Outro risco é a evolução das taxas de juro”, acrescentam os analistas do banco. “Se subirem significativamente, o fardo com juros vai crescer bastante no longo prazo. Cerca de metade da dívida grega tem taxa de juro variável. Esta foi uma das razões pelas quais os ministros das Finanças vão examinar a necessidade de um novo alívio na dívida para assegurar a sua sustentabilidade”, destacam. E de um novo resgate, se à terceira ainda não for de vez.

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