Prova dos 9: Crédito às empresas “está muito aquém do que é normal” como diz o primeiro-ministro?

António Costa diz que os bancos têm de ganhar cultura de maior risco na concessão de crédito. Têm de largar o "comodismo" dos empréstimos às famílias, passando a financiar as empresas.

Durante anos, a torneira do crédito esteve fechada. A crise esgotou as fontes de financiamento do setor financeiro, levando os bancos a tornarem-se altamente restritivos. Mas aos poucos, com o desanuviar da tensão nos mercados, mas também com as medidas extraordinárias de cedência de liquidez do Banco Central Europeu (BCE), o crédito voltou a fluir. Há dinheiro, mas, diz António Costa, há ainda muito “comodismo” por parte da banca.

Em entrevista à TVI, questionado sobre se está preocupado com o excesso de crédito na economia, o primeiro-ministro menorizou os alertas sucessivos que têm sido feitos tanto cá dentro, com o Banco de Portugal na “linha da frente”, mas também lá fora, casos da Comissão Europeia e do FMI.

"Os bancos não podem acomodar-se exclusivamente no crédito ao consumo das famílias ou no crédito de compra de habitação.”

António Costa

Primeiro-ministro

Em vez de temer o excesso de crédito, Costa optou por criticar aquilo a que chama de “comodismo” por parte do bancos que, salientou, só estão interessados em emprestar dinheiro às famílias. “Não podem acomodar-se exclusivamente no crédito ao consumo das famílias ou no crédito de compra de habitação”, disse, notando a falta de aposta do setor no financiamento às empresas.

A frase

Preocupado com o excesso de crédito na economia? “Preocupa-me é a falta de crédito ao investimento produtivo. Tenho repetido que a nossa banca está muito aquém do que é normal no investimento às empresas, disse o primeiro-ministro, em entrevista à TVI.

“Os bancos têm de ganhar uma cultura de maior risco como é o crédito empresarial”, rematou António Costa.

Os factos

Apesar de o novo crédito estar a aumentar, o crédito à economia continua a encolher. Esta evolução, apesar de menos acentuada do que no passado, mantém-se. Mas traduz dois movimentos distintos nos destinos de financiamento.

De acordo com os dados do Banco de Portugal, até julho o crédito total à economia ascendia a 164,9 mil milhões de euros. Este valor representa uma quebra de 0,87% face aos 166,3 mil milhões registados no final do ano passado, mas também uma redução de 2,2% face ao período homólogo (168,6 mil milhões de euros).

A quebra não se vê no caso das famílias. Com o novo crédito a disparar mês após mês, o stock de empréstimos para particulares tem vindo a crescer nos últimos meses. O saldo ascendeu a 92,85 mil milhões de euros no final de julho, com o crédito para a casa a representar a maior “fatia” do total.

entre as empresas, a tendência continua a ser de diminuição. Os dados do Banco de Portugal mostram que este ano o saldo encolheu em 1,5%, acumulando uma quebra de quase 4% no espaço de um ano.

O total de financiamento às empresas ascendia a 72,03 mil milhões de euros, em julho. É um montante bastante aquém da média registada nos últimos anos. Estava acima dos 75 mil milhões no ano passado, dos 80 em 2016, sendo que em 2013 superava mesmo a fasquia dos 100 mil milhões. Em 2011, o ano da chegada da troika, estava acima dos 115 mil milhões. É preciso recuar a 2001 para encontrar um valor mais baixo: 68,4 mil milhões.

Crédito às famílias cresce, encolhe para as empresas

Fonte: Banco de Portugal

Prova dos 9

Os dados oficiais comprovam as declarações de António Costa de que o crédito às empresas “está muito aquém do que é normal”. Há, efetivamente, menos crédito para as empresas, que veem o ritmo de nova concessão ser insuficiente para compensar a amortização de empréstimos.

Assiste-se a um travão por parte da banca no que toca ao financiamento para as empresas, sendo este explicado pelo maior risco associado. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no empréstimos à habitação, em que existe um imóvel como colateral, no caso das empresas não há.

Os bancos, apesar de precisarem de conceder mais crédito — que está na base da sua atividade — para conseguirem aumentar os níveis de rentabilidade, têm mantido restrições adicionais no caso das empresas, procurando evitar ficarem expostos ao risco extra que estas representam.

Ao contrário do que acontece no caso do particulares, em que o nível de crédito em incumprimento é, tradicionalmente, baixo, no caso das empresas mantém-se elevado o número de créditos que ficam por pagar. A taxa de incumprimento era, em julho, de 11,45%, segundo o Banco de Portugal.

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