José Neves e outras 10 ameaças para a Farfetch

Fundador, CEO e membro do board da Farfetch, o português é um dos fatores de risco para a empresa. Conheça alguns dos assinalados no documento de preparação para o IPO.

José Neves, fundador, CEO e membro do board da Farfetch, é considerado pela empresa um risco para… a própria empresa. De acordo com os documentos entregues pela Farfetch ao regulador norte-americano, em preparação para o IPO que deverá acontecer ainda este ano, o português é um entre os vários riscos apontados pela empresa para os potenciais investidores.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

“O nosso CEO, José Neves, tem uma influência considerável em muitas questões da empresa, sobretudo por ser detentor da empresa. A nossa estrutura de votação dupla [Classe A e Classe B] vai influenciar a sua [dos acionistas] capacidade de influenciar assuntos de gestão e pode desencorajar outros de procurarem quaisquer mudanças no controlo que os donos de ações da nossa Classe A possam ver como benéficas”, assume a empresa, sublinhando ainda o papel do fundador na génese, construção e crescimento da Farfetch.

“Dependemos de pessoal com elevadas capacidades, incluindo profissionais de gestão seniores e de tecnologia, e se não formos capazes de reter ou motivar colaboradores-chave ou contratar, manter e motivar trabalhadores qualificados, o nosso negócio poderá sofrer”, explica a Farfetch no documento. Assim, a empresa considera que o sucesso dependeu, e o futuro depende, dos esforços e talentos da área da gestão do negócio, “particularmente de José Neves, nosso fundador e CEO“. “O nosso sucesso futuro depende de continuarmos a atrair, motivar e reter colaboradores altamente qualificados”, acrescenta a empresa no documento.

Com 3.009 trabalhadores em todo o mundo, em junho de 2018, 37% do capital humano da Farfetch trabalha na área tecnológica. Por isso, o futuro depende também grandemente de a empresa continuar a conseguir recrutar e reter talento “incluindo engenheiros de software, cientistas de dados” e outros profissionais tech, “a chave para desenhar, manter e criar código e algoritmos necessários” para o negócio.

Além dos recursos humanos, a empresa destaca outros riscos no negócio e da indústria do luxo, que passam pela cultura da empresa, fatores económicos gerais e desastres naturais.

Resistência

O sucesso da Farfetch depende, como qualquer outro, da evolução do mercado. De acordo com a empresa, a resistência dos clientes às compras de bens de luxo online podem condicionar o crescimento da empresa e, representar, por isso, um risco ao crescimento da Farfetch.

Receita

No documento, a empresa admite que outro dos riscos relaciona-se com as metas de crescimento e de receita, que poderá não ser suficiente para gerar cash flow positivo para tornar a empresa sustentável. “Não podemos assegurar que conseguiremos gerar receita suficiente para cobrir os custos de manutenção da plataforma e continuar a fazer crescer o negócio”. O unicórnio fundado pelo português José Neves registou prejuízos de 68 milhões de dólares no primeiro semestre deste ano e já avisou que, depois da entrada em bolsa, não pretende pagar dividendos.

A gestão do crescimento pode ser outro fator de risco, considera a empresa. “Podemos não ser capazes de gerir o crescimento efetivamente, assim como um desenvolvimento demasiado rápido poderá afetar a cultura da empresa”, assinala o documento.

Parceiros

Outra das salvaguardas feitas pela empresa é a evolução do mercado dos parceiros — a Farfetch vende mais de 3.200 marcas de luxo online, através do seu marketplace. “Estamos dependentes do número de players de retalho e marcas para suportar os produtos disponíveis na nossa plataforma. (…) Não podemos garantir que estes retalhistas e estas marcas vão sempre escolher o nosso marketplace para vender os seus produtos”, assinala a Farfetch, sublinhando que normalmente os contratos feitos com as marcas com que a empresa trabalha são de um ano de duração. Outro dos alertas respeitantes aos parceiros da empresa é o preço, definido pelas marcas, a que os produtos são disponibilizados aos clientes. Estes valores, acredita a Farfetch, podem ser “adversos” ao negócio.

Flutuação do dólar

Outro dos riscos que podem ter impacto na evolução do negócio da empresa e, consequentemente, repercussões nos investidores, é o dólar. O negócio da Farfetch, assim como toda a informação financeira ligada à empresa é apresentada em dólares, moeda que difere da originalmente usada nas diferentes subsidiárias do grupo. “Ao nível das subsidiárias, estamos também expostos a riscos de câmbio estrangeiros porque temos receitas e despesas em várias moedas estrangeiras”, explica a Farfetch.

Tecnologia

Por trabalhar num setor tecnológico e altamente sofisticado, a Farfetch entende que a tecnologia é outro fator que pode ser considerado de risco no processo de abertura do capital a novos investidores. “Dependemos do uso de tecnologias e sistemas sofisticados, incluindo tecnologia e sistemas usados para websites e apps, atenção ao consumidor, comunicações, deteção de fraude”, entre outros, assume a empresa. E, por isso, o futuro da Farfetch depende “na nossa habilidade de adaptar os nossos serviços e infraestruturas para envolver rapidamente tendências e necessidades que melhorem a performance da plataforma”. Só que estes desenvolvimentos, considera a empresa, podem tornar a vida mais fácil, também aos concorrentes.

O facto de alguns dos servidores e serviços da empresa estarem também na mão de fornecedores (terceiros) pode apresentar riscos para os utilizadores, coisa que já aconteceu no passado.

Segurança

A Farfetch assinala também que as questões de segurança podem ser outra das menos-valias para os investidores potenciais na empresa. De acordo com o documento apresentado para a preparação para o IPO, “as nossas falhas ou as falhas de terceiros para proteger os nossos sites, redes e sistemas contra questões de segurança ou, por outro lado, para proteger a nossa informação confidencial, pode ter danos na nossa reputação, e na marca e resultados”.

Política

“Estamos sujeitos a regulação governamental e outras obrigações legais relacionadas com a privacidade, proteção de dados e segurança de informação”, adianta a empresa. Por isso, mudanças legislativas relacionadas com todos estes temas são outra das salvaguardas ao crescimento da empresa. “Reunimos informação que identifica pessoalmente os nossos consumidores e clientes potenciais. E usamos essa informação para fornecer serviços e produtos relevantes para os nossos clientes, para suportar, expandir e fazer crescer o nosso negócio, e para desenhar os esforços de marketing e publicidade”, explica, elencando casos como a nova legislação do RGPD, que entrou em vigor na Europa a 25 de maio.

Sendo uma empresa multinacional com sede no Reino Unido, o documento alerta também para as futuras implicações do Brexit no negócio da empresa. “Estes desenvolvimentos, ou a perceção de que alguns deles possam ocorrer, tiveram e continuam a ter um efeito material adverso nas condições económicas globais e na estabilidade dos mercados financeiros em todo o mundo”, que poderão também ter implicações negativas nos custos, vendas e retenção de pessoal qualificado.

Pagamentos

“O falhanço em controlar riscos associados a métodos de pagamento, fraudes de cartão de crédito ou outras de consumidores, poderiam prejudicar a nossa reputação e marca e também causar sofrimento ao nosso negócio e operações”, explica a Farfetch. A empresa alerta para o facto de, ao contrário das práticas atuais respeitantes aos cartões de crédito — que permitem à empresa uma proteção eficaz das transações sem acesso à assinatura do titular do cartão — esse cenário poderá mudar ao mesmo tempo que a empresa continua “a expansão global”.

Monetização da inovação

Outro dos riscos associados ao setor tecnológico é a incapacidade de monetizar novidades no que toca à inovação criada dentro da empresa. “Estamos constantemente a desenvolver tecnologia inovadora como a iniciativa FarfetchStoreofthe Future. A nossa capacidade de monetizar estas tecnologias e outras novas linhas de negócio de maneira a torná-las sustentáveis depende de diversos fatores, muitos dos quais estão além do nosso controlo”, assegura.

Redes sociais

A presença ativa da empresa em redes sociais, emails e mensagens de texto pode também ter um impacto menos positivo no investimento, sobretudo devido à exposição. ”

“Usamos o social media, emails e mensagens de texto como parte da nossa estratégia de marketing omnicanal. Como as leis e regulamentação mudam rapidamente, uma falha nossa, dos nossos empregados ou de terceiros (…) poderá afetar negativamente a nossa reputação ou submeter-nos a algumas penalizações”, admite a empresa, sublinhando ainda a possibilidade do “uso inapropriado” dessas plataformas.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

José Neves e outras 10 ameaças para a Farfetch

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião